Estamos trabalhando com medo
"O trabalhador médio sente 11 tipos de medo num único dia de trabalho" me disse uma amiga durante um jantar em que conversávamos sobre o mundo corporativo e suas idiossincrasias. Leia mais (08/11/2026 - 15h00)

É publicitária, escritora e produtora de conteúdo. Autora de "E Se Eu Parasse de Comprar? O Ano Que Fiquei Fora da Moda". Escreve sobre moda, consumo consciente e maternidade
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"O trabalhador médio sente 11 tipos de medo num único dia de trabalho" me disse uma amiga durante um jantar em que conversávamos sobre o mundo corporativo e suas idiossincrasias.
A frase era fruto de um telefone sem fio que começou não sei onde, mas chegou aos ouvidos desta amiga durante uma palestra. O ambiente deu certa credibilidade à informação, assimilada como verdadeira pela ouvinte que me retransmitiu o dado.
Ao ouvi-la, analisei sua veracidade primeiro a partir da minha própria experiência. Me recordei de alguns ambientes corporativos em que trabalhei e concluí que sim, a frase soava verdadeira e reconfortante. Pelo visto eu não era a única a carregar o medo nas costas, tomando diferentes formas, ao longo de um único dia de trabalho.

No dia seguinte, ainda impactada com a informação, fui pesquisar qual estudo havia concluído o que para mim havia sido a realidade por tanto tempo. E, para minha surpresa, não encontrei nada. Nem Google , nem ChatGPT foram capazes de apontar de onde vinha aquela frase de impacto lançada de forma tão confiante diante de uma plateia atenta. Fui então obrigada a aceitar que o estudo nunca existiu.
Tudo bem, talvez nenhum estudo jamais tenha conseguido quantificar quantos medos o trabalhador médio sente num dia de trabalho, mas não faltam evidências de que, sim, nossa relação com o trabalho é permeada por medo e ansiedade .
Uma pesquisa realizada em 2025 pela Vittude com 174 mil profissionais de 35 grandes empresas, em todas as regiões do Brasil, concluiu que 45% trabalhavam em ambientes de baixa segurança psicológica nos quais existe medo de errar, discordar, fazer perguntas ou sofrer consequências ao se manifestar.
E, como era de se esperar, o medo aumenta conforme o gênero . Dados também de 2025 mostram que mulheres são mais propensas a sentir ansiedade e esgotamento. Isso não ocorre porque sejam naturalmente mais frágeis ou mais inseguras, mas porque estão expostas a mais cobranças, injustiças, assédios e violências do que seus colegas homens. Para as mulheres negras, soma-se a tudo isso o racismo que enfrentam dentro e fora do ambiente de trabalho.
A frase, portanto, pode ser inválida como dado concreto, mas o diagnóstico para o qual ela aponta é claro: estamos trabalhando com medo. E isso traz prejuízos tanto no âmbito individual quanto no âmbito coletivo.
Para além de se tornar um problema de saúde pública, a relação de trabalho pautada no medo tem outra consequência: a morte da crítica, a aversão ao risco, ao "fazer diferente", a dificuldade de inovar.
Como sociedade, no setor público ou privado, nas pequenas empresas e grandes corporações, nas ONGs, nas escolas e universidades, nunca precisamos tanto de gente disposta a questionar o que sempre foi feito. Precisamos de gente aberta a imaginar soluções que ainda não existem e a encontrar maneiras mais inteligentes, justas e eficientes de fazer as coisas.
Precisamos especialmente de mulheres e grupos tradicionalmente silenciados se sentindo confiantes para expor suas dores e suas ideias.
Afinal, quando são as mulheres que acumulam mais razões para ter medo, perdemos justamente a contribuição de quem enxerga problemas e possibilidades que grupos tradicionalmente no poder nunca seriam capazes de enxergar.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joanna-moura/2026/08/estamos-trabalhando-com-medo.shtml.

Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo
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