Brasil

    Ex-pobre tem memória curta

    Há muitos anos que o Brasil me oferece lições políticas valiosas. Leia mais (10/11/2026 - 14h58)

    Folha de S.Paulo
    11 de outubro de 2026 às 17:58
    Ex-pobre tem memória curta
    Homem de camiseta vermelha e bermuda caminha em passarela externa com panfletos voando e espalhados no chão. Outras pessoas caminham na mesma direção, com vegetação e morro ao fundo sob céu azul. — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista, comentarista de TV e radialista em Portugal, é formada em direito e autora de livros como 'Carta a um Jovem Decente'

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    Pedestres atravessam passarela coberta de santinhos eleitorais na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro - Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP · Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP
    Pedestres atravessam passarela coberta de santinhos eleitorais na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro - Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP · Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há muitos anos que o Brasil me oferece lições políticas valiosas.

    Fui conhecer a fundo e de ponta a ponta o país que fez o meu pai, um empresário da clássica direita europeia conservadora, dizer, no início deste século, uma frase que nunca mais esqueci: "O Brasil nos faz centrar. Não entendo como os brasileiros não se revoltam".

    Perceber as dinâmicas cruéis de uma desigualdade social extrema , o abismo intransponível entre ricos e pobres, o racismo estrutural enraizado e a desumanização do outro porque não pertence à mesma classe é qualquer coisa que tem de fazer refletir quem, estando do lado dos privilegiados, tem um cérebro pensante e mínimos de empatia.

    Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026
    Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Lembro-me bem do choque que senti quando vi que no condomínio de luxo de uns amigos em São Paulo havia zonas comuns e jardins onde babás e empregados não podiam permanecer. Ou quando ouvi outros, igualmente ricos, dizerem que "a gente não fala com serviçal". Ou como me custou a adormecer, ainda criança, na primeira vez que fui ao Rio, num hotel de cinco estrelas com a favela ali mesmo ao lado, a pensar na sorte da minha circunstância —e se eu tivesse nascido ali? O que, na minha cabeça jovem, entendi como um indecente apartheid não oficial ajudou a moldar a minha consciência política, juntamente com a educação em uma escola alemã progressista.

    Ver nascer e progredir uma classe média apoiada pelos programas de apoio social que surgiram neste século alimentou a minha fé na humanidade, na democracia e numa sociedade mais igualitária —afinal, vantajosa para todos. Ver os filhos dos tais serviçais poderem estudar na universidade e chegarem a médicos e advogados me fez acreditar no poder de revolução pacífica da mobilidade social. É claro que em Portugal isso também aconteceu, mas não de forma tão exuberante e tão rápida como no Brasil.

    Por estes dias, o Brasil continua a me fazer pensar. E a me inquietar. As últimas eleições são paradigmáticas nos fenômenos de rejeição, de polarização afetiva, a força do voto identitário e a escolha política por clubismo, por pertencimento ou por aspiração. E também é notável o poder das redes sociais, algoritmos e bolhas digitais para mobilizar fatias cada vez maiores do eleitorado —já lá vai o tempo da televisão como canal privilegiado de "mass media".

    Brasil vai às urnas neste domingo (4)
    Brasil vai às urnas neste domingo (4) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas é sobretudo um caso de estudo como o ressentimento, o grande combustível político dos nossos dias tão bem usado pelos populistas, pode atordoar tanto as pessoas que as faz até votar contra os seus próprios interesses pessoais —como a barata que vota no chinelo ou no inseticida.

    É impressionante ver como a turma que escapou da pobreza pode ter memória curta. Como se continua a repetir, contra fatos e evidências, que os programas sociais como o Bolsa Família produzem preguiçosos e que os pobres não fazem esforço para deixarem de ser pobres. Como uma vez ascendendo socialmente e deixando de precisar de assistência pública, se pode esquecer de onde veio a sua família e o que custou para lá chegar.

    Olhando para os dados de renda do eleitor brasileiro, as propostas dos candidatos e a forma como se comportaram as fatias da população mais pobres e as que ganham entre dois e cinco salários, nunca me fez tanto sentido o velho ditado português: "Nunca peças a quem pediu, nunca sirvas a quem serviu".

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mafalda-anjos/2026/10/ex-pobre-tem-memoria-curta.shtml.

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    Pedestres atravessam passarela coberta de santinhos eleitorais na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro - Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP · Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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