Falta de doadores e de órgãos trava transplantes para crianças no Brasil
Recusa familiar é maior em casos que envolvem menores, dizem especialistas

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Felipe Oliveira Costa, 7, hoje pode jogar bola em sua casa em Praia Paulistinha, bairro no extremo sul de São Paulo . Quatro meses atrás ele passou por um transplante de fígado .

Em abril de 2025, o menino desenvolveu a síndrome de Stevens-Johnson, causada por uma reação medicamentosa. Foi internado e, sete dias depois, a família descobriu que o fígado havia sido afetado.
Após seis meses de tratamento, o quadro clínico evoluiu para cirrose hepática , conta a mãe do menino, a esteticista Thais Angela da Costa, 37. Ascite ( barriga d'água ) e insuficiência hepática foram alguns dos sinais clínicos que indicaram a gravidade do quadro. O médico recomendou o transplante . Sem o procedimento, a criança correria risco de morte.
A criança foi internada no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, e o transplante foi feito no Hospital Sírio-Libanês .

"Ele ficou na lista de espera. Nós propusemos para a família que, se aparecesse um fígado de doador falecido compatível com o tamanho e o peso do Felipe, faríamos o transplante . Se não aparecesse, seria interessante ter um doador vivo de preparo [para preparação]", diz o médico Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Sírio-Libanês.
"Como não apareceu, conversamos com o pai, que se prontificou a doar parte do fígado ao filho. Ele poderia morrer esperando pelo transplante", acrescenta o médico. O hospital Menino Jesus é gerido pelo IRSSL (Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês), em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.
Além de evitar o álcool, o auxiliar de almoxarifado Abimael Maurício Oliveira Silva, 37, precisou perder peso . "Estava há seis meses sem beber, mas precisava chegar aos 90 quilos, no mínimo; pesava 106. Tenho arritmia cardíaca e decidi ir assim mesmo", conta o pai.

"Não tem coisa mais gratificante do que ver ele felizão desse jeito. Não solta mais de mim. Antes, era mais grudado com a mãe. Agora, me liga toda hora. Ele acha que eu o salvei, mas foi ele que me salvou e me salva todos os dias. É meu parceiro."
Pai e filho estão bem. Silva já retomou suas atividades cotidianas. Felipe permanece em casa e voltará à escola no ano que vem. O menino faz acompanhamento médico regular.
José Sampaio, cirurgião responsável pelo Serviço de Transplante Hepático do Hospital Pequeno Príncipe , no Paraná, explica que a porção do fígado doada por um adulto a uma criança representa uma fração pequena do órgão. O procedimento causa impacto mínimo na função hepática e no equilíbrio geral do organismo de quem doa, e o órgão volta a crescer.
"O fígado cresce após a doação, o órgão remanescente expande seu volume de forma global", diz.
Segundo Fonseca, a falta de doador pediátrico é um grande desafio para pacientes que precisam de transplante —apenas 2% das notificações de doador falecido se referem a crianças, aproximadamente. O peso e a altura precisam ser compatíveis para que o órgão caiba no receptor.
De acordo com o Ministério da Saúde , entende-se por doador vivo a pessoa maior de idade , juridicamente capaz, saudável e que concorde com o transplante, desde que não prejudique a própria saúde. É possível doar um dos rins e parte do fígado, da medula ou dos pulmões. Compatibilidade sanguínea é necessária. O médico também deve avaliar a história clínica e as doenças prévias do voluntário.
O doador morto é aquele com morte encefálica ou causada por parada cardíaca . Ele pode doar órgãos (rins, coração, pulmão, pâncreas , fígado e intestino) e tecidos (córneas, válvulas, ossos, músculos, tendões, pele, cartilagem, medula óssea , sangue do cordão umbilical , veias e artérias).
Em 2025, de acordo com a ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos), as famílias de potenciais doadores recusaram doações em 45% dos casos . Segundo os especialistas, nos casos envolvendo crianças a rejeição à doação é ainda maior.
"Grande parte das mortes encefálicas infantis acontece por afogamento ou um acidente que determina uma parada cardiorrespiratória . A família fica muito abalada e, quando você faz a abordagem, muitas vezes a resposta é negativa", afirma Fonseca, do Sírio-Libanês.
No caso dos adultos, o principal motivo de recusa é pelo desconhecimento da intenção do doador em vida, afirma Sampaio, do Hospital Pequeno Príncipe. "Aí cabe campanha de esclarecimento para estimular as famílias a conversarem sobre qual seria a decisão de cada um", diz.
O Brasil conta com 829 serviços de saúde autorizados a transplantar órgãos . Em 2025, 70 deles fizeram transplantes pediátricos. A informação é do Ministério da Saúde.
De janeiro a julho de 2026 (dados parciais), o país realizou 278 transplantes pediátricos de órgãos: 24 de coração, 114 de fígado e 140 de rim.
Em 2025, foram registrados 589 transplantes pediátricos de órgãos: 61 cardíacos, 211 hepáticos, dois pulmonares e 315 renais.
O SUS (Sistema Único de Saúde) adota uma lista única de espera, e a ordem de atendimento considera critérios técnicos e clínicos, além da compatibilidade entre doador e receptor —e não apenas o tempo de inscrição.
No caso de crianças, é considerada a compatibilidade do tamanho do órgão com o corpo do receptor. Mais da metade dos transplantes pediátricos (53%) é feita com órgãos de doadores na faixa de 11 a 17 anos.
A doação de órgãos de crianças depende da autorização de ambos os pais, quando vivos, ou do responsável legal.
Para Fonseca, doar um órgão é se ver no lugar do outro. "Pense no outro lado, coloque-se no lugar da outra pessoa. A doação de órgãos é o momento mais profundo da relação entre os seres humanos. Não existe uma conexão maior", afirma.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/falta-de-doadores-e-de-orgaos-trava-transplantes-para-criancas-no-brasil.shtml.

Felipe Oliveira Costa, 7, recebeu parte do fígado do próprio pai - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folhapress — Foto: UOL
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