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    Festival na cidade de Milton Nascimento e Wagner Tiso honra legado dos mineiros

    Numa noite de sexta-feira, num banquinho em frente à praça central de Três Pontas, no sul de Minas Gerais , três jovens se unem para tocar violão. Pela manhã, uma fanfarra desfila pelas ruas e é seguida por moradores, que dançam. No pôr do sol, uma família leva instrumentos para o cemitério e faz uma serenata para uma centena de pessoas. Obras de Milton Nascimento e Wagner Tiso unem todas as cenas. Leia mais (08/16/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    17 de agosto de 2026 às 02:00
    Festival na cidade de Milton Nascimento e Wagner Tiso honra legado dos mineiros
    Homem idoso com cabelo e barba grisalhos toca teclado eletrônico em palco com iluminação azulada e fundo escuro. Ele veste paletó azul escuro e está concentrado na música. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Numa noite de sexta-feira, num banquinho em frente à praça central de Três Pontas, no sul de Minas Gerais , três jovens se unem para tocar violão. Pela manhã, uma fanfarra desfila pelas ruas e é seguida por moradores, que dançam. No pôr do sol, uma família leva instrumentos para o cemitério e faz uma serenata para uma centena de pessoas. Obras de Milton Nascimento e Wagner Tiso unem todas as cenas.

    Wagner Tiso em show no Festival Música do Mundo, em Três Pontas, Minas Gerais - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação
    Wagner Tiso em show no Festival Música do Mundo, em Três Pontas, Minas Gerais - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A ocasião é o retorno do festival Música do Mundo , que interrompeu um hiato de dez anos, da última quinta-feira até este domingo, com uma edição majoritariamente gratuita em homenagem aos dois filhos mais ilustres da cidade de 55 mil habitantes.

    O evento foi criado em 2009 por Maria Dolores, que lançou há 20 anos a biografia "Travessia: A Vida de Milton Nascimento" . A inspiração foi o show "Paraíso", em 1977, quando o artista decidiu levar amigos como Chico Buarque, Clementina de Jesus, Gonzaguinha e Beto Guedes para tocar de graça na cidade em que cresceu. Um monte de pessoas apareceu e o show entrou para a história como o "Woodstock mineiro".

    A versão atual tem bem mais estrutura do que aquela, que, em sua casualidade, conseguiu capturar parte do que de mais empolgante acontecia na Música Popular Brasileira . Não é essa a pretensão do Música do Mundo, mas olhar para o legado musical criado dessas figuras célebres numa cidade de interior.

    Veja fotos do Festival Música no Mundo de 2026, em Três Pontas (MG)
    Veja fotos do Festival Música no Mundo de 2026, em Três Pontas (MG) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Dos homenageados, só Wagner Tiso, de 80 anos, pôde estar presente —Bituca, que tem 83 anos, recebeu o diagnóstico de demência por corpos de Lewy no ano passado e quase não faz mais aparições públicas. No sábado, quando shows de nomes como Nando Reis , Chico Chico e Beto Guedes aconteceram no palco principal, no aeroporto da cidade, Tiso participou de uma homenagem ao amigo.

    Ele subiu ao palco no fim da apresentação do Ânima Minas, um tributo feito a Bituca por músicos trespontanos que trabalharam com ele ao longo da vida, e tocou "Maria, Maria" e "Coração de Estudante" no piano. Naquela tarde, em conversa com a reportagem, elegeu a última como sua parceria preferida com Milton.

    "Foi uma espécie de hino das Diretas Já e fez parte do movimento inteiro. Eu fiz essa música para a trilha do filme do Silvio Tendler , ‘Jango’, sobre o João Goulart, e ela se chamava ‘Tema de Jango’", ele afirma. "Aí o Bituca foi ver a estreia do filme comigo e perguntou se podia botar uma letra nela. Eu falei ‘pô, Bituca, não precisa nem pedir’."

    Milton Nascimento em seu último show, no Mineirão; veja fotos
    Milton Nascimento em seu último show, no Mineirão; veja fotos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A música lançada em 1983 também apareceu na noite anterior, durante a serenata dos Tisos no cemitério. O encontro aconteceu pela primeira vez há 50 anos, depois que Mário Tiso pediu que os familiares tocassem na frente de seu túmulo quando morresse. A celebração cresceu e virou uma tradição da família e da cidade, agora incorporada ao festival.

    Foi um dos momentos mais bonitos do evento. Uma dezena de cantores e músicos de idades diferentes passou por clássicos de Milton, como "Encontros e Despedidas", "Travessia" e "Morro Velho" enquanto crianças brincavam pelas lápides e adultos se espalhavam, sentados no chão, em cadeirinhas e nos próprios túmulos.

    Quando chegou, Wagner Tiso foi introduzido como "um primo que está aprendendo a tocar piano" e logo levou algumas pessoas às lágrimas. A noite seguiu com um revezamento de microfone e faixas de gente como Gilberto Gil , Pixinguinha e Chico Buarque .

    Imagem aérea da Serenata dos Tiso no cemitério, que fez parte da programação do festival Música do Mundo, em Três Pontas (MG) - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação
    Imagem aérea da Serenata dos Tiso no cemitério, que fez parte da programação do festival Música do Mundo, em Três Pontas (MG) - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O som dos instrumentos e das vozes ecoando por um cemitério é um bom retrato da herança sonora da cidade, um lugar onde a música sai de todos os cantos —pelas frestas das janelas das casas, portas das igrejas, palquinhos dos bares e corredores das escolas, com grupos de fanfarras que também desfilaram no evento.

