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    Filme de Grace Passô usa o fantástico para expurgar traumas de pessoas negras

    Grace Passô lançou seu primeiro longa-metragem como diretora no Festival de Gramado , na semana passada, e ainda assim parecia ser uma velha conhecida do tapete vermelho. Enquanto seu filme, " Nosso Segredo ", agora já nos cinemas do país, era uma das exibições mais aguardadas do evento, o nome da diretora soava com frequência nos corredores do Palácio dos Festivais. Leia mais (08/26/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    27 de agosto de 2026 às 02:00
    Filme de Grace Passô usa o fantástico para expurgar traumas de pessoas negras
    Mulher com cabelo cacheado loiro e raiz escura apoia o rosto nas mãos, olhando diretamente para a câmera. Fundo cinza escuro e roupa preta completam a composição. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Cartaz do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô - Divulgação

    Cartaz do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô - Divulgação · Divulgação
    Cartaz do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Grace Passô lançou seu primeiro longa-metragem como diretora no Festival de Gramado , na semana passada, e ainda assim parecia ser uma velha conhecida do tapete vermelho. Enquanto seu filme, " Nosso Segredo ", agora já nos cinemas do país, era uma das exibições mais aguardadas do evento, o nome da diretora soava com frequência nos corredores do Palácio dos Festivais.

    Em uma entrevista coletiva, Selton Mello, homenageado no evento gaúcho , classificou Passô como uma das maiores atrizes que já viu, tamanha sua "poderosa presença". Os dois trabalharam juntos em um dos episódios de "Sessão de Terapia", série da Globoplay.

    Aos 46 anos, o currículo de Passô como atriz é extenso, especialmente nos palcos, onde também se tornou dramaturga. No cinema , protagonizou títulos como "Temporada", "No Coração do Mundo", "O Dia que Te Conheci" e "Praça Paris". No teatro, venceu dois prêmios Shell por "Por Elise" e "Vaga Carne", monólogo com o qual rodou o país.

    A artista Grace Passô, que estreia na direção de longas-metragens com 'Nosso Segredo' - Vitirne Filmes/Divulgação · Vitirne Filmes/Divulgação
    A artista Grace Passô, que estreia na direção de longas-metragens com 'Nosso Segredo' - Vitirne Filmes/Divulgação · Vitirne Filmes/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "A direção de cinema é pensar várias coisas ao mesmo tempo, algo comum no teatro. Fazer teatro no Brasil te obriga a entender sobre produção", disse ela, de óculos escuros azulados e blazer, na manhã seguinte à exibição de "Nosso Segredo". Coroado como o melhor filme do festival no último sábado, o filme havia estreado em fevereiro numa mostra do Festival de Berlim .

    O longa acompanha uma família composta por mãe, tia e quatro filhos, três maiores de idade e Tutu, de nove anos. Logo na primeira cena, o irmão mais velho, interpretado por Robert Frank, diz a um passageiro durante uma corrida de aplicativo que seu pai, única pessoa branca da casa, morreu recentemente.

    Apesar da convivência pacífica, há um clima tenso no ar. É como se houvesse um assunto proibido que empesteia o local. O vilão parece ser o luto, até que o desconforto vai ganhando formas sobrenaturais.

    Veja cenas do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô
    Veja cenas do filme 'Nosso Segredo', de Grace Passô — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Lama escorre pelas paredes por vezes, o teto começa a mofar, e nenhum habitante, com exceção de Tutu, se atreve a frequentar o andar de cima da residência —que, no começo da história, a mãe comenta estar em obra há muito tempo.

    A camada de terror que Passô acrescenta à trama se forma sobre o dia a dia aparentemente corriqueiro da família. "Tenho uma obsessão com o estranhamento. Com essa ideia de que algo estranho nos faz olhar de uma forma diferente para as histórias", afirma.

    Essa marca está presente em seus trabalhos anteriores como autora. No caso de "Vaga Carne", uma entidade invade o corpo de uma mulher e passa a analisá-la de dentro para fora. Em "Nosso Segredo", a ideia é entender como a ausência pode se tornar insuportavelmente presente.

    Vela imagens do filme 'No Coração do Mundo'
    Vela imagens do filme 'No Coração do Mundo' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Quais são as estratégias para continuar vivendo após grandes traumas, grandes perdas? Eu queria falar sobre o quanto, historicamente, pessoas negras e suas famílias sobreviveram a traumas devido ao afeto. É isso que fez a tragédia colonial não exterminar nosso povo", diz.

    A reflexão política permeia detalhes do cotidiano familiar. Em certo momento, por exemplo, o filho mais velho diz que o trabalhador, cansado no final do dia, "não tem mais ouvido para escutar e olhos para ver". Em outra cena, o namorado da filha presenteia Tutu com uma máscara que ele usava quando criança, época em que sofria bullying na escola.

    Mas Passô desvia de certo didatismo que, por vezes, acomete filmes dedicados a críticas envolvendo classe, raça ou gênero. O elemento fantástico é uma estratégia, diz ela, de tratar assuntos complexos de forma visual e, mais importante, emocional.

    Veja cenas da montagem de 'Porgy and Bess' no Theatro Municipal de SP
    Veja cenas da montagem de 'Porgy and Bess' no Theatro Municipal de SP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "O cinema negro tem contribuído muito para o cinema brasileiro. Em determinado momento, um filme precisava falar só sobre assuntos como racismo e violência. Hoje queremos abstrair os assuntos para que eles virem sentimentos", disse ela a jornalistas, em Gramado .

