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    Filme 'Nosso Segredo' faz da dor cotidiana um evento cinematográfico

    Diretora Grace Passô faz combinação única de humor, tragédia e estranheza

    UOL
    27 de agosto de 2026 às 03:00
    Filme 'Nosso Segredo' faz da dor cotidiana um evento cinematográfico
    Criança com cabelo afro encaracolado está de pé perto de uma janela com cortinas amarelas translúcidas que deixam entrar luz quente. Um adulto está sentado em uma cama à direita, em sombra, observando a criança. O ambiente é um quarto com p — Foto: UOL

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

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    Cena do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô - Divulgação · Divulgação
    Cena do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Depois de receber do passageiro, interpretado pelo músico Mateus Aleluia , um CD com músicas gravadas e um enigma —"o que você tem esquecido na rua?"—, o motorista de aplicativo Gilson, papel de Robert Frank , dirige de volta para casa, numa Belo Horizonte de fim de tarde. Ao fazer a curva, percebe que um caminhão de lixo interrompe o trânsito. Coloca então o CD para tocar.

    Nessa sequência, que Grace Passô escolheu para a abertura de seu primeiro longa-metragem como diretora, a espera dura tempo suficiente para que o homem ao volante sorria para os garis, pendurados no caminhão.

    Junto com a montagem, a voz de Geraldo Azevedo , na trilha sonora, convida a reparar em pequenas belezas que vão surgindo no trajeto, como o alaranjado do céu que rima com a cor dos macacões dos lixeiros.

    Veja cenas do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô
    Veja cenas do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O filme " Nosso Segredo " acompanha a vida de uma família negra, no período que se segue à morte do pai. Uma mãe, quatro filhos, uma tia, uma vizinha e a tristeza palpável do luto, que cada um encobre como pode.

    O caçula, Tutu, de nove anos —com interpretação formidável de Efraim Santos—, se faz de doente, não quer ir para a escola. O adolescente Guto, vivido por Flip, emenda baladas e picha muros –provavelmente de sua autoria, a frase "para sempre, nem o pixo" estampa o portão da casa onde moram.

    Grazi, vivida por Jéssica Gaspar, trabalha silenciosa ao computador, ouve música e dispensa o namorado. Gilson, o mais velho, passa o dia dirigindo e, quando chega em casa, tenta colocar tudo em ordem e tem sonhos estranhos.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    A estranheza, porém, não se restringe aos pesadelos. Uma gosma lamacenta escorre pela parede da sala, e ninguém toca no assunto, até que a situação se torna insustentável.

    Com uma trajetória consagrada como atriz, dramaturga e diretora, no teatro , no cinema e na televisão , Passô reafirma, com "Nosso Segredo", a força e a singularidade de seu olhar. "Vaga Carne", espetáculo teatral de 2017 , lançado como média-metragem em 2019, já trazia algo que "Nosso Segredo" reitera.

    Há uma combinação única de humor, tragédia e estranheza que, em meio a silêncios e lacunas da narrativa, dá espaço para que os tempos mortos, em que aparentemente a narrativa não avança, ganhem densidade e intensidade. Nessas pausas, o corpo do ator –e da atriz– atinge seu potencial máximo de expressão.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Como não se emocionar quando Jéssica Gaspar canta, quase no fim do filme, depois de tudo o que a família viveu? Ou quando o corpo nu de um homem adulto, do porte de Robert Frank, se encolhe sobre uma manta de criança? Passados cem minutos de filme, o segredo deles, tão lógico quanto fantasioso, torna-se também nosso.

    Há, sim, pontas soltas no roteiro, e nem todos os enigmas são resolvidos. Isso não diminui o feito do longa. É um acontecimento cinematográfico, premiado no Festival de Gramado com os troféus de melhor longa brasileiro, melhor fotografia e melhor direção de arte.

    Como indica o olhar detido para os garis de Belo Horizonte, que a diretora de fotografia Wilssa Esser filma com maestria, "Nosso Segredo" chama atenção para a beleza de gestos que, de tão banais, poderiam passar despercebidos. Com o filme, Passô explicita sua postura de trabalho e faz poesia a partir daquilo que em geral se descarta.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/filme-nosso-segredo-faz-da-dor-cotidiana-um-evento-cinematografico.shtml.

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