Brasil

    Espetáculo pela janela se despede do Minhocão após 101 sessões

    Montagem reuniu mais de 25 mil pessoas sentadas no asfalto do elevado

    UOL
    10 de outubro de 2026 às 14:00
    Espetáculo pela janela se despede do Minhocão após 101 sessões
    Foto: UOL

    O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes

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    Grupo se despede do Teatro de Janela após 13 anos no Minhocão - Sissy Eiko / Divulagação · Sissy Eiko /
    Grupo se despede do Teatro de Janela após 13 anos no Minhocão - Sissy Eiko / Divulagação · Sissy Eiko / — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Grupo se despede do Teatro de Janela após 13 anos no Minhocão - Sissy Eiko / Divulagação

    Uma árvore no centro de São Paulo cresceu o bastante para cobrir a visão de um palco que funcionava no parapeito de um edifício. Em vez de recorrer à serra elétrica ou negociar podas com o poder público, os artistas decidiram simplesmente acolher a mudança da paisagem.

    No dia 12 de outubro, às 16h, o Grupo Esparrama realiza a última sessão de "Esparrama pela Janela", peça que desde 2013 transformou o asfalto do Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão , em plateia. A despedida gratuita encerra um ciclo de 101 apresentações que reuniram mais de 25 mil pessoas sentadas na pista.

    Três adultos vestidos com fantasias coloridas aparecem em janelas de um prédio cinza. À esquerda, uma pessoa com peruca amarela e vestido azul está inclinada para fora da janela com persianas azuis abertas, segurando uma longa trança amarel
    Três adultos vestidos com fantasias coloridas aparecem em janelas de um prédio cinza. À esquerda, uma pessoa com peruca amarela e vestido azul está inclinada para fora da janela com persianas azuis abertas, segurando uma longa trança amarel — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A saída de cena imposta pela natureza soou menos como um revés logístico e mais como uma consequência natural da proposta do coletivo. "Não queremos que o teatro seja uma barreira para aquilo que está acontecendo na cidade", explica o diretor Iarlei Rangel sobre a recusa em disputar espaço com os galhos.

    Para ele, abrir mão do ponto de vista foi um gesto de respeito aos ritmos da metrópole: "Em vez de podá-la ou tentar criar uma solução para recuperar a vista, escolhemos deixar que ela siga seu caminho. É uma maneira de reconhecer que a cidade também produz acontecimentos que não estavam previstos na nossa dramaturgia".

    A relação com o viaduto nasceu por mero acaso, quando palhaços da companhia colocaram o rosto para fora a fim de tomar fôlego entre os ensaios de outro trabalho. "O primeiro momento, o que realmente foi acidental e inusitado, aconteceu quando os palhaços pararam para tomar um ar na janela e perceberam que apenas sua presença já criava um encantamento que convidava as pessoas a parar em frente à nossa janela", lembra o encenador.

    A partir daquela fagulha, o grupo passou oito meses estruturando uma dramaturgia em que um morador, exausto do barulho urbano, decide converter a balbúrdia em melodia, dando passagem a seres fantásticos, monstros e serenatas.

    Com o tempo, a pesquisa extrapolou a primeira peça e virou trilogia, confrontando a frieza do concreto com as demandas dos pedestres mais jovens. A própria história do viaduto, historicamente marcado pela degradação, foi posta em xeque pelo olhar infantil. "Esse viaduto é uma obra que violentou o centro da cidade de São Paulo e que passou a ser ressignificada, há décadas, a partir do momento em que a população passou a ocupá-la como se ela fosse seu próprio quintal", ressalta Rangel, apontando que o teatro serviu para convidar os passantes a "sentar no asfalto, olhar para as arquiteturas e sonhar outras possibilidades de cidade".

    O impacto da experiência foi oficializado em 2021 com a entrega da Placa do Inventário Memória Paulistana pelo Departamento do Patrimônio Histórico. Para o diretor, a láurea chancela a força de uma intervenção cênica desprotegida da infraestrutura convencional das salas de espetáculo: "Para nós, é a prova de que o teatro, mesmo efêmero, mesmo precário, tem o poder de mobilizar imaginários e se estabelecer enquanto memória relevante para a disputa pela cidade".

    Segundo Rangel, o contato com o público mirim ensinou que "nós, adultos, muitas vezes deixamos de aprender com as crianças a brincar, imaginar outras possibilidades e experimentar novas relações".

    A apresentação final no Minhocão pretende transformar o elevado num relicário coletivo a céu aberto, recolhendo os relatos e afetos de quem cresceu assistindo às cenas do lado de fora. O grupo, contudo, já testa outros horizontes: encenou em janelas do Centro Cultural Banco do Brasil e do Museu do Ipiranga , e prepara incursões diretamente no piso das praças.

    Quanto ao endereço onde tudo começou, o adeus não soa irrevogável. Rangel prefere manter o olhar sereno voltado para o ambiente: "Torcemos para que a árvore tenha muita saúde e, quem sabe, um dia libere novamente a janela para que o Teatro de Janela possa voltar, renovado, com outras perguntas e outras possibilidades de encontro com a cidade".

    Esparrama Pela Janela – A Despedida – 12 de outubro, segunda-feira, 16h. Minhocão (Elevado Presidente João Goulart), entre as alças de acesso do Metrô Santa Cecília e da Rua da Consolação. Nestes pontos haverá sinalizações indicando o local da apresentação. Em caso de chuva o espetáculo não será apresentado. Classificação: livre. Duração: 40 minutos. Gratuito.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/mise-en-scene/2026/10/espetaculo-pela-janela-se-despede-do-minhocao-apos-101-sessoes.shtml.

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    Grupo se despede do Teatro de Janela após 13 anos no Minhocão - Sissy Eiko / Divulagação · Sissy Eiko / — Foto: UOL

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