Fechamento de mais uma sinagoga em São Paulo enfraquece a memória judaica
[RESUMO] O edifício da chamada Sinagoga dos Lituanos, posto recentemente à venda, preserva elementos de grande valor arquitetônico e histórico e documenta os vínculos cotidianos que a comunidade judaica estabeleceu com o Bom Retiro. Para autoras, é preciso enfrentar o desafio de reinserir esse patrimônio na dinâmica da cidade e garantir que a sinagoga permaneça integrada à vida urbana de um bairro que se tornou singular pela coexistência de diferentes grupos de imigrantes. Leia mais (08/29/2026 - 10h00)

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Arquiteta e urbanista e pesquisadora do patrimônio cultural relacionado às sinagogas de São Paulo. Colaboradora do Instituto Brasil-Israel
Arquiteta, gestora e produtora cultural e pesquisadora no campo dos estudos judaicos. Analista de educação do Instituto Brasil-Israel
[RESUMO] O edifício da chamada Sinagoga dos Lituanos, posto recentemente à venda, preserva elementos de grande valor arquitetônico e histórico e documenta os vínculos cotidianos que a comunidade judaica estabeleceu com o Bom Retiro. Para autoras, é preciso enfrentar o desafio de reinserir esse patrimônio na dinâmica da cidade e garantir que a sinagoga permaneça integrada à vida urbana de um bairro que se tornou singular pela coexistência de diferentes grupos de imigrantes.

Recentemente, uma sinagoga histórica do Bom Retiro, bairro que durante décadas foi o principal reduto da imigração judaica asquenaze em São Paulo , foi posta à venda em razão da redução da sua comunidade frequentadora. A Beith Itzchak Elchonon, conhecida como Sinagoga dos Lituanos, além de espaço de culto, constitui um importante exemplar da arquitetura modernista paulista , preservando elementos originais de grande valor arquitetônico e histórico.
Não foi a primeira e, infelizmente, não deve ser a última que se perde. Diante das transformações sociais e urbanas, que ameaçam uma importante memória da presença judaica e do patrimônio arquitetônico de São Paulo, é urgente refletir sobre os riscos desse progressivo desaparecimento e sobre o compromisso coletivo com a sua preservação.
Fundada em 1936 por judeus de origem lituana e inaugurada em 1957, com projeto assinado pelo escritório Sznelwar & Raw, a sinagoga foi concebida com um amplo salão de orações, salão de festas, dependências administrativas, uma ala destinada ao público feminino e uma torre ornamental na entrada com relevos contendo imagens das 12 tribos de Israel.

Entre as oito sinagogas que existem hoje no bairro, é uma das únicas que incorporam o desenho das vanguardas modernas na sua arquitetura, fazendo par com o edifício da Casa do Povo , projeto do arquiteto Ernest Mange.
A beleza da sinagoga não se limita ao seu desenho, mas também se deve aos ornamentos e detalhes que transmitem os símbolos judaicos e foram concebidos sob medida para o espaço. No piso inferior, funcionava o antigo salão de festas, onde eram realizadas celebrações e comemorações de casamentos.
Ainda permanecem ali o Aron Hakodesh (armário em que são guardados os rolos da Torá), livros de oração, documentos administrativos, candelabros e outras peças litúrgicas cujo valor ultrapassa a dimensão material. Já não se realizam os tradicionais almoços de Shabat, que, durante décadas, reuniram a comunidade.

Um lance acima da entrada principal conduz à ala masculina, hoje com um piso de madeira desgastado. O corredor central, antes recoberto por um tapete azul, é ladeado por bancos de madeira semelhantes aos encontrados em diversas sinagogas da mesma época e origem. Esses bancos, que precisam de restauro, preservam pequenas placas fixadas nos seus encostos com os nomes dos antigos membros da comunidade.
Outras placas encontram-se próximas à entrada do primeiro andar, em homenagem a figuras da comunidade, frequentadores e doadores. Os lustres que circundavam o teto já foram levados por um antiquário logo após o edifício ser colocado à venda.
No segundo pavimento, localiza-se a galeria feminina. Ali, permanecem os mesmos bancos de madeira, com assentos identificados, além de um engenhoso jogo de espelhos que permite acompanhar visualmente as orações realizadas no salão principal.

