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    Estamos trabalhando com medo

    "O trabalhador médio sente 11 tipos de medo num único dia de trabalho" me disse uma amiga durante um jantar em que conversávamos sobre o mundo corporativo e suas idiossincrasias. Leia mais (08/11/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    11 de agosto de 2026 às 18:00
    Estamos trabalhando com medo
    Direito à desconexão e burnout — Foto: Folha de S.Paulo

    É publicitária, escritora e produtora de conteúdo. Autora de "E Se Eu Parasse de Comprar? O Ano Que Fiquei Fora da Moda". Escreve sobre moda, consumo consciente e maternidade

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    Catarina Pignato · Catarina Pignato
    Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "O trabalhador médio sente 11 tipos de medo num único dia de trabalho" me disse uma amiga durante um jantar em que conversávamos sobre o mundo corporativo e suas idiossincrasias.

    A frase era fruto de um telefone sem fio que começou não sei onde, mas chegou aos ouvidos desta amiga durante uma palestra. O ambiente deu certa credibilidade à informação, assimilada como verdadeira pela ouvinte que me retransmitiu o dado.

    Ao ouvi-la, analisei sua veracidade primeiro a partir da minha própria experiência. Me recordei de alguns ambientes corporativos em que trabalhei e concluí que sim, a frase soava verdadeira e reconfortante. Pelo visto eu não era a única a carregar o medo nas costas, tomando diferentes formas, ao longo de um único dia de trabalho.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No dia seguinte, ainda impactada com a informação, fui pesquisar qual estudo havia concluído o que para mim havia sido a realidade por tanto tempo. E, para minha surpresa, não encontrei nada. Nem Google , nem ChatGPT foram capazes de apontar de onde vinha aquela frase de impacto lançada de forma tão confiante diante de uma plateia atenta. Fui então obrigada a aceitar que o estudo nunca existiu.

    Tudo bem, talvez nenhum estudo jamais tenha conseguido quantificar quantos medos o trabalhador médio sente num dia de trabalho, mas não faltam evidências de que, sim, nossa relação com o trabalho é permeada por medo e ansiedade .

    Uma pesquisa realizada em 2025 pela Vittude com 174 mil profissionais de 35 grandes empresas, em todas as regiões do Brasil, concluiu que 45% trabalhavam em ambientes de baixa segurança psicológica nos quais existe medo de errar, discordar, fazer perguntas ou sofrer consequências ao se manifestar.

    E, como era de se esperar, o medo aumenta conforme o gênero . Dados também de 2025 mostram que mulheres são mais propensas a sentir ansiedade e esgotamento. Isso não ocorre porque sejam naturalmente mais frágeis ou mais inseguras, mas porque estão expostas a mais cobranças, injustiças, assédios e violências do que seus colegas homens. Para as mulheres negras, soma-se a tudo isso o racismo que enfrentam dentro e fora do ambiente de trabalho.

    A frase, portanto, pode ser inválida como dado concreto, mas o diagnóstico para o qual ela aponta é claro: estamos trabalhando com medo. E isso traz prejuízos tanto no âmbito individual quanto no âmbito coletivo.

    Para além de se tornar um problema de saúde pública, a relação de trabalho pautada no medo tem outra consequência: a morte da crítica, a aversão ao risco, ao "fazer diferente", a dificuldade de inovar.

    Como sociedade, no setor público ou privado, nas pequenas empresas e grandes corporações, nas ONGs, nas escolas e universidades, nunca precisamos tanto de gente disposta a questionar o que sempre foi feito. Precisamos de gente aberta a imaginar soluções que ainda não existem e a encontrar maneiras mais inteligentes, justas e eficientes de fazer as coisas.

    Precisamos especialmente de mulheres e grupos tradicionalmente silenciados se sentindo confiantes para expor suas dores e suas ideias.

    Afinal, quando são as mulheres que acumulam mais razões para ter medo, perdemos justamente a contribuição de quem enxerga problemas e possibilidades que grupos tradicionalmente no poder nunca seriam capazes de enxergar.

    Informações semanais sobre mercado de trabalho e dicas para universitários e recém-formados alavancarem sua vida profissional

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joanna-moura/2026/08/estamos-trabalhando-com-medo.shtml.

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    Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo

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