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    Europa mostra na prática o que é soberania digital

    A Europa ficou conhecida nos últimos anos por trocar capacidade de inovação por regulação. Em vez de desenvolver tecnologias locais, o continente contentou-se em regular aplicações estrangeiras. Leia mais (09/26/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    27 de setembro de 2026 às 02:00
    Europa mostra na prática o que é soberania digital
    Painel eletrônico exibe mensagem 'URSULA! FIGHT FOR EUROPE, NOT FOR THEM!' com fotos de quatro homens conhecidos: Tim Cook, Sundar Pichai, Donald Trump e outro homem. O painel está em frente a um edifício moderno com fachada de vidro e vári — Foto: Folha de S.Paulo

    Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

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    Protesto em Bruxelas pede que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, proteja as leis digitais da União Europeia - Nicolas Tucat - 19.nov.25/AFP · Nicolas Tucat - 19.nov.25/AFP
    Protesto em Bruxelas pede que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, proteja as leis digitais da União Europeia - Nicolas Tucat - 19.nov.25/AFP · Nicolas Tucat - 19.nov.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A Europa ficou conhecida nos últimos anos por trocar capacidade de inovação por regulação. Em vez de desenvolver tecnologias locais, o continente contentou-se em regular aplicações estrangeiras.

    Isso mudou. Em 2026, a Europa virou um laboratório de política industrial. Criou também um manual prático do que significa ser "soberano" digitalmente no mundo de hoje.

    O exemplo mais impressionante vem da França . O Departamento Interministerial do Digital (Dinum) anunciou sua política de substituir softwares privados por versões abertas. Os ministérios precisam apresentar até novembro um plano de redução de dependência de tecnologias de fora da Europa.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A premissa é que não há soberania se a administração pública depende de software privado estrangeiro até para atividades básicas, como fazer chamadas de vídeos ou redigir documentos.

    A Dinum criou o impressionante site lasuite.numerique.gouv.fr , uma seleção de ferramentas de código aberto, com alternativas viáveis e testadas para programas comumente usados pela administração pública e empresas.

    Por exemplo, em vez de Teams ou Zoom, está sendo usado o Visio. No lugar do WhatsApp e do Slack, o Tchap, agora obrigatório para todos os servidores (600 mil já usam). Em vez de Google Docs, o Docs, criado em parceria com o governo alemão. Em vez do Excel, o Grist.

    Como o código é aberto, qualquer repartição ou empresa pode instalar sua cópia sem custo de licença. Só com o Visio, o governo francês calcula economizar € 1 milhão (R$ 5,9 milhões) por ano para cada 100 mil usuários.

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    Em postagem na semana passada, o consultor de software francês Samuel Berthelot relatou sua experiência após fazer a transição para as alternativas abertas.

    Nas suas palavras: "Ousamos substituir todos os programas proprietários por softwares 100% abertos. Boas surpresas. A sincronização com OpenCloud é de 10 a 20 vezes mais rápida. O retorno de investimento é visível, já que não há mais custos mensais de licenças, que aumentam a cada novo usuário. Adicionar novos usuários agora não custa nada. E por fim, a interconexão: nossos softwares agora se integram, sem silos, e com fluidez".

    Claro que há também desafios. Ele alerta: "O caminho é progressivo e sim, será necessário em alguns casos renunciar a hábitos de uso enraizados. Mas a empreitada vale a pena: construir uma infraestrutura tecnológica europeia, independente e resiliente. A hora não é mais de reflexão, mas de ação".

    Essa história faz lembrar que o Brasil já foi liderança nessa mesma área. Por anos o Brasil foi o epicentro global do software livre e open source. O país chegou a construir nos anos 2000 nosso Portal do Software Público, com uma estratégia semelhante à europeia. O portal ainda está no ar, mas paralizado desde 2018 e sem qualquer ambição estruturante.

    Além disso, o país recebia anualmente a maior conferência de software livre do mundo em Porto Alegre, atraindo vários dos melhores programadores do planeta. Dá até para dizer que a Europa de hoje está copiando o Brasil o passado. Enquanto o Brasil de hoje copia a Europa do passado.

    Já era – achar que software aberto é uma utopia

    Já é – perceber que software aberto é viável econômica e tecnicamente

    Já vem – a possibilidade de repensar a estrutura de software do país

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2026/09/europa-mostra-na-pratica-o-que-e-soberania-digital.shtml.

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    Protesto em Bruxelas pede que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, proteja as leis digitais da União Europeia - Nicolas Tucat - 19.nov.25/AFP · Nicolas Tucat - 19.nov.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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