Brasil

    'Fé Disfarçada' explora dinâmicas de dominação no sexo, mas é limitado

    Fé Verdejo é historiadora. Pesquisa vestígios da vida íntima de mulheres escravizadas em arquivos dispersos pela América Latina . Martin Tirado, especialista em documentos que trabalha na equipe dela em uma universidade, narra como o encontro entre os dois mudou sua vida ao longo de um ano. Leia mais (08/15/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    15 de agosto de 2026 às 16:00
    'Fé Disfarçada' explora dinâmicas de dominação no sexo, mas é limitado
    Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    A escritora porto-riquenha Mayra Santos-Febres, autora de 'Fé Disfarçada' - Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação · Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação
    A escritora porto-riquenha Mayra Santos-Febres, autora de 'Fé Disfarçada' - Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação · Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Poeta, tradutora e jornalista, é autora de “Talvez Precisemos de um Nome para Isso”. Apresenta o podcast Benzina.

    Fé Verdejo é historiadora. Pesquisa vestígios da vida íntima de mulheres escravizadas em arquivos dispersos pela América Latina . Martin Tirado, especialista em documentos que trabalha na equipe dela em uma universidade, narra como o encontro entre os dois mudou sua vida ao longo de um ano.

    Os capítulos de "Fé Disfarçada" alternam a ação no presente com relatos coloniais que misturam religião, maternidade, violência sexual e estratégias para obter a alforria.

    Como denunciar casos de violência contra a mulher
    Como denunciar casos de violência contra a mulher — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A protagonista é uma intelectual negra com o projeto de restituir alguma dignidade para mulheres que figuram em registros históricos como sedutoras e manipuladoras, embora tenham sofrido toda espécie de abusos.

    O romance aborda inúmeras contradições, inclusive como é possível conhecer uma história coletiva de traumas e agressões sexuais e ainda assim, individualmente, se excitar com práticas consensuais de dominação entre adultos.

    A autora, a porto-riquenha Mayra Santos-Febres, observa a complexidade do desejo. O narrador, um homem branco, se envolve com a chefe em um jogo de sedução baseado em silêncios e trocas intelectuais. É a historiadora quem toma a iniciativa com o colega, dá a ele uma série de orientações para conduzir a relação , mas usa um traje que fere sua pele durante o ato sexual.

    Ilustrablack fez a capa de 'Fé Disfarçada', estreia da escritora porto-riquenha Mayra Santos-Febres no Brasil pela editora Pallas - Divulgação · Divulgação
    Ilustrablack fez a capa de 'Fé Disfarçada', estreia da escritora porto-riquenha Mayra Santos-Febres no Brasil pela editora Pallas - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Martin se apaixona por Fé, mas é um narrador não confiável. O fato de só sabermos o que ele nos conta sobre a pesquisadora serve de lembrete da assimetria de poder entre quem narra e quem é retratada pelo outro.

    "Fé Disfarçada" tem apenas um capítulo narrado pela protagonista: a memória de sua primeira relação sexual, iniciada com tesão e curiosidade, mas que termina num estupro . O episódio mescla excitação, medo e o prazer apesar da agressão.

    A experiência dialoga com os arquivos da pesquisa da personagem, deixando a pergunta: seria possível para qualquer mulher ter uma vida sexual sem contato com a violência?

    Mulher de pele escura veste vestido amarelo vibrante com detalhes franzidos e amarrações na frente. A imagem mostra do pescoço até a cintura, com fundo escuro. Título 'Fé disfarçada' e nome da autora Mayra Santos-Febres aparecem à esquerda
    Mulher de pele escura veste vestido amarelo vibrante com detalhes franzidos e amarrações na frente. A imagem mostra do pescoço até a cintura, com fundo escuro. Título 'Fé disfarçada' e nome da autora Mayra Santos-Febres aparecem à esquerda — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É possível ler o relato de Martin como ironia, uma vez que o narrador foi criado por uma autora negra. O personagem pode representar um branco bem-intencionado, imerso em fantasias, que se supõe capaz de libertar uma mulher negra de traumas passados.

    A maior evidência do quanto Martin é risível é seu vocabulário formal e pouco excitante para se referir ao sexo . "Ao fundo de suas pernas, um púbis largo e negro se entreabre. Os lábios tremem como as asas de uma borboleta, rosados, enquanto Fé se acomoda sobre o divã, que enterra ainda mais os ferros do traje dentro de sua carne. Mordo minha língua. Quero comer essa carne. Abeberar. Enterro meu rosto entre coxas de Fé. Lambo e mordo até me faltar o ar."

    Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O livro parece ambicioso por abordar os traumas históricos coletivos da escravidão e as possibilidades de mulheres negras vivenciarem, hoje, o prazer de forma saudável —tendo seus desejos e limites respeitados, embora persista um imaginário racista de sensualidade e desejo insaciáveis.

    Mas a obra se limita a refletir como o presente repete o passado —ainda que protagonista alcance independência financeira e capital intelectual. Isso porque, quando Fé narra sua história, de todas as experiências que poderiam ser destacadas para dar nuances à personagem, a escolha da autora é por um estupro.

    É fato que um romance não precisa responder a temas tão complexos, nem é esse o papel da literatura . Se "Fé Disfarçada" é um livro provocador, ele se torna cansativo com a repetição de cenas violentas e descrições constrangedoras de encontros sexuais.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O romance estimula a imaginar os não-ditos e também a desejar outras histórias, em que mulheres negras podem gozar sem ter seu sangue derramado.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/fe-disfarcada-explora-dinamicas-de-dominacao-no-sexo-mas-e-limitado.shtml.

    Imagem 1
    1 / 6

    A escritora porto-riquenha Mayra Santos-Febres, autora de 'Fé Disfarçada' - Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação · Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)