Famílias resistem a deixar favela demolida para obra de estação do metrô de São Paulo
A favela Nova Kampala tem uma história de idas e vindas no bairro da Penha, zona leste de São Paulo . Ela surgiu em meados da década de 2000. Foi desocupada em 2010, mas reapareceu quatro anos depois . Agora, deve encontrar seu fim. Pelo menos 1,2 mil famílias já foram retiradas. Leia mais (09/03/2026 - 06h00)

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A favela conhecida como Nova Kampala (à esquerda) está sendo demolida pelo CDHU para abrigar o complexo da estação Gabriela Mistral, que vai reunir as linhas 2-verde do metrô, 12-safira e 13-jade, do sistema de trens - Danilo Verpa / Folhapress

A favela Nova Kampala tem uma história de idas e vindas no bairro da Penha, zona leste de São Paulo . Ela surgiu em meados da década de 2000. Foi desocupada em 2010, mas reapareceu quatro anos depois . Agora, deve encontrar seu fim. Pelo menos 1,2 mil famílias já foram retiradas.
Dessa vez, o terreno vai abrigar uma estação do metrô . Por outro lado, uma parte dos moradores decidiu resistir à desocupação em meio às demolições empreendidas pela gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) .
Parte da área ocupada será destinada à construção da futura estação Gabriela Mistral, uma das paradas da segunda fase de expansão da linha 2-verde do metrô de São Paulo . A entrega desse trecho, com 6,2 km de extensão, cinco estações e um pátio de manutenção de trens, está prevista para o início da próxima década.

A remoção de 1,8 mil famílias pobres, no entanto, gerou um conflito entre os moradores da favela e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) , dona do terreno e responsável por desocupar a área de 47 mil metros quadrados.
Cerca de 600 famílias estão se recusando a deixar suas casas e a aceitar a proposta da CDHU. A companhia oferece R$ 2.400 para a mudança e mais R$ 800 mensais de auxílio-aluguel.
A empresa pública argumenta que há um mandado de reintegração de posse, que decisões da Justiça autorizaram as remoções e que vem tentando negociar uma saída amigável junto à população local.

Afirma, também, que as condições do local "são impróprias para moradia, devido à contaminação do solo, inclusive por metano, além de outros riscos associados à infraestrutura precária, como ocorrência de incêndios".
Em visita à favela na quinta-feira (27), a Folha encontrou servidores da CDHU abordando as famílias. Algumas responderam com hostilidade. A associação de moradores diz que a CDHU se utiliza de "ameaças e intimidação" para tentar convencer as famílias a deixar a área.
"Os servidores falam que, se não sairmos por bem, seremos retirados à força com ajuda da cavalaria da Polícia Militar", diz a promotora de vendas Maria do Rosário Ferreira, 37, uma das diretoras da associação União e Fé, que representa a comunidade.

"Estamos vivendo um momento de guerra aqui", diz a comerciante Josefa dos Santos Fontes, 52, dona de uma loja de roupas na favela. "A gente passa por muita luta. É muita humilhação aqui dentro. Quando não falta água, é a humilhação da CDHU em cima, a todo momento querendo derrubar a casa da gente."
Migrante da Bahia, Josefa conta ter investido mais de R$ 80 mil nos últimos anos para levantar sua casa e manter seu comércio em uma esquina da Nova Kampala. "Tudo o que a gente conseguiu na vida está aqui. Não vamos sair com as mãos abanando", diz.
Há pouco mais de um mês, a Polícia Militar foi chamada depois que moradores tentaram impedir a demolição de um imóvel que era usado para armazenar doações de alimentos e de brinquedos para as crianças. Alguns moradores, como Josefa, foram levados à delegacia, embora não tenham sido autuados por nenhum crime.

Para a dona de casa Marisalva da Silva, 53, a proposta de saída da CDHU não contempla as demandas de parte dos moradores. Na favela há 12 anos, ela conta ter pago R$ 50 mil pelo terreno onde fica sua casa de três cômodos, onde vive com o marido e quatro filhos.
"O que o governo oferece pra gente é uma dívida de 30 anos. Eles te dão uma merreca para sair e depois te colocam num financiamento de um apartamento. Eu tenho 53 anos, e vou ficar três décadas pagando? Tudo o que tínhamos foi investido aqui. Minha família é pobre, não temos como pagar um financiamento. Nós não vamos sair daqui", diz.
Em nota à Folha , a CDHU afirmou que famílias retiradas do local terão acesso "às alternativas da política habitacional estadual, incluindo imóveis prospectados pela companhia".
Uma das opções, diz a empresa, fica em frente à comunidade, "permitindo a manutenção de vínculos com o bairro, escolas e serviços públicos."
A CDHU também afirmou que depois da desocupação e limpeza do solo, parte do terreno ao lado da estação Gabriela Mistral vai abrigar conjuntos habitacionais da companhia.
Em vários pontos da favela a reportagem encontrou montanhas de lixo, entulho e móveis abandonados depois das demolições contratadas pela CDHU.
"Eles deixam todo o entulho ao lado da casa das pessoas que ficaram, o que tem atraído muitos ratos. Isso vai tornando nossa vida muito mais difícil. É uma pressão enorme em cima da gente", diz o costureiro peruano Jaime Rodrigues, 40, que também faz parte da associação de moradores.
Parte da população da Nova Kampala é formada por imigrantes, principalmente de países como Peru, Bolívia e Haiti.
A CDHU afirmou que as demolições são acompanhadas por engenheiros e que servidores da companhia estão orientando os moradores sobre o andamento das obras e alternativas habitacionais.
A estação Gabriela Mistral fará parte da segunda fase de prolongamento da linha 2-verde, que atualmente liga a Vila Madalena, na zona oeste, à Vila Prudente, na zona leste.
Segundo metrô, a estação será um dos "principais pontos de integração da expansão da linha 2". A companhia prevê um fluxo diário de quase 100 mil passageiros apenas na estação Gabriela Mistral. No total, a linha 2 deve carregar quase 1,5 milhão de pessoas por dia quando a expansão estiver pronta, tornando-se o ramal mais movimentado do metrô de São Paulo.
A linha 2 vai terminar na estação Dutra, dentro do município de Guarulhos. O ramal também será o maior da rede de metrô, com 29,2 km de extensão e 27 paradas.
O prolongamento, cujas obras se iniciaram em junho de 2020 na gestão de João Dora (PSDB), também vai conectar a linha 2 a outros ramais da rede metroferroviária: a 3-vermelha e a 11-coral na estação Penha; 12-safira e 13-jade justamente na estação Gabriela Mistral, e a futura linha 19-celeste, em Dutra.
Em 2027, o metrô deve entregar as primeiras quatro dessas estações e, no ano seguinte, mais quatro paradas. A segunda fase da extensão até Guarulhos, com a estação Gabriela Mistral incluída no pacote, está prevista para o início da próxima década, segundo o metrô.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/familias-resistem-a-deixar-favela-demolida-para-obra-de-estacao-do-metro-de-sao-paulo.shtml.

A favela conhecida como Nova Kampala (à esquerda) está sendo demolida pelo CDHU para abrigar o complexo da estação Gabriela Mistral, que vai reunir as linhas 2-verde do metrô, 12-safira e 13-jade, do sistema de trens - Danilo Verpa / Folhap — Foto: Folha de S.Paulo
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