    Na manhã de sexta, a Banda Marcial Mário Tiso fez um cortejo que saiu da praça principal e terminou ao som de "Raça", de Milton, em frente à casa em que o artista cresceu. As irmãs dele, Jaceline e Beth, e uma prima, Vilma, assistiam à apresentação da janela.

    Foi bem nessa casa, no caminho para a escola, que Wagner Tiso viu Milton pela primeira vez, ainda crianças. "Eu sempre achei muito interessante aquela figurinha sentada na escadaria com uma gaita entre os joelhos e um violão embaixo das pernas", lembra o músico. "Ele ficava ali tocando e soprando a gaitinha. E eu pensava ‘poxa, é uma figura estranha’. Mas eu já via que dali saía som e beleza."

    A Banda Marcial Mario Tiso termina seu cortejo por Três Pontas (MG) em frente à casa onde Milton Nascimento cresceu; desfile fez parte da programação do festival Música do Mundo - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação
    A Banda Marcial Mario Tiso termina seu cortejo por Três Pontas (MG) em frente à casa onde Milton Nascimento cresceu; desfile fez parte da programação do festival Música do Mundo - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Anos depois, a dupla passou a frequentar o Pizza Dog, que fez parte do circuito de bares do Música do Mundo. Chico Chico e outros músicos mantiveram a tradição do lugar e improvisaram no piano do irmão de Wagner Tiso, Gileno, que fica ali. Uma outra forma que o evento encontrou de recriar a atmosfera daqueles tempos.

    "O Pizza Dog virou um ponto de músicos por conta do Bituca. Ele chegava na cidade, ia para lá e todo mundo ia atrás", lembra Betina Duarte Sousa, amiga de Milton e parte da produção do evento.

    "Ele é um agregador. O dia a dia fazia a gente se dispersar, mas, quando ele dizia que vinha, era uma festa. Além de trazer um tanto de gente de fora, todo mundo se juntava para fazer as programações. Era bom demais da conta." Beth, irmã de Milton, confirma. "As visitas dele viraram um feriado, ninguém queria ir para a escola nem sair de perto. A gente só queria ficar grudadas no Bituca."

    Público da edição de 2026 do festival Música do Mundo, em Três Pontas (MG) - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação
    Público da edição de 2026 do festival Música do Mundo, em Três Pontas (MG) - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Era na fazenda de Duarte Sousa que Milton fazia caminhadas quando voltava para a cidade. Da estrada de terra é possível ver a serra que batizou Três Pontas e foi adaptada por Milton numa pintura que viraria a capa do álbum "Geraes", que completa cinco décadas neste ano e também foi celebrado pelo festival.

    Nas mãos do cantor, o cenário virou um desenho simples, com três montanhas pontudas sob o Sol e um trem avançando na ferrovia. São elementos da história da cidade em que o artista cresceu, mas também partes indissociáveis de sua arte —o eco das montanhas que usou para aprender a cantar, o trem que trazia os discos que o influenciariam, o horizonte de suas canções e, enfim, o sol na cabeça.

    A repórter viajou a convite do Festival Música do Mundo

    A serra de Três Pontas, em Minas Gerais, vista da fazenda em que Milton Nascimento caminhava - Cíntia Duarte/Divulgação · Cíntia Duarte/Divulgação
    A serra de Três Pontas, em Minas Gerais, vista da fazenda em que Milton Nascimento caminhava - Cíntia Duarte/Divulgação · Cíntia Duarte/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Centenas de pessoas reunidas à noite em caminho central de cemitério iluminado por luzes artificiais. Túmulos e jazigos visíveis ao redor, com área urbana ao fundo.
    Centenas de pessoas reunidas à noite em caminho central de cemitério iluminado por luzes artificiais. Túmulos e jazigos visíveis ao redor, com área urbana ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
    Grupo de jovens com uniformes vermelhos de banda escolar marcha em rua diante de casa branca com varanda. Três pessoas observam da varanda da residência sob céu claro.
    Grupo de jovens com uniformes vermelhos de banda escolar marcha em rua diante de casa branca com varanda. Três pessoas observam da varanda da residência sob céu claro. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
    Grupo de pessoas jovens vibrando e cantando em show ao ar livre à noite. Mulheres na frente levantam os braços e expressam entusiasmo sob iluminação vermelha.
    Grupo de pessoas jovens vibrando e cantando em show ao ar livre à noite. Mulheres na frente levantam os braços e expressam entusiasmo sob iluminação vermelha. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
    Montanhas de relevo suave sob céu parcialmente nublado ao fundo. Em primeiro plano, extensas plantações verdes com vegetação baixa e algumas árvores isoladas.
    Montanhas de relevo suave sob céu parcialmente nublado ao fundo. Em primeiro plano, extensas plantações verdes com vegetação baixa e algumas árvores isoladas. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/festival-na-cidade-de-milton-nascimento-e-wagner-tiso-honra-legado-dos-mineiros.shtml.

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    Wagner Tiso em show no Festival Música do Mundo, em Três Pontas, Minas Gerais - Vanusa Campos/Divulgação · Vanusa Campos/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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