Brasil

    'Eu perdoo, mas quero justiça', diz mãe de PM morto por colegas dentro de quartel em SP

    Durante os 17 anos em que o filho foi policial militar, Olga Alice Fernandes da Silva, 79, acostumou-se a rezar para que ele voltasse vivo para casa. Jamais poderia imaginar, conta ela, que seu caçula seria morto a tiros dentro de um quartel da Polícia Militar de São Paulo, enquanto estava deitado no próprio beliche. Leia mais (09/04/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    4 de setembro de 2026 às 18:00
    'Eu perdoo, mas quero justiça', diz mãe de PM morto por colegas dentro de quartel em SP
    Homem vestido com uniforme cinza de policial militar sorri e faz sinal de positivo com a mão direita, enquanto abraça mulher de vestido estampado de oncinha e óculos. Eles estão em área externa com árvores e folhas no chão, com outras pesso — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Durante os 17 anos em que o filho foi policial militar, Olga Alice Fernandes da Silva, 79, acostumou-se a rezar para que ele voltasse vivo para casa. Jamais poderia imaginar, conta ela, que seu caçula seria morto a tiros dentro de um quartel da Polícia Militar de São Paulo, enquanto estava deitado no próprio beliche.

    A aposentada Olga Alice Fernandes da Silva abraça o filho Rulian durante formatura de sargentos - Acervo pessoal · Acervo pessoal
    A aposentada Olga Alice Fernandes da Silva abraça o filho Rulian durante formatura de sargentos - Acervo pessoal · Acervo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Eu pensava que pudesse acontecer alguma coisa na rua. Nunca imaginei que pudesse acontecer isso dentro do quartel. Eu nem pensava que uma pessoa que estava lá, um amigo de farda, faria isso", disse a aposentada, moradora de Franca, no interior de SP.

    Olga é mãe do sargento Rulian Ricardo Adrião da Silva, 40, morto em abril de 2023 dentro de uma unidade da PM no Jardim Santa Emília, na região do Ipiranga, zona sul.

    A morte causou indignação entre familiares e amigos do policial e, conforme policiais ouvidos pela Folha , também revoltou parte da tropa –colegas que não conheciam o sargento pessoalmente, mas tiveram acesso a detalhes de sua morte.

    Arma apreendida como sendo do sargento Rulian, cuja perícia apontou ser imprestável - Reprodução/Processo judciail · Reprodução/Processo judciail
    Arma apreendida como sendo do sargento Rulian, cuja perícia apontou ser imprestável - Reprodução/Processo judciail · Reprodução/Processo judciail — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O julgamento desse caso está marcado para 15 de setembro na 4ª Auditoria Militar Estadual, primeira instância da Justiça Militar paulista. Como a vítima e os autores são policiais militares e a acusação é de crime militar, o caso não será submetido ao Tribunal do Júri. Os réus serão julgados por um Conselho de Justiça, formado por um juiz de direito e quatro oficiais da PM.

    Recém-promovido a sargento, Rulian foi atingido por quatro disparos. Um projétil atravessou o tórax, dois atingiram a região da cabeça –um deles após atravessar o ombro– e o quarto provocou um ferimento superficial no tórax. Três tiros foram disparados pelo capitão Francisco Carlos Laroca Júnior e um pelo cabo Fabiano Rizzo, que alegam legítima defesa (veja o que dizem as defesas mais abaixo).

    Segundo a versão dos acusados, Laroca foi ao alojamento depois de ser informado, ao chegar ao quartel, de que Rulian havia discutido com uma policial por causa de uma mudança na escala de serviço. Rizzo, que trabalhava como motorista do oficial, teria acompanhado o superior como testemunha da conversa.

    Sargento Rulian Ricardo da Silva, 40, morto em 2023 dentro de um quartel da PM de São Paulo - Reprodução/Arquivo de família · Reprodução/Arquivo de família
    Sargento Rulian Ricardo da Silva, 40, morto em 2023 dentro de um quartel da PM de São Paulo - Reprodução/Arquivo de família · Reprodução/Arquivo de família — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O capitão afirmou que pretendia se inteirar do ocorrido, mas acabou hostilizado pelo sargento, que teria sacado uma arma escondida sob o cobertor, apontado em sua direção e puxado o gatilho duas vezes. A arma, porém, teria falhado. Em seguida, para se defender, Laroca atira contra Rulian, e Rizzo, idem.

    A família do sargento contesta essa versão. A Promotoria também rejeitou a alegação de legítima defesa. Segundo a denúncia apresentada pela promotora Giovana Ortolano Guerreiro, no começo deste ano, as provas periciais contradizem a alegação de que o sargento Rulian teria tentado atirar contra o capitão.

    Até porque, segundo o documento, a perícia concluiu que o revólver apreendido como sendo de Rulian, um revólver calibre .32, estava sem a mola do percutor, com o tambor travado, inapto para disparos e sem vestígios de uso recente. A arma era, assim, imprestável.

    Revólver cromado com cabo texturizado dentro de saco plástico transparente. Próximo ao revólver, há dois cartuchos de munição visíveis.
    Revólver cromado com cabo texturizado dentro de saco plástico transparente. Próximo ao revólver, há dois cartuchos de munição visíveis. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Além disso, a arma funcional do sargento, uma pistola .40, que estava em condições de uso, foi localizada trancada em um armário do alojamento.

