'Fé Disfarçada' explora dinâmicas de dominação no sexo, mas é limitado
Livro da porto-riquenha Mayra Santos-Febres aproxima a excitação e o trauma

Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos
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Poeta, tradutora e jornalista, é autora de “Talvez Precisemos de um Nome para Isso”. Apresenta o podcast Benzina.
Fé Verdejo é historiadora. Pesquisa vestígios da vida íntima de mulheres escravizadas em arquivos dispersos pela América Latina . Martin Tirado, especialista em documentos que trabalha na equipe dela em uma universidade, narra como o encontro entre os dois mudou sua vida ao longo de um ano.
Os capítulos de "Fé Disfarçada" alternam a ação no presente com relatos coloniais que misturam religião, maternidade, violência sexual e estratégias para obter a alforria.

A protagonista é uma intelectual negra com o projeto de restituir alguma dignidade para mulheres que figuram em registros históricos como sedutoras e manipuladoras, embora tenham sofrido toda espécie de abusos.
O romance aborda inúmeras contradições, inclusive como é possível conhecer uma história coletiva de traumas e agressões sexuais e ainda assim, individualmente, se excitar com práticas consensuais de dominação entre adultos.
A autora, a porto-riquenha Mayra Santos-Febres, observa a complexidade do desejo. O narrador, um homem branco, se envolve com a chefe em um jogo de sedução baseado em silêncios e trocas intelectuais. É a historiadora quem toma a iniciativa com o colega, dá a ele uma série de orientações para conduzir a relação , mas usa um traje que fere sua pele durante o ato sexual.

Martin se apaixona por Fé, mas é um narrador não confiável. O fato de só sabermos o que ele nos conta sobre a pesquisadora serve de lembrete da assimetria de poder entre quem narra e quem é retratada pelo outro.
"Fé Disfarçada" tem apenas um capítulo narrado pela protagonista: a memória de sua primeira relação sexual, iniciada com tesão e curiosidade, mas que termina num estupro . O episódio mescla excitação, medo e o prazer apesar da agressão.
A experiência dialoga com os arquivos da pesquisa da personagem, deixando a pergunta: seria possível para qualquer mulher ter uma vida sexual sem contato com a violência?

É possível ler o relato de Martin como ironia, uma vez que o narrador foi criado por uma autora negra. O personagem pode representar um branco bem-intencionado, imerso em fantasias, que se supõe capaz de libertar uma mulher negra de traumas passados.
A maior evidência do quanto Martin é risível é seu vocabulário formal e pouco excitante para se referir ao sexo . "Ao fundo de suas pernas, um púbis largo e negro se entreabre. Os lábios tremem como as asas de uma borboleta, rosados, enquanto Fé se acomoda sobre o divã, que enterra ainda mais os ferros do traje dentro de sua carne. Mordo minha língua. Quero comer essa carne. Abeberar. Enterro meu rosto entre coxas de Fé. Lambo e mordo até me faltar o ar."
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O livro parece ambicioso por abordar os traumas históricos coletivos da escravidão e as possibilidades de mulheres negras vivenciarem, hoje, o prazer de forma saudável —tendo seus desejos e limites respeitados, embora persista um imaginário racista de sensualidade e desejo insaciáveis.
Mas a obra se limita a refletir como o presente repete o passado —ainda que protagonista alcance independência financeira e capital intelectual. Isso porque, quando Fé narra sua história, de todas as experiências que poderiam ser destacadas para dar nuances à personagem, a escolha da autora é por um estupro.
É fato que um romance não precisa responder a temas tão complexos, nem é esse o papel da literatura . Se "Fé Disfarçada" é um livro provocador, ele se torna cansativo com a repetição de cenas violentas e descrições constrangedoras de encontros sexuais.

O romance estimula a imaginar os não-ditos e também a desejar outras histórias, em que mulheres negras podem gozar sem ter seu sangue derramado.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/fe-disfarcada-explora-dinamicas-de-dominacao-no-sexo-mas-e-limitado.shtml.

A escritora porto-riquenha Mayra Santos-Febres, autora de 'Fé Disfarçada' - Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação · Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação — Foto: UOL
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