Festival de teatro reúne peças de países de língua portuguesa em São Paulo
Quando idealizou o Circuito de Teatro em Português, em 2003, a atriz e diretora Creuza Borges partiu de uma constatação simples: apesar do idioma compartilhado, o intercâmbio teatral entre o Brasil, Portugal e os países africanos ainda era quase inexistente. Leia mais (09/17/2026 - 13h00)

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Quando idealizou o Circuito de Teatro em Português, em 2003, a atriz e diretora Creuza Borges partiu de uma constatação simples: apesar do idioma compartilhado, o intercâmbio teatral entre o Brasil, Portugal e os países africanos ainda era quase inexistente.

Ao longo de 23 anos, o festival construiu pontes para encurtar essas distâncias e chega à sua 15ª edição, no Centro Cultural São Paulo , consolidado como uma rede viva entre as nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP.
Neste ano, contudo, o projeto dá um passo conceitual decisivo ao incorporar formalmente ao título as "Outras Línguas", voltando os olhos para as falas e manifestações originárias do Brasil e da África. Para Borges, essa ampliação não foi um rompimento de rota, mas o amadurecimento natural de uma convivência de décadas.
"A principal transformação foi perceber que falar a mesma língua não significa ter a mesma cultura. O Circuito nasceu justamente para valorizar essas diferenças e criar pontes entre elas", diz a curadora. A língua herdada da colonização, segundo ela, pode funcionar como ferramenta de encontro, desde que não atue para silenciar memórias e saberes pré-coloniais: "Não se trata de substituir uma língua por outra, mas de criar espaço para que todas possam ser ouvidas".

Essa diretriz dita o tom da abertura, no dia 18 de setembro, com a cerimônia "Vozes da Primeira Nação", conduzida pelo pajé Yuquetee Munduruku. Borges afirma que colocar os indígenas para abrir o evento é um ato de justiça histórica e de reverência à hospitalidade tradicional. "Os povos originários já viviam aqui muito antes de tudo o que veio depois se manifestar."
" Eles são parte da primeira história deste território . Por isso, nada mais justo do que a primeira nação falar primeiro", afirma a diretora, lembrando que a sabedoria indígena ensina que, antes de falar, é preciso saber escutar quem já estava na terra.
Entre os dias 18 e 27 de setembro, essa escuta se desdobra em montagens cênicas que fogem do lugar-comum. Em vez de buscar uma grade homogênea, a curadoria aposta na força do diálogo entre estéticas e geografias.

Entre os destaques internacionais, a companhia portuguesa Lobo Solitário apresenta " Damas da Noite – Uma Farsa de Elmano Sancho ", mergulhando nas provocações do transformismo e da cena drag queen , enquanto o grupo Piscadur di Letras, da Guiné-Bissau , relê o texto poético de Fernando Pessoa em "O Marinheiro", entrelaçando a dramaturgia lusa a cantos e ritmos tradicionais guineenses.
Na frente brasileira, a atriz Leona Cavalli sobe ao palco com o solo "Elogio da Loucura" , dirigido por Eduardo Figueiredo. A montagem transforma a clássica sátira humanista escrita por Erasmo de Rotterdam no século 16 em um espelho contundente do mundo contemporâneo, discutindo empatia, relações de poder e os retrocessos do presente.
A cena nacional traz ainda o grupo paraense Arte & Fato com "A Casa D'Água", espetáculo que revisita a grande cheia amazônica de 1954 para confrontar a romantização da lenda do boto e denunciar a violência sexual intrafamiliar contra mulheres.

A transversalidade do festival se estende a oficinas e encontros formativos, como o Seminário de Intercâmbio e Economia Criativa, que debate saídas profissionais e redes para criadores negros, indígenas e LGBTQIA+ .
"A presença desses artistas não é apenas uma questão de discurso: é uma escolha de programação, de contratação, de circulação e de criação de espaços para que essas pessoas possam apresentar suas próprias narrativas", afirma a fundadora.
O evento é totalmente gratuito. Para a diretora, sustentar uma estrutura internacional de grande porte —articulando passagens aéreas, vistos, hospedagens e acolhimento em meio a flutuações orçamentárias— continua sendo uma tarefa de insistência diária.
"Cada edição é uma nova negociação e uma nova construção. Manter um festival durante 23 anos talvez seja o nosso maior desafio —e também a prova da importância que esse intercâmbio adquiriu", diz Borges, reforçando que a gratuidade é uma escolha política essencial para democratizar o acesso à arte.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/festival-de-teatro-reune-pecas-de-paises-de-lingua-portuguesa-em-sao-paulo.shtml.

Espetáculo 'Tambores da Ancestralidade', vindo diretamente de Moçambique - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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