Brasil

    Filantropia deve agir antes da próxima tragédia

    Quando uma forte chuva inundou parte da zona leste de São Paulo, no início de 2025, a resposta veio rapidamente. Organizações locais mobilizaram recursos, articularam parceiros e atenderam comunidades atingidas. Leia mais (09/24/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    24 de setembro de 2026 às 11:00
    Filantropia deve agir antes da próxima tragédia
    Homem caminha em água barrenta que chega à altura do peito em rua alagada de bairro residencial. Casas e muro ao fundo parcialmente submersos. — Foto: Folha de S.Paulo

    Espaço de debate para temas emergentes da agenda socioambiental

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    Moradores e comerciantes fazem mutirão para limpar imóveis atingidos pela inundação em Eldorado (RS), no Vale do Ribeira, após as fortes chuvas - Bruno Santos - 15.set.2026/Folhapress · Bruno Santos - 15.set.2026/Folhapress
    Moradores e comerciantes fazem mutirão para limpar imóveis atingidos pela inundação em Eldorado (RS), no Vale do Ribeira, após as fortes chuvas - Bruno Santos - 15.set.2026/Folhapress · Bruno Santos - 15.set.2026/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Analista de projetos do Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social)

    Coordenadora de projetos do Icom (Instituto Comunitário Grande Florianópolis)

    Quando uma forte chuva inundou parte da zona leste de São Paulo, no início de 2025, a resposta veio rapidamente. Organizações locais mobilizaram recursos, articularam parceiros e atenderam comunidades atingidas.

    As enchentes do Rio Grande do Sul pelas lentes da Folha
    As enchentes do Rio Grande do Sul pelas lentes da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O mesmo aconteceu em outras regiões do país, em Florianópolis , após eventos extremos de chuva , na região metropolitana de Belo Horizonte, depois do rompimento da barragem em Brumadinho e no Rio Grande do Sul, durante as enchentes de 2024. Em todos esses casos, um elemento se repetiu: a capacidade de reação nasceu dos próprios territórios.

    A experiência acumulada por essas iniciativas revela que não basta, porém, apenas reconhecer que as comunidades locais respondem melhor às emergências e que é preciso criar condições para que elas estejam preparadas antes que a próxima crise aconteça.

    Eventos extremos hoje já são parte da realidade brasileira, mas seguimos organizando boa parte dos esforços e investimentos apenas depois que os danos já ocorreram.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Essa lógica contrasta com exemplos internacionais. Em Bucareste, na Romênia, a cidade, considerada uma das capitais europeias com maior risco sísmico, mantém há anos um fundo permanente para futuras emergências, protocolos compartilhados entre diferentes instituições e uma cultura contínua de preparação, mesmo sem registrar um grande terremoto há décadas.

    Se um território que espera por um desastre incerto investe continuamente em prevenção, por que o Brasil ainda concentra seus recursos quase exclusivamente na resposta?

    Essa reflexão ganhou força dentro do Programa Transformando Territórios, iniciativa que fortalece FICs (Fundações e Institutos Comunitários) em diferentes regiões do país. Ao longo dos encontros, organizações de realidades distintas compartilhavam o diagnóstico de, independentemente da localização, já conviverem com os impactos crescentes da emergência climática.

    Foi desse processo que nasceu a experiência piloto dos FEPs (Fundos Emergenciais Preventivos), apoiada pela Mott Foundation, Movimento Bem Maior e Fundação Feac. A proposta parte de uma mudança simples, mas profunda, de financiar o "antes".

    Isso significa mapear riscos, identificar vulnerabilidades, construir protocolos, definir critérios de atuação, reunir poder público, organizações sociais, empresas e lideranças comunitárias em torno de uma governança compartilhada e estruturar mecanismos financeiros capazes de serem acionados rapidamente quando necessário.

    O Icom (Instituto Comunitário Grande Florianópolis), que possui mais de duas décadas de experiência na criação e gestão de fundos comunitários e emergenciais, foi parceiro técnico dessa experiência piloto, compartilhando sua metodologia consolidada e assessorando seis Fundações e Institutos Comunitários distribuídos entre Porto Alegre (RS) , Belo Horizonte (MG) , Paraty (RJ) , Maceió (AL) e dois territórios da cidade de São Paulo.

    Foram realizados diagnósticos territoriais, constituídos comitês intersetoriais, elaborados planos preventivos e redes locais de cooperação fortalecidas.

    As Fundações e Institutos Comunitários ocupam posição estratégica nesse processo. Por serem organizações enraizadas em seus territórios, conhecem as dinâmicas locais, mantêm relações de confiança com as comunidades e conseguem articular diferentes setores em torno de objetivos comuns.

    Historicamente, a filantropia é convocada quando a tragédia já aconteceu. Os Fundos Emergenciais Preventivos propõem inverter essa lógica, direcionando investimentos para reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de resposta dos territórios —essa, talvez, seja a principal inovação da experiência.

    Ainda é cedo para medir todos os resultados dessa iniciativa. Alguns deles só poderão ser avaliados quando os próximos eventos extremos ocorrerem. Ainda assim, talvez o indicador mais importante seja outro: que, no futuro, preparar territórios para as crises deixe de ser uma inovação e passe a ser uma prática permanente da filantropia brasileira.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/09/filantropia-deve-agir-antes-da-proxima-tragedia.shtml.

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    Moradores e comerciantes fazem mutirão para limpar imóveis atingidos pela inundação em Eldorado (RS), no Vale do Ribeira, após as fortes chuvas - Bruno Santos - 15.set.2026/Folhapress · Bruno Santos - 15.set.2026/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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