Fertilizantes e terras raras: desafios opostos, mesma fórmula
A aprovação do PL dos Combustíveis distribuiu benefícios tributários e flexibilizou regras de responsabilidade fiscal. Matéria desta Folha e editoriais de O Estado de S. Paulo e O Globo expuseram com clareza como o PL agrava o problema fiscal. Leia mais (08/21/2026 - 17h00)

Pesquisador associado do Insper, é organizador do livro 'Para não esquecer: políticas públicas que empobrecem o Brasil'
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

A aprovação do PL dos Combustíveis distribuiu benefícios tributários e flexibilizou regras de responsabilidade fiscal. Matéria desta Folha e editoriais de O Estado de S. Paulo e O Globo expuseram com clareza como o PL agrava o problema fiscal.
Ressalto aqui outro aspecto: o projeto viabiliza financeiramente políticas que prejudicam a produtividade e ajudam a nos manter na sina do baixo crescimento, o "Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes " e a "Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos".
Eles têm objetivos similares: fortalecer a indústria nacional nos dois segmentos, sem avaliação prévia de viabilidade. Recorrem aos malsucedidos instrumentos de sempre: compras obrigatórias de produção nacional, exigências de conteúdo local, financiamentos subsidiados e comitês governamentais para escolher vencedores.

A mesma fórmula é usada para lidar com desafios distintos. No caso dos fertilizantes , estamos na ponta frágil, pois somos grandes consumidores dependentes de importações, e corremos risco de desabastecimento quando há interrupção da cadeia de suprimentos.
Já no caso dos minerais, em especial as terras raras , estamos em posição de força, pois os temos abundância: uma oportunidade de obter ganhos econômicos com a alta demanda internacional e a incerteza geopolítica gerada pela concentração da oferta na China .
Para casos tão díspares, a mesma solução: industrialização induzida e subsidiada pelo Estado. Equivocada nos dois casos.

Para os fertilizantes , a pergunta correta não é "como produzir no Brasil os fertilizantes que ora importamos?" mas "como produzir a mesma quantidade de alimentos utilizando menos fertilizantes?" e "o que precisamos para atravessar meses de interrupção do comércio internacional sem comprometer uma safra?"
A primeira responde-se com pesquisa aplicada, área em que a Embrapa já avançou bastante e na qual valeria a pena concentrar mais recursos. A segunda, com uma combinação de estoques estratégicos, expansão de portos e armazéns e diversificação de fornecedores e rotas.
Estoque e diversificação para o risco de curto prazo; ciência e eficiência para reduzir a dependência no longo prazo. A produção nacional entraria à medida que o avanço tecnológico a tornasse competitiva, não como instrumento principal.
No caso dos minerais, o foco deveria ser maximizar o valor obtido com a exploração, aproveitando a disputa dos países por fornecedores confiáveis fora da China . Contratos de longo prazo poderiam diversificar compradores e obter, em contrapartida, investimentos em exploração e infraestrutura, cooperação científica e financiamento à pesquisa. Leilões bem desenhados permitiriam capturar para o país parcela maior da renda mineral. Já temos boas e más experiências no caso do petróleo para servir como guia.
Mapeamento geológico e informação pública de qualidade são boas aplicações de dinheiro público, pois atrai investidores e aumenta o potencial de renda a ser extraída.
O Brasil pode até ser competitivo em algumas etapas de beneficiamento e industrialização das terras raras. Mas isso deve resultar das vantagens econômicas decorrentes do avanço da pesquisa, e não da escolha ex ante de vencedores pelo governo.
Desafios opostos pedem estratégias distintas. Porém, tanto a fragilidade nos fertilizantes quanto a força nas terras raras são tratadas da mesma forma: distribuição de proteção e subsídios.
Desequilíbrio fiscal e baixa produtividade se retroalimentam, produzindo baixo crescimento.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-mendes/2026/08/fertilizantes-e-terras-raras-desafios-opostos-mesma-formula.shtml.

Instalações da mineradora Anglo American nas imediações da cidade de Barro Alto, no estado de Goiás, uma das maiores áreas de extração de Níquel no Brasil - Pedro Ladeira/Folhapress · Pedro Ladeira/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

