Evangélicos veem Nossa Senhora como serva de Deus, e não como objeto de culto
O protestantismo não cultua santos. Por isso, há tanta discordância entre evangélicos e católicos a respeito da devoção a Nossa Senhora, que veio à baila na semana passada diante da notícia falsa envolvendo Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Leia mais (09/27/2026 - 21h12)

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O protestantismo não cultua santos. Por isso, há tanta discordância entre evangélicos e católicos a respeito da devoção a Nossa Senhora, que veio à baila na semana passada diante da notícia falsa envolvendo Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

A campanha do senador busca conter os danos desde sexta-feira (24), após correr nas redes sociais a falsa notícia de que, se eleito, ele retiraria o padroeirismo da santa.
A história tem sido explorada por aliados do presidente Lula ( PT ) e chegou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e STF (Supremo Tribunal Federal).
Evangélicos acreditam na Virgem Maria, mas não a consideram com a mesma autoridade espiritual com a qual ela é tratada na Igreja Católica.

"Maria tem o seu lugar na tradição evangélica, como mãe de Jesus. Porém, ela é valorizada como serva de Deus, que gerou Jesus, o Salvador. Não é compreendida como 'mãe de Deus' nem como intercessora das pessoas diante do Filho de Deus que ela gerou, uma vez que na doutrina protestante não há mediação entre Deus e o ser humano", explica Magali Cunha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião).
A discordância existe desde que o movimento protestante surgiu, no século 16, com interpretações distintas sobre a passagem que narra a revelação dos 10 mandamentos a Moisés, no livro de Êxodo, capítulo 20: "Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti escultura [...] Não te prostarás diante delas e não lhes prestarás culto".
Para os católicos, a proibição divina diz respeito à representação palpável de Deus como objeto de adoração, e não sobre uma imagem religiosa qualquer, como anjos, pássaros e mesmo santos.

Entre os evangélicos, aqueles que são reconhecidos como santos pelos católicos são, na verdade, cristãos que servem de exemplo pela própria fé. Evangélicos não veneram essas figuras porque entendem isso como idolatria, que é quando outra divindade se impõe no lugar de Deus.
"Isto foi objeto de forte crítica dos reformadores dos séculos 15 e 16 ao catolicismo, que, na compreensão deles, permitia Deus ser colocado em segundo plano diante da adoração a santos", afirma Magali.
Na semana passada, pouco antes de virem à tona as postagens sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida, havia circulado a interpretação de que o alinhamento de bispos católicos com Lula viria de um temor de que o senador fluminense poderia agir nesse sentido por ser evangélico .

O receio ganhou tração diante de um projeto de lei apresentado em 2007 por um pastor, o então deputado Victorio Galli, para destituir Nossa Senhora do título de padroeira brasileira. A proposta foi arquivada em 2008 e, 11 anos depois, Galli virou assessor do governo Jair Bolsonaro (PL).
O episódio virou munição para os aliados de Lula. O vice-presidente Geraldo Alckmin ( PSB ), candidato à reeleição, escreveu no X que enquanto ele e o petista governarem o país as tradições religiosas "estarão protegidas e preservadas".
Já o candidato a governador de São Paulo Fernando Haddad (PT) ironizou, após ir à missa , que nem a mãe de Cristo escapou do bolsonarismo.
O entorno do senador receia que a comoção em torno da história possa gerar efeito similar ao do " chute na santa ", quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, em 1995, horrorizou fiéis ao dar pontapés numa estátua da padroeira e a insultá-la em um programa de televisão.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/evangelicos-veem-nossa-senhora-como-serva-de-deus-e-nao-como-objeto-de-culto.shtml.

Imagem de Nossa Senhora Aparecida durante celebração na Basílica de Aparecida, no interior de São Paulo - Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress · Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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