Filme lembra Honestino Guimarães e expõe a barbárie da ditadura
Longa mescla documentário e ficção

Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos
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Honestino Guimarães é um líder estudantil importante nos anos 1960, que acabou um tanto esquecido pelo tempo. Um filme sobre ele tem, primeiro de tudo, o papel de homenagem à sua memória. É importante lembrar que o diretor, Aurélio Michiles, foi seu colega na Universidade de Brasília.
Em segundo lugar, o filme se justifica por situar-se primordialmente em Brasília. Temos uma capital federal nova em folha e, para começar, um Darcy Ribeiro que consegue quase contrabandear a lei que funda a hoje bem conhecida UnB.
Temos então, por um lado, contato com a atividade, a liderança, a combatividade e mesmo a afetividade de Honestino. Entram aí depoimentos de diversos colegas, alguns que se tornaram guerrilheiros, outros que viriam a ser cineastas de destaque —neste caso estão Jorge Bodansky e Hermano Penna, que filmava clandestinamente atividades policiais-militares no campus—, e mesmo contemporâneos não necessariamente ligados ao líder, caso de José Genoíno, futuro guerrilheiro, ex-deputado federal e ex-dirigente político.

Michiles retoma a opção central de sua carreira, dando mais ênfase à segurança das informações do que à busca de inovação. Isso abre um vasto panorama a explorar sobre o seu personagem e, por exemplo, as relações afetivas, em especial a que mantinha com a filha que, pequena, hoje nem se lembra da figura paterna. Essa ideia é quase contrastante com a imagem do líder que saía à frente de todos para combater as tropas que a todo momento entravam no campus da UnB.
Honestino Guimarães iniciou sua atividade ainda como estudante secundarista, filiando-se à Ação Popular, a AP, corrente política de inspiração católica. Na UnB foi presidente do Diretório Acadêmico da Geologia, antes de se tornar o principal líder estudantil da capital federal.
Mais tarde, a AP assume-se como uma organização marxista-leninista, e muda a sua sigla para APML, radicalizando em relação ao ideário original, mas sem participar diretamente da guerrilha que outras organizações levavam adiante no país. A APML privilegiava a mobilização da população contra a ditadura, além da preparação de embates futuros.

Isso não impediu Honestino de ser preso e torturado mais de uma vez. Eis algo que o filme informa com ênfase. Mesmo antes do AI-5, decretado em dezembro de 1968, a força da repressão estava longe de ser suave.
Aqui entra outro traço bem particular do político. Mesmo quando a repressão se aprofunda, ele se recusa a deixar o país. Seus companheiros seguem em geral para o Chile, mas ele se recusa a sair do Brasil. Pior, ele não aceita tornar-se um recluso, sai para passear e conviver com amigos nos bares, além de não adota medidas extraordinárias de segurança.
Esse modo particular de comportamento de um político perseguido pela ditadura parece evocar a estratégia da "carta roubada", como no célebre conto de Edgar Allan Poe. A carta está em lugar tão óbvio que quem a procura não consegue acha-la.

A estratégia —se é que era essa— funcionou durante algum tempo. Depois disso, Honestino Guimarães foi preso, torturado e desaparecido. Uma das versões apresentadas suspeita que tenha sido vítima do Cenimar, instituição da Marinha famosa pela violência, que alguns afirmam ter o hábito de levar suas vítimas para alto-mar em aviões e despejá-las no oceano. Outra, vinda de um agente da ditadura, traz a suspeita de ele ter sido enterrado em um formigueiro.
Ambas parecem atestar a barbárie com que se dedicaram ao trabalho agentes do governo militar. O corpo de Honestino nunca foi encontrado. O filme reencontra traços da personalidade e atividade desse líder da geração de 1968, com a ajuda do ator Bruno Gagliasso , que passa por um momento de reconstituição da sua atividade.
Este trabalho que procura tornar esse registro pessoal e político o menos árido possível tem a virtude de produzir uma imagem forte dos que foram, sobretudo, os primeiros anos da ditadura no país —período que foi muito menos brando do que fomos acostumamos a acreditar.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/filme-lembra-honestino-guimaraes-e-expoe-a-barbarie-da-ditadura.shtml.

Bruno Gagliasso em cena do filme 'Honestino' - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL
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