Brasil

    Filho de idosos influencers, microempresário mineiro vai de Zema contra polarização

    Daniel Oliveira votou em Bolsonaro, mas se decepcionou com a forma como ele lidou com a pandemia

    UOL
    10 de setembro de 2026 às 08:00
    Filho de idosos influencers, microempresário mineiro vai de Zema contra polarização
    Homem de barba e cabelo grisalhos, vestido com camiseta preta e calça cinza, sentado em cadeira de madeira em cozinha com iluminação natural. À direita, brinquedo rosa e azul no chão, e à esquerda, mesa com toalha estampada. — Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Meia dúzia de perucas se amontoavam na estante da sala de estar. Cabelos curtos, longos, lisos, encaracolados, pretos, loiros, ruivos, verde-amarelos...

    O microempresário Daniel Matos Soares de Oliveira, 45, na cozinha da casa que construiu para morar com a mulher, a filha de 2 anos e dois enteados adolescentes, nos fundos do terreno dos sobrados dos pais, em Belo Horizonte - Renato Stockle
    O microempresário Daniel Matos Soares de Oliveira, 45, na cozinha da casa que construiu para morar com a mulher, a filha de 2 anos e dois enteados adolescentes, nos fundos do terreno dos sobrados dos pais, em Belo Horizonte - Renato Stockle — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A Folha adentrou aquele sobrado de um bairro de classe média de Belo Horizonte para entrevistar um eleitor de Romeu Zema ( Novo ), o que não foi fácil de encontrar. Com 2% das intenções de voto para a Presidência , no mais recente Datafolha , o candidato mineiro tem desempenho melhor em Minas, mas não muito: 8% escolhem o político, que governou o estado de 2019 até março deste ano, quando renunciou para se dedicar à pré-campanha.

    Daniel Matos Soares de Oliveira, 45, o zemista raro, chegou para a entrevista, e logo seus pais também vieram para a sala –o sobrado é do casal, e o filho mora com a mulher, sua filha de 2 anos e dois enteados adolescentes em uma casa nos fundos do terreno.

    "Hoje não é com ocês, não", brincou com os pais, em mineirês. "Desta vez, eu é que sou o famoso."

    Daniel Matos Soares de Oliveira, 45, com os pais, Ramiro, 78, e Estelita, 69, que se tornaram influencers de humor quando a loja da família, em Belo Horizonte, precisou fechar em razão da pandemia - Renato Stockler · Renato Stockler
    Daniel Matos Soares de Oliveira, 45, com os pais, Ramiro, 78, e Estelita, 69, que se tornaram influencers de humor quando a loja da família, em Belo Horizonte, precisou fechar em razão da pandemia - Renato Stockler · Renato Stockler — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Aquele casal não era mesmo estranho. E ficou claro o que aquele montinho de perucas fazia ali. Os pais de Daniel são influencers, com vídeos de humor que chegam a milhões de visualizações. Aos 78 anos, com o perfil @oseuramiro, Ramiro de Oliveira tem 688 mil seguidores no Instagram e 275 mil no TikTok, e usa as perucas para fazer papéis variados, de He-Man a Slash, do Guns N’ Roses .

    Sua mulher, Estelita, 69, começou a participar dos vídeos e acabou famosa também –o perfil @adonaramira tem quase 95 mil seguidores no Instagram. Seus hits são vídeos em que aparece com o cabelo despenteado e arrepiado, no papel da dona de casa que dá o duro. Recentemente, teve 6,6 milhões de visualizações um vídeo em que os dois estão em frente à loja de roupas Farm, com o título: "Meu marido descobrindo que Farm da fatura nunca foi farmácia..."

    Esse não foi um conteúdo pago, segundo Daniel, que administra os perfis ("Minha mãe gosta mesmo desses vestidos"), mas o casal já fez "publis". Recusou, no entanto, uma proposta para anunciar bets: R$ 80 mil por posts semanais durante três meses. "Tem muita gente viciada no trem. Como você dorme [se fizer o anúncio] pensando que alguém está sofrendo com isso?", diz Daniel.

    Eleitor, esse desconhecido - série de reportagens
    Eleitor, esse desconhecido - série de reportagens — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Essa história começou na pandemia. Ramiro tem uma loja de couros em BH desde 1988 –vende matéria-prima para fabricantes de bolsas, calçados e roupas. Daniel trabalha com o pai desde os 16.