    Outro elemento destacado pela Promotoria é a posição em que o revólver foi encontrado. Estava caído próximo à mão esquerda de Rulian, embora registros funcionais e o depoimento da mãe indiquem que ele era destro. Para o Ministério Público, a arma foi colocada junto ao corpo depois dos disparos, com o objetivo de sustentar a narrativa de uma reação legítima.

    "A tentativa de justificar os disparos como reação a uma agressão iminente é refutada pela prova técnica, que demonstra que a vítima não teve qualquer chance de defesa, sendo atingida de forma súbita e letal, em ambiente confinado, por dois agentes armados, em posição de superioridade numérica e, também, hierárquica", diz trecho da denúncia.

    Homem vestido com uniforme cinza de policial, incluindo boina com faixa quadriculada preta e branca, posando para selfie à noite. Ao fundo, cones de trânsito laranja com faixas refletivas brancas estão alinhados em área escura.
    Homem vestido com uniforme cinza de policial, incluindo boina com faixa quadriculada preta e branca, posando para selfie à noite. Ao fundo, cones de trânsito laranja com faixas refletivas brancas estão alinhados em área escura. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por conta da suposta alteração da cena, a dupla também é acusada de fraude processual.

    Olga pretende acompanhar o julgamento e deve viajar com familiares.

    Ela conta que Rulian começou a trabalhar ainda adolescente, vendendo picolés e ajudando a mãe na costura de sapatos. Depois passou por fábricas e por uma loja em Franca, onde estava prestes a ser promovido a gerente quando pediu demissão para ingressar na PM. Já na corporação, tornou-se cabo e estudou para virar sargento. Havia sido promovido em dezembro de 2022.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A aposentada afirma que o filho jamais se colocaria em problemas, por uma razão muito forte. Rulian prometeu ao pai, no leito de morte, que cuidaria da família. E vinha cumprindo a promessa, segundo Olga. Fazia compras, pagava contas e ajudava a mãe e o irmão Rony, este com problemas de saúde.

    Mesmo trabalhando em São Paulo, telefonava quase todos os dias e viajava constantemente para Franca —por isso saber previamente das escalas de trabalho era tão importante. "Qualquer folguinha que tinha, ele vinha. Vinha dormindo no ônibus. Ele se preocupava comigo aqui em casa e dizia: ‘Vou trabalhar lá por mais ou menos um ano. Depois, tento voltar para Franca ou para alguma cidade próxima. Se não conseguir uma transferência para cá, nós nos mudamos, viu, mãe?’", dizia.

    Olga lembra que ficou "sem chão" ao receber a notícia da morte do filho e que, depois disso, até deixou de cuidar das coisas como sempre fazia. "Minhas flores morreram todas."

    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde
Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena
Prêmio da mega da virada não acumula

Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c
    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena Prêmio da mega da virada não acumula Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Amparada pela fé e pela união da família, afirma ter perdoado o homem que responsabiliza pelo crime, mas não abre mão de uma resposta judicial: "Eu perdoo o que ele [capitão] fez. Porque a gente tem que perdoar. Mas eu quero justiça. Para não acontecer com outra família", disse ela.

    Em nota, a defesa de Rizzo, composta pelos advogados Mauro Ribas e Renato Soares, diz que sustentará a tese de legítima defesa de terceiros, "apontando que Rizzo agiu em defesa do capitão Laroca".

    Em nota, a defesa do capitão Laroca afirma que pedirá sua absolvição e sustentará que ele agiu em legítima defesa. Segundo o advogado Abelardo Julio da Rocha, não houve homicídio planejado, mas uma reação a uma ameaça que Laroca teria considerado real e iminente dentro do alojamento.

    A defesa diz que não foi identificado motivo para uma execução e que Laroca procurou Rulian para tratar de uma questão funcional, acompanhado do cabo Rizzo. Afirma ainda que o sargento estava exaltado por causa de uma mudança na escala de serviço e teria sacado um revólver escondido sob o cobertor.

    Segundo o advogado, perícias consideraram as marcas de tiros e as posições dos envolvidos compatíveis com pontos da versão dos policiais. A defesa também afirma que Laroca comunicou imediatamente pelo rádio que havia ocorrido uma troca de tiros, o que demonstraria que a alegação de legítima defesa foi apresentada desde os primeiros momentos, e não construída posteriormente.

    A defesa diz reconhecer que um exame concluiu que o revólver encontrado junto à vítima não estava em condições de disparar, mas sustenta que Laroca não tinha como saber disso no momento da reação.

    Por essa razão, invoca também a hipótese de legítima defesa putativa, baseada na percepção equivocada de uma ameaça real. Afirma ainda que o Inquérito Policial Militar não confirmou fraude processual nem encontrou prova segura de que a arma tivesse sido colocada artificialmente na cena.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/eu-perdoo-mas-quero-justica-diz-mae-de-pm-morto-por-colegas-dentro-de-quartel-em-sp.shtml.

    Imagem 1
    1 / 7

    A aposentada Olga Alice Fernandes da Silva abraça o filho Rulian durante formatura de sargentos - Acervo pessoal · Acervo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)