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    Fidel Castro não era comunista até EUA tentarem esmagar revolução, diz pesquisador de Harvard

    Autor de biografia do líder, Jonathan Hansen defende que levante era apenas anti-imperialista até a Crise dos Mísseis

    UOL
    14 de agosto de 2026 às 03:00
    Fidel Castro não era comunista até EUA tentarem esmagar revolução, diz pesquisador de Harvard
    Homem de barba espessa e cabelos encaracolados ajusta os óculos com as duas mãos enquanto usa um chapéu escuro. A imagem é em preto e branco, com foco no rosto e expressão concentrada. — Foto: UOL

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    Há duas ideias sobre Fidel Castro , cujo nascimento completou 100 anos nesta quinta-feira (13) , que Jonathan Hansen, professor do centro de estudos latino-americanos de Harvard, gosta de desmistificar.

    O ditador de Cuba, Fidel Castro, em 1988 - Ruben Perez - 26.nov.1988/AFP · Ruben Perez - 26.nov.1988/AFP
    O ditador de Cuba, Fidel Castro, em 1988 - Ruben Perez - 26.nov.1988/AFP · Ruben Perez - 26.nov.1988/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A primeira não causa muito alvoroço: o revolucionário não era bom de beisebol, paixão nacional de Cuba . "Ele gostava de basquete", diz o pesquisador. Já a segunda costuma exigir mais explicações. "Fidel não era comunista até os Estados Unidos esmagarem a revolução."

    Autor do livro "Young Castro: The Making of a Revolutionary" (O Jovem Castro: A Formação de um Revolucionário, em inglês), publicado em 2020 pela editora Simon & Schuster, Hansen dedicou anos de pesquisa ao período de formação política do líder do levante que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista, em 1959.

    "Sempre digo que parei no jovem Castro porque, naquela época, seus discursos ainda duravam apenas duas horas", brinca o pesquisador sobre o líder, que chegou a ficar um recorde de quatro horas e 29 minutos falando na Assembleia-Geral da ONU, em 1960. "Mas o Fidel ideólogo, que fez discursos inflamados sobre o comunismo, também existe, é claro."

    Jonathan Hansen, pesquisador de Harvard e biógrafo de Fidel Castro, afirma que revolucionário venceu 'antes que conseguisse estabelecer uma plataforma política' - Acervo pessoal · Acervo pessoal
    Jonathan Hansen, pesquisador de Harvard e biógrafo de Fidel Castro, afirma que revolucionário venceu 'antes que conseguisse estabelecer uma plataforma política' - Acervo pessoal · Acervo pessoal — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo

    O ponto de Hansen, no entanto, é que o revolucionário não era o comunista que muito se associa à sua imagem no início de sua vida política —ele era, na verdade, um nacionalista liberal. Isso significa que sua luta era essencialmente anti-imperialista, por soberania e autodeterminação de um país profundamente dependente de Washington.

    O revolucionário veio de uma família abastada e cresceu cercado por enormes plantações de açúcar dos EUA, diz o pesquisador. "Fidel cresceu em uma família que se dava bem com os americanos", afirma. "Ele teve uma juventude bastante luxuosa e, ainda assim, não considerava a riqueza algo garantido, talvez por seus pais terem sido camponeses."

    Cuba em crise energética e sob ameaça dos EUA
    Cuba em crise energética e sob ameaça dos EUA — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A virada no discurso e nas ações do líder teria ocorrido na Crise dos Mísseis. Um ano depois que exilados cubanos apoiados pelos EUA invadiram a Baía dos Porcos para derrubar o governo, Fidel aceitou que a União Soviética instalasse mísseis nucleares na ilha, algo que Moscou enxergava como resposta à ampliação das capacidades nucleares americanas na Turquia. A decisão deixou o mundo em alerta para uma possível guerra nuclear entre as duas potências.

    "Levou todo esse tempo", diz o pesquisador, que revelou mais de 100 cartas do revolucionário em seu livro. "Eu provo que Fidel não era comunista até os EUA entrarem para esmagar a revolução."

    Uma das passagens que servem de evidência para Hansen ocorreu em 1959, quando Fidel viajou a Buenos Aires , onde ocorria uma conferência vinculada à OEA (Organização dos Estados Americanos).

    Homem de meia-idade com cabelo loiro claro e curto, usando óculos de armação azul. Ele apoia o rosto na mão esquerda, veste camisa branca e blazer escuro, e olha diretamente para a câmera em fundo neutro.
    Homem de meia-idade com cabelo loiro claro e curto, usando óculos de armação azul. Ele apoia o rosto na mão esquerda, veste camisa branca e blazer escuro, e olha diretamente para a câmera em fundo neutro. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Naquela reunião, Fidel Castro, o grande comunista, propôs uma espécie de Plano Marshall para a América Latina , algo no valor de US$ 36 bilhões", diz o pesquisador. "Ele estava pedindo aos EUA e àqueles ministros da Economia não um presente, mas um empréstimo para construir mercado e promover oportunidades econômicas e de desenvolvimento —para Cuba, é claro, mas também para a América Latina, os EUA e o Canadá ."

    Esse tipo de iniciativa, no entanto, acabou engolida pela Guerra Fria e, em seguida, pelo embargo americano, segundo Hansen. "Ele foi colocado nessa posição porque os EUA decidiram que uma Cuba livre, independente e autodeterminada estava fora de questão em 1959", afirma.

    Para além do fato de a União Soviética ser a única potência capaz de fazer frente aos EUA na época, houve ainda um fator interno para a estratégia de Fidel, segundo Hansen: a rapidez com que o levante conseguiu derrotar o Exército de Batista a partir de sua base, na Sierra Maestra.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Ele venceu antes que conseguisse estabelecer uma plataforma política capaz de sustentar a plataforma militar. Então, quando os EUA atacaram, ele não tinha uma plataforma política capaz de resistir. Exceto por uma —o único grupo em Cuba que era bem organizado e que podia reagir. Eram os comunistas", afirma o americano.

    Cem anos após seu nascimento e dez após sua morte, Hansen ainda acha difícil determinar se Fidel entra para a história como um revolucionário ou um ditador.

    "Acho que os dois. Quando o imperialismo americano estava avançando, as pessoas se lembram do fato de que ele teve coragem —e capacidade— de enfrentar os EUA", diz. "Quando estamos discutindo problemas econômicos, então surge um Fidel diferente, que não conseguiu alimentar seu próprio povo."

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: UOL · Fonte: UOL

    E conclui: "Se a conversa é sobre desenvolvimento econômico na América Latina, Fidel não tem muitas respostas. Se for sobre a coragem de enfrentar o imperialismo, tem muito a nos ensinar".

    Professor do Centro David Rockefeller para Estudos Latino-Americanos, da Universidade Harvard, o historiador é autor de Young Castro: The Making of a Revolutionary (Simon & Schuster, 2020) e atualmente trabalha em um livro sobre o presidente de Ruanda , Paul Kagame.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/fidel-castro-nao-era-comunista-ate-eua-tentarem-esmagar-revolucao-diz-pesquisador-de-harvard.shtml.

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    O ditador de Cuba, Fidel Castro, em 1988 - Ruben Perez - 26.nov.1988/AFP · Ruben Perez - 26.nov.1988/AFP — Foto: UOL

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