    Não por acaso, "Nosso Segredo" aposta em tomadas fechadas no rosto dos atores, especialmente conforme sua perturbação se agrava e a casa definha.

    O ambiente em obras, sem previsão de conclusão, é uma realidade comum a muitas residências periféricas. A atenção particular dada à construção da residência da família é outra marca do trabalho de Passô, que faz cenários povoados de elementos simbólicos.

    Metade do rosto de uma criança com expressão neutra vista através de um buraco circular. Ao lado direito, escada de madeira em ambiente interno com iluminação quente.
    Metade do rosto de uma criança com expressão neutra vista através de um buraco circular. Ao lado direito, escada de madeira em ambiente interno com iluminação quente. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Foi o caso de sua montagem da ópera " Porgy and Bess " no Theatro Municipal de São Paulo, em setembro do ano passado. O espetáculo de George Gershwin retrata o cotidiano e a luta pela sobrevivência dos moradores negros de Catfish Row, um fictício bairro americano.

    Criada em 1935, a ópera rompeu barreiras ao exigir um elenco formado em maioria por cantores afro-americanos em uma época de segregação racial nos Estados Unidos. Pela primeira vez, a realidade negra ocupava os palcos da alta cultura, até então restritos a elites brancas.

    Para levar " Porgy and Bess " ao tablado brasileiro, Passô criou um cenário alaranjado, com uma única enorme estrutura de madeira colorida que emulava o cortiço da história. Ela era composta por vários compartimentos que se assemelhavam às casinhas típicas das favelas brasileiras.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os atores vestiam tênis esportivos, óculos espelhados e correntes, acessórios também associados à cultura das periferias brasileiras, enquanto o figurino de outros pendia mais para o clássico, com blazers ou roupas de estampas africanas.

    Passô critica o posicionamento da atual gestão do teatro, comandado desde junho pelo Instituto Bacarelli , depois de a Sustenidos ter perdido a disputa pelo equipamento cultural após enfrentar uma longa crise com a Prefeitura de São Paulo, que incluiu acusações de parlamentares da bancada conservadora de suposta doutrinação ideológica no teatro.

    Em junho, Edilson Ventureli, diretor-executivo do Baccarelli, afirmou que a gestão não tem a intenção de adaptar óperas para atender demandas de grupos minoritários nos espetáculos da forma como fez a gestora anterior.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Dentre as montagens estiveram espetáculos como "O Guarani" , de Carlos Gomes, com um elenco indígena, que destoava, em diversos pontos, das intenções do autor e foi vista como militante por grupos mais à direita.

    "Nós não temos a intenção de ter nada político ou identitário assim nas nossas produções", disse Ventureli. "Nós queremos cumprir o que o compositor escreveu. O que não significa ser conservador, tradicionalista ou retrógrado."

    "Fiquei assustada com a associação de produções que foram feitas nos últimos tempos a uma ideia de identitarismo", diz Passô . "É um resquício de uma noção muito colonial de cultura. São pessoas que têm saudade de um Brasil que não contava sua história verdadeira, que reverenciava uma ideia europeia de arte. Como se as belas artes fossem aquilo que consegue se aproximar da expressão europeia. Acho isso muito racista e demodê. É uma casa que deveria proteger a liberdade de expressões artísticas, mas está preocupada em limitar a ideia do que é ou não é uma ópera."

    Em resposta, o Baccarelli afirma que associar a atuação do instituto ao racismo é surpreendente e não corresponde à história ou aos valores da instituição. "Há 30 anos atuamos em uma favela, promovendo inclusão social, democratizando o acesso à arte, à educação e à cultura e ampliando oportunidades para crianças, jovens e famílias da periferia. O combate ao racismo, à desigualdade e à exclusão social faz parte da própria essência da nossa atuação", diz a nota.

    "Lamentamos, portanto, que declarações recentes sobre perspectivas artísticas para o Theatro Municipal de São Paulo tenham sido interpretadas como uma posição contrária à diversidade ou à representatividade", afirma ainda o texto. "A programação também contemplará produções contemporâneas, capazes de provocar debates e dialogar com questões do nosso tempo."

    No teatro, o trabalho de Passô também atualiza as bases lançadas pelo Teatro Experimental do Negro , grupo fundado por Abdias Nascimento na década de 1940, que revolucionou a dramaturgia do país ao abrir caminho para que corpos negros ocupassem o palco como protagonistas de suas próprias histórias.

    É essa liberdade narrativa que Passô leva também para as telonas, assim como outros conterrâneos mineiros, a exemplo de Gabriel Martins, de "Marte Um" , e André Novais Oliveira, de "O Dia que Te Conheci" . "[São cineastas] que estão conseguindo colocar outros corpos em evidência. Corpos que se sentem livres para falar como são, com seu próprio sotaque, que ajudam o cinema a pensar o que é um ator", diz.

    É algo que demorou a chegar, mas já era há muito esperado, dada a recepção de Passô por onde passa. Uma realidade profetizada por um dos membros da família em "Nosso Segredo", quando diz, casualmente, que "saudade é uma herança nossa".

    A jornalista viajou a convite do Festival de Gramado

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/filme-de-grace-passo-usa-o-fantastico-para-expurgar-traumas-de-pessoas-negras.shtml.

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