Exposição no MIS retrata prostituição na Boca do Lixo no início dos anos 1980
Zona do baixo meretrício no centro de São Paulo conviveu com polo de cinema

As camadas de história encobertas em construções, ruínas e paisagens, por Vicente Vilardaga
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No começo dos anos 1980, a zona chamada Boca do Lixo , no centro de São Paulo, vivia um período de transição para a decadência absoluta. O polo cinematográfico independente que havia ali e transformava a região num cenário de arte e boemia perdeu o vigor das décadas anteriores por causa da falta de renovação do público das pornochanchadas e da crise econômica.
O terminal rodoviário da Luz , localizado entre a alameda Barão de Piracicaba e a praça Júlio Prestes, deixou de funcionar, levando vários pequenos negócios do entorno à falência e diminuindo a clientela das prostitutas. Além disso, a violência e a circulação de drogas na área aumentaram, o que abriria caminho, anos mais tarde, para o surgimento da cracolândia. A Aids também chegava sorrateira.
Um retrato poético e humano sobre o que foi a Boca do Lixo nessa época pode ser visto na exposição "Mulheres da Boca", que acontece no MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo até o dia 18 de outubro com entrada gratuita. Cerca de 60 fotografias, preservadas em negativos por mais de quatro décadas e só agora reveladas, mostram a rotina das prostitutas da região e apresentam o principal cafetão da zona, o imperador do submundo Joaquim Pereira da Costa, o Quinzinho.

O fotógrafo Wagner Carvalho fez as imagens durante a rodagem do curta-metragem experimental "Mulheres da Boca", de 1981, dirigido por Cida Aidar e Inês Castilho. A Cinelimite restaurou e digitalizou as fotos, com apoio do bar-museu Soberano-Rua do Triunfo , outrora principal ponto de encontro dos cineastas da Boca do Lixo.
"Nossa ideia é tornar protagonistas essas mulheres anônimas", afirma Marcelo Colaiávoco, um dos curadores da exposição e um dos proprietários do bar-museu Soberano. "Elas foram apagadas pela história e tanto o filme como a exposição demonstram um olhar mais humano em relação a essas trabalhadoras do sexo." Inês Castilho e William Plotnick, cofundador da Cinelimite, são os outros curadores da exposição.
A icônica boate Dakar é um dos locais mostrados no curta e no material fotográfico. Localizada fora do epicentro da Boca do Lixo, na esquina da rua Rego Freitas, a boate era frequentada por prostitutas da área. Tinha uma pista de dança iluminada e shows de strip-tease.

Outra presença marcante é a da polícia, sempre circulando pela área e fazendo prisões. Naquele momento o grande agente repressor da cidade era o delegado José Wilson Richetti , amplamente conhecido por comandar operações sistemáticas de perseguição e violência contra travestis, pessoas trans, homossexuais e prostitutas no centro de São Paulo.
No filme, uma cafetina conta que tinha uma pensão na praça Júlio Mesquita e foi se entrosando com as meninas da vida noturna. "Espontaneamente, quando vi, eu estava dentro do lenocínio", afirma. Ela se definia como comerciante e revelava que tinha um caso amoroso de muitos anos com um policial.
Há também uma entrevista com Quinzinho, que dividia o título de Rei da Boca com Hiroito Joanides , outro notório cafetão. No filme, ele lembra que conquistou o domínio na região brigando e que não permitia o surgimento de um sucessor. Diz também que sempre morara "em puteiros, no meio dos ladrões, dos assassinos e da polícia". Desfazendo um mito, nega que controlasse 2.000 mulheres na região, mas admite que tinha sido dono de um prédio, o Vermelhinho, onde havia cerca de 300 prostitutas. Quinzinho morreria atropelado em 1984 , três anos depois da realização do curta.

A Boca do Lixo surgiu depois que a principal área de prostituição em São Paulo, no bairro Bom Retiro, criada em 1940 pelo governador Adhemar de Barros entre as ruas Aimorés e Itaboca (atual rua Cesare Lombroso), acabou, em 1953. A partir daí mais de mil mulheres do baixo meretrício se espalharam por uma área que englobava partes dos bairros da Luz, Santa Ifigênia e Campos Elíseos e criaram a nova zona que permanece no imaginário de várias gerações.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/andancas-na-metropole/2026/09/exposicao-no-mis-retrata-prostituicao-na-boca-do-lixo-no-inicio-dos-anos-1980.shtml.

Foto da exposição "Mulheres da Boca" mostra prostituta fazendo striptease na boate Dakar - Wagner Carvalho/Divulgação MIS · Wagner Carvalho/Divulgação MIS — Foto: UOL
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