Fidel, 100
Fidel Castro faria 100 anos nesta quinta-feira (13). Faleceu aos 90 , em 2016. Nossa amizade durou 36 anos, desde que o conheci na Nicarágua, em 1980. Na noite de 20 de julho, ele, Lula e eu conversamos das duas da madrugada às seis da manhã. Leia mais (08/12/2026 - 22h00)

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Escritor e educador popular, é autor do romance 'O Voo da Locomotiva' (ed. Rocco), entre outros livros
Fidel Castro faria 100 anos nesta quinta-feira (13). Faleceu aos 90 , em 2016. Nossa amizade durou 36 anos, desde que o conheci na Nicarágua, em 1980. Na noite de 20 de julho, ele, Lula e eu conversamos das duas da madrugada às seis da manhã.
Supus ser a única oportunidade de interpelar o mais destacado líder político da América Latina no século 20. Perguntei-lhe por que o Estado e o Partido Comunista cubanos eram confessionais. "Como confessionais? Somos ateus", reagiu. Ponderei: "Aceitar ou negar a existência de Deus é mera confessionalidade. A modernidade exige Estados e partidos laicos."

Fidel concordou. Poucos depois, alteraram-se a Constituição e o estatuto do Partido. O preconceito às religiões perdeu caráter institucional e a plena liberdade religiosa em Cuba se restaurou com a publicação da entrevista que ele me concedeu, em 1985, editada sob o título "Fidel e a Religião". Foi a primeira vez que um líder comunista no poder opinou positivamente a respeito do fenômeno religioso.
Fidel era notívago. Aproveitava as madrugadas para conversar com os amigos. Não sabia receber ninguém por menos de uma hora. Perguntador, tinha uma curiosidade bizarra, pois não apenas extraía do interlocutor conhecimentos e informações, como indagava o que havia comido no almoço, quais os seus autores preferidos, que estudos fizera.
Leitor voraz, para descansar a cabeça ele preferia os clássicos da ficção científica. Mas nutria especial interesse pela astronomia. Cada vez que eu viajava a Cuba, levava de presente o que mais lhe agradava: chocolates e livros que abordam os mistérios do Universo.

Seu talento oratório fora cultivado. Disse-me ter lido sobre os grandes oradores da Antiguidade. No entanto, na conversa pessoal falava baixo e fazia grandes pausas entre as frases. Conhecia em profundidade a vasta obra de seu principal inspirador: o herói nacional José Martí .
Disciplinado, comia pouco e fazia exercícios, em especial natação. Descobri que era uma pessoa humilde quando me atrevi a pedir licença para fazer-lhe uma crítica. "Você não apenas tem o direito de me criticar, mas também o dever", disse-me. A maior prova, porém, está em seu testamento, lido por Raúl Castro , seu irmão, na Praça da Revolução, na abertura de seu funeral. Nele, Fidel insiste não admitir que seu nome seja dado a nenhuma avenida, nenhuma universidade, nenhum monumento... Caso único na tradição comunista de culto à personalidade. E fez questão de que em seu túmulo, em Santiago de Cuba, fosse gravada a frase de Martí que mais o encantava: "Toda a glória no mundo cabe em um grão de milho".
O que primeiro chamava a atenção quando se deparava com Fidel era a sua imponência. Parecia maior do que era, e a farda o revestia de um simbolismo que transmitia autoridade e decisão. Quando ingressava em um recinto era como se todo o espaço fosse ocupado por sua aura.

Os que estavam em volta se calavam atentos a seus gestos e palavras. Os primeiros instantes costumavam ser constrangedores, pois ficavam todos esperando que ele tomasse a iniciativa, escolhesse o tema, fizesse uma proposta ou lançasse uma ideia, enquanto ele persistia na ilusão de que a sua presença era apenas mais uma na sala e que lhe dariam o mesmo tratamento amigável, sem cerimônias e reverências.
Como na canção de Cole Porter , ele devia se perguntar se não seria mais feliz sendo um simples homem do campo, sem a fama que o revestia. Gabriel García Márquez , que também integrava o círculo de amigos de Fidel, perguntou-lhe o que gostaria de fazer e não podia. "Ficar parado anonimamente em uma esquina", respondeu o Comandante.
Hoje Cuba enfrenta o período mais difícil em 67 anos de Revolução: o bloqueio de energia decretado por Donald Trump . Como o país depende de petróleo importado, a escassez causa apagões de 15 horas ou mais e afeta duramente a vida da população. O êxodo econômico, sobretudo de jovens, agravado após a pandemia, já reduziu em quase 2 milhões a população do país.

Frente a essa asfixia da nação, o governo introduz reformas, em especial na economia , agora aberta ao capital estrangeiro, e mantém vivo o exemplo de Fidel, cujo centenário será comemorado neste mês por uma intensa agenda de eventos.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/fidel-100.shtml.

Encontro do escritor Frei Betto com o líder cubano Fidel Castro em fevereiro de 2014 - AFP · AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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