    Quando o comércio precisou fechar em 2020, parecia o fim. Idoso e fumante, Ramiro teve que se isolar em casa e entrou em depressão. Daniel, formado em administração e com pós em marketing, recorreu às redes para alavancar as vendas da loja e fazer o pai se sentir melhor.

    Diante das câmeras, Ramiro mostrou desenvoltura. Os vídeos passaram a brincar com as dificuldades de empreender. Em um deles, aparece preocupado, diante do computador, com o título "Abri minha empresa para ninguém me dizer: ‘Você tem 1 hora para comer’ (Agora eu não como)".

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Seu Ramiro nem tem celular. "O Luciano Hang já fez uma ligação de vídeo para o meu número, para falar com ele. Quando a gente desligou, meu pai perguntou: ‘Quem é esse careca?’", contou, rindo.

    À Folha Daniel, que faz do roteiro à edição, fala sério: "A economia sempre é muito montanha-russa, mas, nos últimos tempos, está bem difícil. Eu sou pequeno, vendo hoje para pagar a compra de amanhã".

    Apesar das dificuldades, ele não concorda com "gente que fecha empresa no Brasil para abrir em outro país com menos imposto". "Pô, vamos tirar um trem bom daqui para mandar para o Paraguai?"

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Para ele, é Zema quem pode melhorar a economia, reduzir os gastos do governo e valorizar o empreendedorismo. "Ele pegou o Governo de Minas com muito problema [nas contas públicas], que teve que resolver . Funcionário público com salário sendo dividido, por exemplo", diz. "Também me identifico com o Zema porque ele tem empresas. E colocou muita escola técnica no interior, acho legal investir na educação."

    E há um motivo central: "Tem que diminuir essa polarização, isso só prejudica".

    Para ele, Zema é uma opção mais central à direita, com a qual se identifica. Receosos com ataques de haters, seus pais não declaram voto.

    BRASILIA, DF,  BRASIL,  05-07-2024, 12h00: Fachada do Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
    BRASILIA, DF, BRASIL, 05-07-2024, 12h00: Fachada do Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Na eleição passada, Daniel foi de Jair Bolsonaro, mas se decepcionou com "a questão do extremismo". "Ele gostava muito de enfrentar a imprensa, não tem essa necessidade", afirma. "O cara tinha o governo na mão, uma equipe de economia que eu achava top. Mas falava muita coisa... Pra quê?"

    Também critica sua atuação na Covid, "uma gripezinha", para o ex-presidente. "Eu perdi familiar, gente conhecida, e o jeito que ele falava deixava as pessoas muito incomodadas", afirma Daniel.

    Em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro , votará em Flávio, "mesmo não achando que é o ideal". Conta que já sentiu na pele a polarização. "Na última eleição, em um churrasquinho com a turma do spinning, me perguntaram em quem eu ia votar. Respondi Bolsonaro. Nossa... Eram eleitores do Lula e me chamaram até de burro, pararam de conversar comigo. Fiquei triste porque eu gostava deles."

    Mas Daniel discordou do extremismo bolsonarista pós-eleição. "Não é porque o Lula foi eleito que iria dizer que foi roubado. O pessoal vai numas lendas", diz. "Nunca fui para a frente de quartel. Tenho amigos que foram, e poderiam ter caído nesse negócio do 8 de Janeiro ."

    Em seu currículo de eleitor, tem até o petista. Votou em Fernando Henrique , Lula, Aécio Neves e Bolsonaro. Sobre o Bolsa Família, opina que "tem uma importância para ajudar as pessoas que não têm renda, mas deveria ser melhor estruturado porque tem gente que prefere receber essa ajuda a aprender alguma profissão".

    Católico, define seus votos pensando no futuro da filha. "É a ideologia que tenho hoje, mas sou aberto a mudanças. A gente está num avião e tem que escolher um piloto. Se não entrar o piloto que eu escolhi, não vou torcer para o avião cair. E tem gente que torce."

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    As principais notícias da semana sobre o cenário jurídico e conteúdos exclusivos

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/filho-de-idosos-influencers-microempresario-mineiro-vai-de-zema-contra-polarizacao.shtml.

    Imagem 1
    1 / 6

    O microempresário Daniel Matos Soares de Oliveira, 45, na cozinha da casa que construiu para morar com a mulher, a filha de 2 anos e dois enteados adolescentes, nos fundos do terreno dos sobrados dos pais, em Belo Horizonte - Renato Stockle — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)