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    Festa da Chiquita, LGBTQIA+, mescla profano e sagrado no Círio de Nazaré

    Depois da transladação do Círio de Nazaré, que é a procissão que leva a imagem de Nossa Senhora de Nazaré da basílica em sua homenagem até a catedral da cidade, chegou a hora da "transviadação", brinca o ativista Beto Paes no palco da Festa da Chiquita. Leia mais (10/11/2026 - 16h11)

    Folha de S.Paulo
    11 de outubro de 2026 às 19:11
    Festa da Chiquita, LGBTQIA+, mescla profano e sagrado no Círio de Nazaré
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Depois da transladação do Círio de Nazaré, que é a procissão que leva a imagem de Nossa Senhora de Nazaré da basílica em sua homenagem até a catedral da cidade, chegou a hora da "transviadação", brinca o ativista Beto Paes no palco da Festa da Chiquita.

    Fiéis acompanham procissão da Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, neste domingo (11) - Marx Vasconcelos/Reuters · Marx Vasconcelos/Reuters
    Fiéis acompanham procissão da Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, neste domingo (11) - Marx Vasconcelos/Reuters · Marx Vasconcelos/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ela aconteceu neste sábado (10) de Círio e só começou depois que a estátua de Nazaré passou pela avenida, em respeito aos romeiros. É sobretudo um espaço de exaltação e resistência da comunidade LGBTQIA+ , idealizado 50 anos atrás e com nome inspirado na marchinha de Carnaval "Chiquita Bacana", conhecida na voz de Caetano Veloso.

    Promovida em frente ao Theatro da Paz, bem no meio do circuito religioso, a celebração lembra uma versão pocket da Parada LGBTQIA+ cercada dos símbolos da maior festa católica da América Latina . Há leques, drags, militância e o Troféu Veado de Ouro. A cantora Gloria Groove e o ex-deputado Jean Wyllys são alguns dos agraciados de edições passadas. O ator Alexandre Barillari foi um dos agraciados neste ano.

    Tem também concurso de drag queens, que opõe concorrentes como Desiree e Afrodite, ambas de peruca loira e roupas de vinil vermelho. A votação é na base da bateção de leque: quem empolgar mais a plateia leva.

    Glenda Aquilla, 44, na Festa da Chiquita, celebração LGBTQIA+ no meio do Círio de Nazaré - Anna Virginia Balloussier/Folhapress · Anna Virginia Balloussier/Folhapress
    Glenda Aquilla, 44, na Festa da Chiquita, celebração LGBTQIA+ no meio do Círio de Nazaré - Anna Virginia Balloussier/Folhapress · Anna Virginia Balloussier/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A Chiquita fica "no ponto nervoso de todas as manifestações possíveis" do Círio e talvez seja "a grande representação das distorções, das assimetrias e das contradições de Belém", diz Milton Ribeiro, doutor em antropologia pela Universidade Federal do Pará. Pesquisador que acompanha a festa há uma década, ele se integrou à organização neste ano.

    Uma confluência entre o profano e o sagrado. Taí um bom resumo da festa, repetem participantes. A drag Glenda Aquilla, 44, acrescenta: "A Chiquita acolhe todas as tribos LGBT e um pouquinho mais, não tem preconceito".

    Sabe que alguém como ela, que nesta noite veste um conjunto preto de renda e transparências, com paetês e franjas de strass, nem sempre é bem-vista em ambientes cristãos. Mas tem algo em Nazaré que faz a devota Glenda se emocionar.

    A drag queen Savanna, 26, presente na Chiquita - Anna Virginia Balloussier/Folhapress · Anna Virginia Balloussier/Folhapress
    A drag queen Savanna, 26, presente na Chiquita - Anna Virginia Balloussier/Folhapress · Anna Virginia Balloussier/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Essa mulher é a coisa mais importante da minha vida, uma santa milagrosa já me ajudou muito", diz. "A gente tem um respeito absurdo por ela. É a mãe de Jesus, e o nosso Deus é tão maravilhoso que não julga ninguém. As pessoas deveriam ter consciência de que o respeito é a melhor coisa do mundo."

    Como tantos paraenses, Savanna, 26, cresceu sob forte influência do Círio. Quando criança, na periferia de Belém onde morava, via de perto o Círio fluvial, que é o momento em que a imagem de Nazaré atravessa o rio. Há cinco anos, ela vai na corda da procissão principal, no domingo.

    É um elemento central no Círio, puxada por milhares de fiéis que, em meio a orações e empurrões, disputam um lugar junto a ela como gesto de gratidão à Virgem de Nazaré.

    Fiéis acompanham procissão da Nossa Senhora de Nazaré no Círio de Nazaré, em Belém
    Fiéis acompanham procissão da Nossa Senhora de Nazaré no Círio de Nazaré, em Belém — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Savanna vai sem sapato mesmo, ou periga perdê-lo, tamanha a intensidade da experiência. "A gente não consegue se mexer na corda. Vai a pessoa maior atrás, e a menor fica abaixo, na altura dos seus peitos. Só assim pra encaixar um no outro. Por isso é incrível, acontece união."

    A Igreja Católica não reconhece a Chiquita como parte oficial da programação, mas ela foi parar no pacote que levou o Círio a ser elevado a Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2013.

    Entrou como um "bem relacionado" ao ciclo de procissões, ao lado de outras tradições da época, como o farto almoço de família com pratos típicos, da maniçoba ao arroz paraense, e os brinquedos feitos com miriti, uma palmeira nativa da Amazônia que molda de barquinhos a passarinhos.

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    Para Milton, o antropólogo, a Chiquita é um espaço "dissonante e dissidente", que rompe, por uma noite, com o que chama de "imaginário cristão normativo".

    É também uma oportunidade "de dizer que as pessoas LGBT existem, sim, e muitos católicos têm que respeitar isso", afirma Jessica Marajoara, 45, erguendo uma sobrancelha pintada com lápis preto num rosto emoldurado por brincos imensos de pedraria.

    A dimensão religiosa pega de jeito a plateia, com muitos devotos de Nazaré que planejam virar a madrugada para pegar a procissão de domingo, bem cedinho. A estudante de psicologia Amanda Lira, 22, pretende fazer isso.

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    Não tem como ficar em falta com Nazaré. Diz que pediu à santa que sua família a aceitasse como é, após anos turbulentos em casa, que começaram quando se revelou lésbica. "Hoje minha mãe gosta mais da minha namorada do que de mim, se bobear", ela se diverte.

    O médico geriatra Milton Crenitte, 40, nem precisa ser católico para sentir o Círio na pele. "Não acredito em nada e acredito em tudo, mas na hora que passa a santa eu reparo na reação das pessoas e me emociono com a fé do povo."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/festa-da-chiquita-lgbtqia-mescla-profano-e-sagrado-no-cirio-de-nazare.shtml.

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