Ex-pobre tem memória curta
Há muitos anos que o Brasil me oferece lições políticas valiosas. Leia mais (10/11/2026 - 14h58)

Jornalista, comentarista de TV e radialista em Portugal, é formada em direito e autora de livros como 'Carta a um Jovem Decente'
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Há muitos anos que o Brasil me oferece lições políticas valiosas.
Fui conhecer a fundo e de ponta a ponta o país que fez o meu pai, um empresário da clássica direita europeia conservadora, dizer, no início deste século, uma frase que nunca mais esqueci: "O Brasil nos faz centrar. Não entendo como os brasileiros não se revoltam".
Perceber as dinâmicas cruéis de uma desigualdade social extrema , o abismo intransponível entre ricos e pobres, o racismo estrutural enraizado e a desumanização do outro porque não pertence à mesma classe é qualquer coisa que tem de fazer refletir quem, estando do lado dos privilegiados, tem um cérebro pensante e mínimos de empatia.

Lembro-me bem do choque que senti quando vi que no condomínio de luxo de uns amigos em São Paulo havia zonas comuns e jardins onde babás e empregados não podiam permanecer. Ou quando ouvi outros, igualmente ricos, dizerem que "a gente não fala com serviçal". Ou como me custou a adormecer, ainda criança, na primeira vez que fui ao Rio, num hotel de cinco estrelas com a favela ali mesmo ao lado, a pensar na sorte da minha circunstância —e se eu tivesse nascido ali? O que, na minha cabeça jovem, entendi como um indecente apartheid não oficial ajudou a moldar a minha consciência política, juntamente com a educação em uma escola alemã progressista.
Ver nascer e progredir uma classe média apoiada pelos programas de apoio social que surgiram neste século alimentou a minha fé na humanidade, na democracia e numa sociedade mais igualitária —afinal, vantajosa para todos. Ver os filhos dos tais serviçais poderem estudar na universidade e chegarem a médicos e advogados me fez acreditar no poder de revolução pacífica da mobilidade social. É claro que em Portugal isso também aconteceu, mas não de forma tão exuberante e tão rápida como no Brasil.
Por estes dias, o Brasil continua a me fazer pensar. E a me inquietar. As últimas eleições são paradigmáticas nos fenômenos de rejeição, de polarização afetiva, a força do voto identitário e a escolha política por clubismo, por pertencimento ou por aspiração. E também é notável o poder das redes sociais, algoritmos e bolhas digitais para mobilizar fatias cada vez maiores do eleitorado —já lá vai o tempo da televisão como canal privilegiado de "mass media".

Mas é sobretudo um caso de estudo como o ressentimento, o grande combustível político dos nossos dias tão bem usado pelos populistas, pode atordoar tanto as pessoas que as faz até votar contra os seus próprios interesses pessoais —como a barata que vota no chinelo ou no inseticida.
É impressionante ver como a turma que escapou da pobreza pode ter memória curta. Como se continua a repetir, contra fatos e evidências, que os programas sociais como o Bolsa Família produzem preguiçosos e que os pobres não fazem esforço para deixarem de ser pobres. Como uma vez ascendendo socialmente e deixando de precisar de assistência pública, se pode esquecer de onde veio a sua família e o que custou para lá chegar.
Olhando para os dados de renda do eleitor brasileiro, as propostas dos candidatos e a forma como se comportaram as fatias da população mais pobres e as que ganham entre dois e cinco salários, nunca me fez tanto sentido o velho ditado português: "Nunca peças a quem pediu, nunca sirvas a quem serviu".

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mafalda-anjos/2026/10/ex-pobre-tem-memoria-curta.shtml.

Pedestres atravessam passarela coberta de santinhos eleitorais na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro - Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP · Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

