'Eu vejo a morte como parte natural da vida; acho ótimo poder falar disso com alegria', diz Guida Vianna
Chego cedo ao Sesc de Copacabana para falar com Guida Vianna , que comemora 50 anos de carreira. A primeira coisa que a atriz faz ao me ver é perguntar sobre minha mãe, que conheceu, rapidamente, mas de forma muito acolhedora, duas semanas antes. Leia mais (09/03/2026 - 12h10)

Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida
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Doutora em Direito, autora de 'A Vida Afinal: Conversas Difíceis Demais para se Ter em Voz Alta'
Chego cedo ao Sesc de Copacabana para falar com Guida Vianna , que comemora 50 anos de carreira. A primeira coisa que a atriz faz ao me ver é perguntar sobre minha mãe, que conheceu, rapidamente, mas de forma muito acolhedora, duas semanas antes.
A atriz já está com o figurino e a peruca castanha de "As Irmãs Pereira" , peça escrita para celebrar seu aniversário nos palcos por um antigo aluno, Pedro Brício . A roupa brilha como ela, enquanto fala, entusiasmada, de uma vida inteira no teatro. "Faz tempo que só uso meus cabelos brancos; resolvi mudar para esta peça."

"Conheço o Pedro desde que ele tinha 15 anos, foi meu aluno de improvisação. Dei aulas no Tablado por 30 anos."
Acho incrível. Na infância, em Petrópolis (RJ), eu sempre ouvia sobre quem sonhava em atuar e ia para o Rio, tentar a sorte no Tablado. Era como o início de tudo, o Big Bang da atuação.
"Faz 40 anos que sou professora. Dou oficinas de improvisação no Brasil todo, para atores e não atores." Quero ser sua aluna, digo.

Na edição do Prêmio APTR de Teatro 2026, Guida recebeu o primeiro Troféu Camilla Amado . "Quando o Edu Barata me ligou para dizer que eu ia ganhar esse prêmio, recusei. Tanta gente importante, por que eu? Mas então ele me disse que era o reconhecimento não só pela atuação, mas pela contribuição na formação de atores e atrizes. Aí eu aceitei."
Acho bonito quando as pessoas são homenageadas em vida, celebradas enquanto o reconhecimento ainda pode ser apreciado. Ela me conta que recebeu o troféu das mãos de Rafaela Amado , filha de Camila , outra operária do teatro. "Eu disse que tinha que ser ela."
Falo um pouco sobre a peça que ela e Silvia Buarque fizeram, "A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe" , a que assisti quando nos conhecemos. Eu havia lido o texto para conversar com a dramaturga, Daniela Pereira de Carvalho, um ano antes. Mas quando vi o acontecimento no palco, o texto se revelou de forma diferente. O ofício da atuação é "transbordar a imaginação para a concretude na linguagem cênica", Guida diz.

A atriz já fez mais de 40 peças, além de filmes e novelas. Noveleira que sou, falo que Fausta, sua personagem em "Senhora do Destino" , é inesquecível. "Você acha?", ela me pergunta, surpresa.
Guida me leva para conhecer o teatro de arena. "Sua mãe podia ter vindo, ela ia gostar." Ia mesmo. Minha mãe e sua irmã também são irmãs Pereira, filhas de um português. Diferentemente da mãe das irmãs da peça, minha avó não foi cremada, mas enterrada, e sempre visitávamos seu túmulo quando eu era criança.
No palco, Guida, Clarisse Derzié e Raquel Rocha discutem o que fazer com as cinzas da mãe, morta um ano antes. Glória, personagem de Guida, está cansada de morar com a urna, mas as irmãs Edna e Dulce têm outros assuntos internos mais importantes a resolver.

Pergunto se a ideia de falar da morte de forma tão concreta a assustou. "De jeito nenhum. Eu vejo a morte como ela é, uma parte natural da vida. Acho ótimo poder falar sobre isso com alegria." Clarisse acrescenta que, mesmo sendo uma comédia, escutam depoimentos emocionados, ao fim do espetáculo, de pessoas que demoraram anos a se desfazer das cinzas da mãe –ou que nem conseguiram fazer isso ainda.
A inspiração de Pedro Brício para o texto foi a própria família. Guida conta que o dramaturgo foi criado pela mãe e duas tias. "Adorei, porque tudo que não queria era um monólogo. Queria estar com amigas em cena, celebrar."
"As Irmãs Pereira" são realmente uma grande celebração. Três irmãs diferentes, com lembranças sobre os mesmos fatos que não se confundem. Se a vida é feita, em grande parte, de memórias, as irmãs mostram que mesmo vidas compartilhadas podem ser percebidas de formas bem diversas. Ainda que afastadas temporal e emocionalmente, Glória, Edna e Dulce dividem a cumplicidade que talvez seja possível somente entre quem dividiu os mesmos riscos e a mesma casa.

As irmãs sexagenárias têm sonhos e planos. Mas se preocupam. "As pessoas andam morrendo muito, é toda hora", diz Glória. Acho que a personagem de Guida queria mais do que foi sua vida até ali. Mas a peça não tem um tom melancólico. Ao contrário, seu fim é um desfile de possibilidades e cores. O fim tem muita vida.
Volto para me despedir de Guida, depois do espetáculo. A irmã Pereira é um pouco rabugenta no palco, mas uma das pessoas mais luminosas que já vi, dentro e fora dele. Digo que ainda quero mencionar o que Silvia Buarque disse sobre ela, em entrevista que saiu no dia seguinte ao que nos conhecemos . Ao revelar que tratava um câncer de mama enquanto "A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe" viajava por diversas cidades, Silvia disse que sua mãe na peça foi também uma mãe na vida.
"Silvinha estava num período entre cirurgias e, pra ela, era importante continuar trabalhando. A peça era uma produção sua. Eu estava ali atenta para o que precisasse. Não era só uma relação de atrizes, mas de cuidados pessoais. Ela é uma pessoa maravilhosa, generosa. De outra mãe não precisa, porque Marieta é uma mãezona. Mas gosto demais dela e assumi com prazer o papel de tia. Deu tudo certo."

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/morte-sem-tabu/2026/09/eu-vejo-a-morte-como-parte-natural-da-vida-acho-otimo-poder-falar-disso-com-alegria-diz-guida-vianna.shtml.

Guida Vianna antes do início da peça 'As Irmãs Pereira', no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro, no dia 14 de agosto - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo
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