A história da Sinagoga dos Lituanos se confunde com a da própria presença judaica no Bom Retiro. O bairro acolheu parte significativa das primeiras ondas da imigração judaica, composta majoritariamente de judeus do Leste Europeu, e se consolidou como um importante território de memória, sociabilidade e vida comunitária ao longo do século 20.
Entre as décadas de 1920 e 1970, abrigava diversas sinagogas, escolas judaicas, centros comunitários e associações beneficentes e culturais, além do Taib (Teatro de Arte Israelita Brasileiro) , formando uma paisagem urbana marcada pela presença judaica e pelas suas múltiplas expressões religiosas, culturais e políticas.
Com a ascensão econômica de parte da comunidade e a sua mudança para outros bairros, muitas dessas instituições passaram a perder gradualmente os seus frequentadores, o que provocou o esvaziamento dos espaços judaicos e colocou em risco parte significativa desse patrimônio arquitetônico.
O enfraquecimento dos vínculos cotidianos com o Bom Retiro resultou no fechamento de edifícios comunitários e religiosos que, durante décadas, desempenharam papel central na vida judaica paulistana. O mesmo vem ocorrendo em bairros como Mooca, Cambuci, Ipiranga, Pinheiros, Vila Mariana e Penha —bem como em tantos outros onde a comunidade judaica imigrante se estabeleceu.
O Bom Retiro, contudo, nunca foi um bairro monocultural. Antes da imigração judaica, já conviviam ali italianos, gregos, armênios e portugueses. Posteriormente, vieram os coreanos e, mais recentemente, bolivianos, paraguaios, peruanos, haitianos e migrantes nordestinos, que acrescentaram novas camadas a essa história. Não por acaso, iniciativas como o coletivo Bom Retiro É o Mundo defendem justamente essa vocação plural do bairro, recusando a ideia de que a sua identidade possa ser reduzida à experiência de uma única comunidade.
Nos últimos anos, as novas ondas migratórias e os debates em torno do projeto Koreatown , que vem recebendo apoio crescente, trouxeram uma nova visibilidade ao Bom Retiro. O projeto faz parte de uma lógica cada vez mais presente nas políticas urbanas de transformar territórios historicamente plurais em marcas culturais homogêneas, mais facilmente apropriáveis pelo turismo e pelo mercado imobiliário.
A rua Prates, por exemplo, passou a ser denominada Prates-Coreia em 2022 . Outros projetos de lei pretendem acrescentar Seoul ao nome da rua Três Rios e alterar o nome da estação Tiradentes para Tiradentes – Coreia do Sul . Trata-se de uma tentativa de captura simbólica e material do bairro.
Diante desse cenário, o desafio não é escolher qual memória merece permanecer, mas criar condições para que elas coexistam. A vitalidade do Bom Retiro sempre esteve na capacidade de acolher novas comunidades sem apagar completamente as anteriores. É essa convivência entre diferentes tempos da cidade que faz do bairro um patrimônio singular. Preservar as suas arquiteturas significa garantir que essas múltiplas narrativas continuem visíveis na paisagem urbana, permitindo reconhecer a complexidade da sua própria formação.
É por isso que a preservação da Sinagoga dos Lituanos faz tanto sentido hoje. Preservar o patrimônio arquitetônico judaico é reconhecer o compromisso coletivo e comunitário de manter vivas as marcas de uma história inscrita na paisagem urbana. Esse edifício guarda não apenas as suas qualidades arquitetônicas, mas também memórias de sociabilidade, pertencimento e vida comunitária. Ao mesmo tempo, documenta a evolução da arquitetura brasileira e revela como diferentes grupos de imigrantes ocuparam, transformaram e atribuíram novos significados ao território.
Hoje, há uma ainda incipiente onda de jovens judeus retornando ao bairro e reivindicando o território como espaço de presença judaica. O Bloco Klezmer do Bom Retiro , por exemplo, é um desses movimentos que desenvolvem um projeto de música folclórica judaica do Leste Europeu em diálogo com marchinhas, forrós e arrasta-pés, realizando um cortejo pelo bairro durante o Carnaval e trazendo à tona memórias da sociabilidade judaica no território.
A sobrevivência da sinagoga, contudo, depende de um delicado equilíbrio diante das pressões urbanas e demográficas. Os impactos da migração dos seus frequentadores tornam a manutenção, o restauro e a modernização tecnológica cada vez mais difíceis, sobretudo quando a escassez de recursos financeiros se soma ao desconhecimento do público sobre a importância artística e histórica de uma sinagoga.
O desafio é reinserir esse patrimônio na dinâmica da cidade e promover intervenções conscientes que evitem a descaracterização das linhas originais da sinagoga e garantam que ela permaneça integrada à vida urbana, não isolada como um fragmento esquecido do tecido social.
É necessário dar uma nova vida às dinâmicas judaicas no território. Afinal, ao desaparecer, uma sinagoga leva consigo uma página da própria história comunitária.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/08/fechamento-de-mais-uma-sinagoga-em-sao-paulo-enfraquece-a-memoria-judaica.shtml.

Fachada da Sinagoga Beith Itzchak Elchonon, localizada no Bom Retiro, na área central de São Paulo - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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