Evangélicos votam à direita mesmo sem indicação de candidato na igreja
Como os evangélicos, um grupo sem comando centralizado, sem um "papa", que rejeita explicitamente a política no templo, ainda assim converge de forma tão clara nas urnas? A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil , do Iser (Instituto de Estudos da Religião) em parceria com a Quaest, aponta algumas pistas, como a alta frequência ao culto e a exposição a líderes religiosos nas redes sociais. Leia mais (09/30/2026 - 07h00)

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

é doutor em ciência política pela UFMG, professor da UFSCar e pesquisador do INCT ReDem
doutorando em ciência política pela UFSCar e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática
Como os evangélicos, um grupo sem comando centralizado, sem um "papa", que rejeita explicitamente a política no templo, ainda assim converge de forma tão clara nas urnas? A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil , do Iser (Instituto de Estudos da Religião) em parceria com a Quaest, aponta algumas pistas, como a alta frequência ao culto e a exposição a líderes religiosos nas redes sociais.

Se o modelo do "pastor manda, fiel vota" estivesse certo, os números apresentados não fariam sentido. Entre os pentecostais, 81% são contra discutir política na igreja, 87% são contra campanha no templo, e apenas 23% dizem que sua liderança recomendou voto em Bolsonaro no segundo turno de 2022.
No entanto, o alinhamento político existe e é consistente. Pentecostais se identificam mais com o PL do que com o PT , e a rejeição ao PT chega a 39% entre os protestantes (caso dos batistas, metodistas, presbiterianos, entre outros). O voto segue uma direção sem que haja uma figura central dando a ordem. Ainda assim, segundo os últimos levantamentos do Datafolha e da Quaest , o senador Flávio Bolsonaro está em torno de 30 pontos percentuais à frente de Lula nesse segmento, no cenário de segundo turno.
O conservadorismo moral do grupo ajuda a explicar essa direção, mas não a intensidade: 64% dos evangélicos se declaram conservadores, contra 54% dos católicos. Mas os católicos, também majoritariamente conservadores, deram maioria a Lula em 2022. Se o conservadorismo bastasse para prever o voto, os dois grupos teriam votado parecido. Não votaram. Algo entre a crença e a urna está fazendo a diferença.

Um dos achados mais contraintuitivos da pesquisa é que não existe, de fato, nenhuma liderança evangélica com alcance nacional relevante. Apenas 18% dos brasileiros seguem algum artista, influenciador ou líder religioso nas redes, e entre os pentecostais que seguem alguém, 78% citam nomes fora de qualquer lista de destaque. É uma novidade diante do senso comum, que imagina meia dúzia de pastores como grandes cabos eleitorais capazes de mover milhões de votos. Os dados sugerem uma estrutura pulverizada, sem porta-voz único, o que torna ainda mais intrigante o fato de o voto seguir um padrão nacional coerente.
A pesquisa também relativiza o tipo de conservadorismo com o qual os evangélicos se identificam. Dos pentecostais, 75% preferem que o dinheiro público destinado à segurança priorize educação e combate à desigualdade, não polícia e prisões. E a maioria é contra facilitar a posse de armas. É um conservadorismo concentrado em costumes e moral, não necessariamente transplantável para outras pautas que costumam ser associadas automaticamente à direita.
A frequência ao culto talvez seja a pista mais consistente. Quase metade dos evangélicos (46%) vai à igreja duas vezes por semana ou mais, contra 12% dos católicos. É um contato semanal, denso, que nenhuma outra religião reproduz na mesma escala, e que cria as condições para que uma opinião política circule e se confirme entre os fiéis sem que ninguém precise pregá-la do púlpito.
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
O que esses números indicam, portanto, é que o voto evangélico se forma menos por comando e mais por convivência. Ou como os sociólogos chamariam, socialização. Não há um pastor dando ordem a todo o campo, nem uma liderança nacional capaz de sincronizar milhões de fiéis. Há uma rede de igrejas, frequentada com uma intensidade que nenhum outro grupo religioso reproduz, onde uma leitura política comum se consolida por repetição e proximidade, não por hierarquia. É esse processo horizontal, e não a imagem do rebanho obediente ao púlpito, que parece explicar por que um grupo tão fragmentado por fora vota de forma tão coesa por dentro.
Se as preferências políticas e eleitorais dos evangélicos passam por um forte processo de socialização horizontal, não existe marqueteiro que mude esse cenário às vésperas das eleições .
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/evangelicos-votam-a-direita-mesmo-sem-indicacao-de-candidato-na-igreja.shtml.

TRE promove cerimônia pública de geração de mídias e preparação das urnas eletrônicas para a eleição 2026 na 1ª zona eleitoral, no centro de São Paulo - Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress · Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

