Brasil

    Estudo identifica como o linfoma 'desliga' células de defesa do organismo

    O linfoma é um tipo de câncer que ataca o sistema linfático, responsável por produzir as células de defesa do organismo. Leia mais (08/17/2026 - 09h02)

    Folha de S.Paulo
    17 de agosto de 2026 às 12:02
    Estudo identifica como o linfoma 'desliga' células de defesa do organismo
    Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    O linfoma é um tipo de câncer que ataca o sistema linfático, responsável por produzir as células de defesa do organismo.

    Estima-se que 40% dos linfomas não Hodgkin sejam de grandes células B (LDGCB), um tipo agressivo - Igor Stevanovic - 23.ago.19/Bits and Splits - stock.adobe.com · Igor Stevanovic - 23.ago.19/Bits and Splits - stock.adobe.com
    Estima-se que 40% dos linfomas não Hodgkin sejam de grandes células B (LDGCB), um tipo agressivo - Igor Stevanovic - 23.ago.19/Bits and Splits - stock.adobe.com · Igor Stevanovic - 23.ago.19/Bits and Splits - stock.adobe.com — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há mais de 60 tipos diferentes desse tumor, divididos em dois grandes grupos: Hodgkin e não Hodgkin .

    Uma das formas mais agressivas, o linfoma difuso de grandes células B (LDGCB), é também uma das mais frequentes na população: estima-se que 40% dos linfomas não Hodgkin sejam LDGCB, o que no Brasil representa quase 5.000 novos diagnósticos por ano, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer).

    "O LDGCB é um dos tipos mais agressivos por ter uma capacidade de crescimento muito rápido e por sua facilidade de ocorrer fora dos linfonodos ", explica o hematologista Guilherme Perini, do Centro de Excelência em Linfomas do Einstein Hospital Israelita.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Daí por que a ciência tem se dedicado a estudar mais esses tumores. Um estudo publicado em março no Journal of Immunology encontrou respostas que podem ajudar a entender sua origem, agressividade e até indicar um caminho novo de tratamento.

    Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Josep Carreras, na Espanha , identificaram em células humanas in vitro e depois em animais um mecanismo pelo qual o linfoma consegue comprometer o sistema imunológico , facilitando a própria multiplicação.

    De acordo com os achados, o LDGCB age impedindo a expressão de uma proteína responsável pelo amadurecimento das células B, que produzem anticorpos e são uma das principais linhas de defesa do organismo.

    Ao não receberem uma proteína chamada HDAC7, as células passam a se multiplicar descontroladamente. O estudo indica que a diminuição dessa proteína foi associada a um prognóstico ruim, possivelmente facilitando o avanço da doença.

    "O linfoma não ataca diretamente a proteína, mas diminui sua expressão de modo que essas células não conseguem chegar aos níveis adequados de HDAC7. Dessa maneira, elas ficam presas em um estado imaturo que as conduz a uma proliferação de forma descontrolada, agressiva e sem serem capazes de cumprir sua função como células de defesa", explica a pesquisadora Mar Gusi-Vives, uma das autoras do artigo, à Agência Einstein.

    Uma maneira de entender o mecanismo é pensar que ele desativa "interruptores". "A presença do tumor não altera a célula de defesa, mas muda como ela manifesta seus genes. Em condições normais e saudáveis, esse interruptor permanece ligado, já que tem um papel importante na maturação da célula. Mas as mutações cancerígenas parecem conseguir desligá-lo permanentemente, mesmo sem comprometer o DNA", esmiúça Gusi-Vives.

    Esse processo pode ajudar a explicar o que leva o LDGCB a avançar tão rapidamente. Mas a pesquisa também aponta como religar o "interruptor" desativado. Isso melhorou a saúde de animais com linfoma, além de mostrar bons resultados de redução de células tumorais .

    "Ao fazer a reexpressão dessa proteína, as células conseguiram retomar essa programação de amadurecimento que havia sido interrompida e se desenvolver para se tornarem células de defesa", analisa Perini.

    "O linfoma surge exatamente quando há um erro na programação da célula, como um bug de computador. A pesquisa identificou a origem desse bug e mostrou que, quando você arruma esse pequeno problema no código, é possível fazer com que a célula volte ao normal."

    Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar

    Apesar dos resultados animadores, é preciso cautela. "Em pessoas, não é possível reintroduzir a proteína como fizemos em nível experimental", avisa a pesquisadora. "Em pacientes, o que teremos que buscar é impedir que o tumor bloqueie a expressão da proteína."

    Vale lembrar também que a trajetória de uma descoberta em animais até se tornar uma terapia eficaz em humanos é complexa.

    "Após a prova biológica, demonstrada no estudo, inicia-se um longo caminho para saber se isso pode se reverter em uma terapia. Para isso, a proteína usada tem de ser eficaz e ter pouco efeito em outras células normais", explica o hematologista do Einstein.

    Atualmente, o tratamento do linfoma difuso de grandes células B combina quimioterapia e imunoterapia. Com diagnóstico precoce e terapias corretas, estima-se que 70% dos pacientes alcançam a remissão completa.

    Para os casos em que a doença resiste, uma alternativa promissora são as terapias celulares, como a CAR-T , que utiliza células do próprio paciente, modificadas geneticamente, para atacar células relacionadas ao câncer sanguíneo.

    "O futuro é a gente ter um arsenal de terapias cada vez mais variado, e novas armas são sempre bem recebidas nessa batalha", conclui Guilherme Perini.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/08/estudo-identifica-como-o-linfoma-desliga-celulas-de-defesa-do-organismo.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Estima-se que 40% dos linfomas não Hodgkin sejam de grandes células B (LDGCB), um tipo agressivo - Igor Stevanovic - 23.ago.19/Bits and Splits - stock.adobe.com · Igor Stevanovic - 23.ago.19/Bits and Splits - stock.adobe.com — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)