Espetáculo pela janela se despede do Minhocão após 101 sessões
Montagem reuniu mais de 25 mil pessoas sentadas no asfalto do elevado

O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes
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Grupo se despede do Teatro de Janela após 13 anos no Minhocão - Sissy Eiko / Divulagação
Uma árvore no centro de São Paulo cresceu o bastante para cobrir a visão de um palco que funcionava no parapeito de um edifício. Em vez de recorrer à serra elétrica ou negociar podas com o poder público, os artistas decidiram simplesmente acolher a mudança da paisagem.
No dia 12 de outubro, às 16h, o Grupo Esparrama realiza a última sessão de "Esparrama pela Janela", peça que desde 2013 transformou o asfalto do Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão , em plateia. A despedida gratuita encerra um ciclo de 101 apresentações que reuniram mais de 25 mil pessoas sentadas na pista.

A saída de cena imposta pela natureza soou menos como um revés logístico e mais como uma consequência natural da proposta do coletivo. "Não queremos que o teatro seja uma barreira para aquilo que está acontecendo na cidade", explica o diretor Iarlei Rangel sobre a recusa em disputar espaço com os galhos.
Para ele, abrir mão do ponto de vista foi um gesto de respeito aos ritmos da metrópole: "Em vez de podá-la ou tentar criar uma solução para recuperar a vista, escolhemos deixar que ela siga seu caminho. É uma maneira de reconhecer que a cidade também produz acontecimentos que não estavam previstos na nossa dramaturgia".
A relação com o viaduto nasceu por mero acaso, quando palhaços da companhia colocaram o rosto para fora a fim de tomar fôlego entre os ensaios de outro trabalho. "O primeiro momento, o que realmente foi acidental e inusitado, aconteceu quando os palhaços pararam para tomar um ar na janela e perceberam que apenas sua presença já criava um encantamento que convidava as pessoas a parar em frente à nossa janela", lembra o encenador.
A partir daquela fagulha, o grupo passou oito meses estruturando uma dramaturgia em que um morador, exausto do barulho urbano, decide converter a balbúrdia em melodia, dando passagem a seres fantásticos, monstros e serenatas.
Com o tempo, a pesquisa extrapolou a primeira peça e virou trilogia, confrontando a frieza do concreto com as demandas dos pedestres mais jovens. A própria história do viaduto, historicamente marcado pela degradação, foi posta em xeque pelo olhar infantil. "Esse viaduto é uma obra que violentou o centro da cidade de São Paulo e que passou a ser ressignificada, há décadas, a partir do momento em que a população passou a ocupá-la como se ela fosse seu próprio quintal", ressalta Rangel, apontando que o teatro serviu para convidar os passantes a "sentar no asfalto, olhar para as arquiteturas e sonhar outras possibilidades de cidade".
O impacto da experiência foi oficializado em 2021 com a entrega da Placa do Inventário Memória Paulistana pelo Departamento do Patrimônio Histórico. Para o diretor, a láurea chancela a força de uma intervenção cênica desprotegida da infraestrutura convencional das salas de espetáculo: "Para nós, é a prova de que o teatro, mesmo efêmero, mesmo precário, tem o poder de mobilizar imaginários e se estabelecer enquanto memória relevante para a disputa pela cidade".
Segundo Rangel, o contato com o público mirim ensinou que "nós, adultos, muitas vezes deixamos de aprender com as crianças a brincar, imaginar outras possibilidades e experimentar novas relações".
A apresentação final no Minhocão pretende transformar o elevado num relicário coletivo a céu aberto, recolhendo os relatos e afetos de quem cresceu assistindo às cenas do lado de fora. O grupo, contudo, já testa outros horizontes: encenou em janelas do Centro Cultural Banco do Brasil e do Museu do Ipiranga , e prepara incursões diretamente no piso das praças.
Quanto ao endereço onde tudo começou, o adeus não soa irrevogável. Rangel prefere manter o olhar sereno voltado para o ambiente: "Torcemos para que a árvore tenha muita saúde e, quem sabe, um dia libere novamente a janela para que o Teatro de Janela possa voltar, renovado, com outras perguntas e outras possibilidades de encontro com a cidade".
Esparrama Pela Janela – A Despedida – 12 de outubro, segunda-feira, 16h. Minhocão (Elevado Presidente João Goulart), entre as alças de acesso do Metrô Santa Cecília e da Rua da Consolação. Nestes pontos haverá sinalizações indicando o local da apresentação. Em caso de chuva o espetáculo não será apresentado. Classificação: livre. Duração: 40 minutos. Gratuito.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/mise-en-scene/2026/10/espetaculo-pela-janela-se-despede-do-minhocao-apos-101-sessoes.shtml.

Grupo se despede do Teatro de Janela após 13 anos no Minhocão - Sissy Eiko / Divulagação · Sissy Eiko / — Foto: UOL
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