Brasil

    Falta um mês para as eleições e hesitamos

    Diante do dilema de ver as condições de vida ruírem à nossa volta, uma inércia gigantesca parece ter tomado conta daqueles que ainda se preocupam com o país. Como justificaremos nossa omissão histórica? Leia mais (08/31/2026 - 16h23)

    Folha de S.Paulo
    31 de agosto de 2026 às 19:23
    Falta um mês para as eleições e hesitamos
    Foto: Folha de S.Paulo

    Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “Manifesto Antimaternalista”, “Felicidade Ordinária” (Jabuti 2025) e “Análise". É doutora em psicologia pela USP

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    Lula na campanha eleitoral de 2026
    Lula na campanha eleitoral de 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Diante do dilema de ver as condições de vida ruírem à nossa volta, uma inércia gigantesca parece ter tomado conta daqueles que ainda se preocupam com o país. Como justificaremos nossa omissão histórica?

    Matar pobres em vez de eliminar a pobreza, impor a própria religião, defender o fim ou a subordinação do voto feminino, propor a intervenção norte-americana no Brasil e, cereja do bolo, promover uma ditadura são posições que não parecem abalar a maioria dos ouvintes atuais.

    Quando o cinismo impera, fica quase impossível denunciar os descalabros, uma vez que as pessoas se vangloriam dos crimes e das injustiças que defendem ou cometem em vez de se envergonhar.

    Debate com os candidatos à Presidência
    Debate com os candidatos à Presidência — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Qual a peculiaridade desta eleição, na qual nós, que nos dizemos defensores da democracia —palavra que aparece até na boca de golpista— nos mostramos embotados, inertes, diante do altíssimo risco de desastre que vem sendo anunciado pelas pesquisas ?

    Quando as reais opções são um governo com erros conhecidos e preocupantes no plano econômico, de um lado, e, do outro, um sujeito que conspira abertamente contra o Estado de Direito, envolvido no maior escândalo financeiro do país e com milícias, qual a hesitação possível?

    Minha hipótese é a de que, do lado de quem ainda se diz preocupado com essas questões, há um desânimo em perceber que a eleição afeta pobres, vulneráveis e candidatos, mas não ameaça os que sabem, por larga experiência, que manterão o status quo independentemente de quem estiver no mandato.

    Flávio Bolsonaro na campanha eleitoral de 2026
    Flávio Bolsonaro na campanha eleitoral de 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Entre eles, oligarcas e estratos superiores da sociedade, que influenciam opiniões, não chegam a se abalar com o que ocorre à sua volta. Na pior das hipóteses, fazem um sabático no exterior durante os piores anos e voltam para visitar a república de bananas que ajudaram a promover, em seus carros blindados e condomínios-bunkers.

    A única preocupação deles é com a questão econômica, claro, mas nunca a economia que afeta os demais cidadãos do país, aqueles de quem extraem os recursos dos quais vivem.

    Os que trabalham na escala 6x1 sem direito a descanso e os que têm as piores condições de existência material em nossa sociedade não entram na conta dessa gente.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Eles realmente acreditam que é possível viver bem num país sem se responsabilizar pelo bem-estar do restante da população? Que é possível viver em paz onde não há justiça e condições de vida dignas à sua volta? Tanto faz, sempre se dá um jeito quando se tem todos os recursos à mão.

    E se engana quem pensa que a questão econômica lhes interessa apenas pelas viagens e jatinhos, que se tornam cada vez menos saboreáveis, tamanha a banalidade com que são adquiridos. Trata-se da própria manutenção do poder, que só o dinheiro pode garantir. Afinal, quem conviveria espontaneamente com arrogantes, empertigados e boçais se eles não estivessem sentados na grana?

    Sem o charme natural do dinheiro, não haveria quem enchesse o peito para chamar Daniel Vorcaro de irmão, amigo de fé, camarada ou "momolado". "Money can't buy love", pero agrega um bando de parasitas para simulá-lo.

    Faltam 34 dias para o primeiro turno das eleições e, a não ser que você se encaixe na turma do jatinho ou seja tão indiferente com o restante da população como a maioria deles, sugiro que acorde a tempo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2026/08/falta-um-mes-para-as-eleicoes-e-hesitamos.shtml.

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    Lula na campanha eleitoral de 2026 — Foto: Folha de S.Paulo

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