Ex-presidente perdoado por Trump expõe contradição dos EUA na América Latina
Se Donald Trump não tivesse decidido perdoá-lo, Juan Orlando Hernández estaria numa prisão americana, pagando uma pena de 45 anos. Em vez disso, o ex-presidente de Honduras voltou a seu país no mês passado, foi recebido por seguidores e reapareceu nos tribunais, onde responde a acusações de fraude e lavagem de dinheiro , que nega. Leia mais (08/29/2026 - 14h09)

Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Se Donald Trump não tivesse decidido perdoá-lo, Juan Orlando Hernández estaria numa prisão americana, pagando uma pena de 45 anos. Em vez disso, o ex-presidente de Honduras voltou a seu país no mês passado, foi recebido por seguidores e reapareceu nos tribunais, onde responde a acusações de fraude e lavagem de dinheiro , que nega.
Conhecido como JOH, Hernández governou Honduras de 2014 a 2022 e foi condenado por um júri de Nova York por participar de uma das maiores conspirações de narcotráfico da região. Segundo a Justiça americana, usou a Presidência, a polícia e as Forças Armadas para proteger traficantes e facilitar a passagem de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos .
É difícil encontrar contradição mais eloquente para a política de Trump na América Latina . Se o narcotráfico justifica ações militares, ataques aéreos e pressão sobre governos, por que libertar um homem condenado pela própria Justiça americana por ajudar a inundar o país de cocaína?

Honduras já era uma das principais rotas da droga quando Hernández chegou à Presidência prometendo combater o crime. Anos depois, promotores americanos sustentariam que recebia milhões de dólares do narcotráfico e protegia traficantes .
A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
Seu irmão, o ex-deputado Tony Hernández, foi condenado em Nova York em 2019 pelo tráfico de 185 toneladas de cocaína e recebeu prisão perpétua.

JOH deixou o poder em janeiro de 2022. Semanas depois, apareceu algemado diante das câmeras e foi extraditado para os Estados Unidos . Condenado em 2024, parecia ter chegado ao fim da carreira. Até Trump voltar à Casa Branca e perdoá-lo .
O contraste chega à própria família: Tony continua cumprindo prisão perpétua. JOH está livre. Ambos foram condenados pela Justiça americana, mas apenas um governou Honduras e continuava politicamente relevante.
O indulto coincidiu com outra intervenção de Trump. Às vésperas da eleição de 2025 , pediu votos para Nasry Asfura, candidato da direita pelo mesmo Partido Nacional de JOH, apresentou-o como aliado contra o narcotráfico e sugeriu que a ajuda americana poderia ser afetada caso perdesse. Asfura venceu .
Como se faltasse um personagem ao enredo rocaambolesco, sua campanha teve entre os assessores Fernando Cerimedo, estrategista argentino que trabalhou para Javier Milei e colaborou com o bolsonarismo. Hoje ele está preso preventivamente na Bolívia .
O caso hondurenho revela algo maior que a extravagância de um indulto. O combate ao narcotráfico é uma das justificativas centrais da política de Trump para a América Latina, mas não é o único interesse em jogo. Alinhamento político e influência regional também pesam.
Honduras é estratégica para as rotas da droga e os fluxos migratórios rumo aos Estados Unidos. Asfura rapidamente se alinhou a Washington.
Na política latino-americana de Trump, a divisão entre aliados e adversários parece importar tanto quanto aquela entre culpados e suspeitos.
Juan Orlando Hernández não escapou da guerra americana contra as drogas. Foi investigado, extraditado, julgado e condenado por ela. Escapou da pena graças ao presidente que transformou essa mesma guerra em justificativa para ampliar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sylvia-colombo/2026/08/ex-presidente-perdoado-por-trump-expoe-contradicao-dos-eua-na-america-latina.shtml.

O ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, discursa antes da primeira audiência de seu julgamento na Suprema Corte de Justiça, em Tegucigalpa - Orlando Sierra - 18.ago.26/AFP · Orlando Sierra - 18.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

