'Fauda' encara trauma do 7 de Outubro em melhor temporada da série
Desde que foi lançada, em 2018, a série israelense "Fauda" apresentava uma interconexão única entre sua trama e a vida real. Co-criador e astro do programa, Lior Raz viveu basicamente tudo o que seu personagem Doron passava em tela. Leia mais (09/19/2026 - 10h00)

Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos
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Desde que foi lançada, em 2018, a série israelense "Fauda" apresentava uma interconexão única entre sua trama e a vida real. Co-criador e astro do programa, Lior Raz viveu basicamente tudo o que seu personagem Doron passava em tela.
Ele também esteve numa unidade de infiltrados na Cisjordânia , vivendo como palestino, para alimentar os serviços de inteligência de Israel acerca dos movimentos de extremistas. Como um personagem, também viu a namorada morrer num atentado.
O realismo tornou a temporauda inaugural de "Fauda", exibida pela Netflix , um sucesso. Mesmo a acusação de ser uma peça de propaganda, que seria feita mesmo que a série endeusasse o Hamas, foi diluída por uma boa dose de nuances.

Tanto israelenses quanto palestinos têm passados e dilemas morais. A segunda temporada seguiu na mesma toada, mas as duas seguintes perderam um tanto da pungência, tanto que o epílogo da quarta sugeria a morte dos protagonistas.
Ela havia sido lançada no começo de 2023. Raz e o colega de forças especiais e coautor Avi Issacharoff admitem que "Fauda", que significa caos em árabe, parecia esgotada. Até que sobreveio o 7 de outubro daquele ano.
A realidade se interpôs novamente: Raz e Issacharoff foram ao sul de Israel participar do resgate de sobreviventes ao assalto terrorista do Hamas , que deixou quase 1.200 mortos e 251 sequestrados.

Membro da equipe de produção, Matan Meir morreu lutando na Faixa de Gaza logo depois, e um dos protagonistas da série, Idan Amedi, foi gravemente ferido em 2024.
A quinta temporada de "Fauda", que estreou neste mês na Netflix, nasceu da necessidade de lidar com o maior trauma singular de um país nascido e criado sob guerras. Mesmo 1973, que viu o Estado judeu sob risco existencial, não se compara em impacto às atrocidades vividas 50 anos depois.
O resultado são 11 episódios de uma trama passada em 2025 em que o massacre emerge como memória incontida. O centro da história é a tragédia de Eli —um impressionante Yaakov Zada Daniel—, amigo e companheiro em armas de Doron, que perdeu mulher e dois filhos no 7 de Outubro.

A narrativa se desvela de forma menos coerente do que nas temporadas anteriores, talvez porque essa simbiose entre o real e o ficcional a torne mais difícil de organizar.
Doron vai parar em Marselha para tentar impedir que Eli e o colega beduíno Salem —Bian Anteer—, que perdeu o filho no ataque, se vinguem do assassino.
Dá tudo errado, como sempre em "Fauda", mas cada tropeço abre uma nova oportunidade de redenção para os infiltrados, a começar pela revelação sobre a relação do terrorista com Israel.

Aí "Fauda" se perde um pouco, quando leva Doron e Eli a tentar evitar o que seria um novo 7 de Outubro em miniatura. Há o recurso a soluções forçadas, e uma personagem central, a francesa Anne —Mélanie Laurent—, não convence na sua transformação em potencial mulher-bomba.
Já o vilão Saeed —Hakim Djaziri— cumpre à risca o papel de manipulador dos ingênuos ocidentais que confundem a defesa da causa palestina com o apoio a terroristas. Sua suavidade só é comparável ao horror que pretende lançar.
Nos episódios 7 e 8, o 7 de Outubro é encenado. Enquanto Budapeste teve de passar por Marselha devido a ameaças antissemitas à equipe de produção, o dia do massacre foi filmado em comunidades idênticas às atacadas na fronteira com Gaza.

O Hamas filmou boa parte de suas ações, quase roteirizando a ficção a seguir. Está tudo lá, de forma crua: fuzilamentos, estupros, o ataque à rave Nova, o completo despreparo de um Estado que se julgava imbatível em termos de inteligência e o caos da reação das forças de segurança.
Ante o trauma nacional em Israel, a produção avisa que é possível pular dois episódios sem perder a compreensão do enredo.
A quem não viveu a experiência ou lida com ela, eles são essenciais e incômodos, tornando quase irrelevante o desfecho em si da temporada —exceto pela ponta de Sagit, o personagem do ferido na vida real Amedi.
Do ponto de vista de roteiro, o problema óbvio de tal carga emocional é que as matizes desapareceram, dando lugar a dor, luto, raiva e uma vingança que os personagens admitem ser tão vazia quanto irresistível.
A tragédia inaugurou um novo ciclo de violência, mas perde o alvo quem criticar a série por não mostrar a obliteração selvagem imposta a Gaza. O centro é o tsunami emocional. Se o foco for apontar que quase ninguém na tela é inocente, "Fauda" nunca alegou o contrário.
Isso tudo dificulta em tese a venda do produto no exterior, ante a ojeriza que Binyamin Netanyahu e os seus provocam, com razão. Raz não parece se preocupar e entrega uma imperfeita melhor temporada de sua criação.
Até aqui, tem sido recompensado com boa audiência, inclusive em países afetados pelas guerras de Israel, como o Líbano, onde a obra chegou ao primeiro lugar no streaming.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/fauda-encara-trauma-do-7-de-outubro-em-melhor-temporada-da-serie.shtml.

Os atores Lior Raz, como Doron, à direita, e Yaakov Zada Daniel, como Eli, em cena da quinta temporada de 'Fauda' - Divulgação Netflix · Divulgação Netflix — Foto: Folha de S.Paulo
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