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    Espetáculo leva o corpo ao limite para refletir sobre a marginalização social

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    24 de setembro de 2026 às 08:00
    Espetáculo leva o corpo ao limite para refletir sobre a marginalização social
    Pessoa agachada carrega um galho seco grande nas costas em ambiente escuro com folhas secas no chão e fumaça ao fundo. — Foto: UOL

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    Cena do espetáculo 'Confuzo', da companhia Dos à Deux - Victor Pollak / Divulgação

    Cena do espetáculo 'Confuzo', da companhia Dos à Deux - Victor Pollak / Divulgação · Victor Pollak /
    Cena do espetáculo 'Confuzo', da companhia Dos à Deux - Victor Pollak / Divulgação · Victor Pollak / — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Esse homem carrega um peso quase insuportável sobre o corpo. O fardo, porém, não é simbólico, mas bastante concreto. O personagem principal da peça "Confuzo (Está Escurecendo Dentro de Mim)" sustenta na cabeça uma árvore que torna a sua existência lenta e cambaleante.

    Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo , o espetáculo da companhia Dos à Deux usa esse elemento como metáfora para refletir sobre a perseguição de corpos marginalizados.

    "O espetáculo foi um desafio grande, porque a gente teve que trabalhar com o peso dessa árvore e com o fato de ela estar em equilíbrio na minha cabeça", diz André Curti, que dá vida a um ser que incorpora elementos do mundo animal e vegetal.

    Espetáculo 'Confuzo', da Cia. Dos à Deux - Victor Pollak/Divulgação · Victor Pollak/Divulgação
    Espetáculo 'Confuzo', da Cia. Dos à Deux - Victor Pollak/Divulgação · Victor Pollak/Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    No começo, a presença dessa entidade entre os humanos passa quase despercebida. Com o tempo, porém, as pessoas começam a enxergá-lo com outros olhos. Há quem reclame que suas folhas escondem a paisagem e fazem sombra no sol. Existem também aqueles que veem em suas raízes a origem de problemas na tubulação.

    Antes bem-vindo na comunidade, ele se transforma num pária social. Por isso, todos ali parecem decididos a expulsá-lo para bem longe.

    "Com esse trabalho, a gente queria falar sobre o não pertencimento e as dificuldades que existem para quem é diferente na sociedade", diz Curti, que divide o palco com Artur Luanda Ribeiro. Ambos também assinam a direção da montagem. "A gente aborda várias diferenças e exclusões, um assunto com o qual muita gente se identifica."

    Veja cenas do espetáculo 'Confuzo'
    Veja cenas do espetáculo 'Confuzo' — Foto: UOL · Fonte: UOL

    De fato, é uma produção que evoca diversos grupos marginalizados ao longo da história. O homem-árvore poderia ser um judeu na Segunda Guerra Mundial , um indígena durante a colonização ou, ainda, um imigrante nos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump .

    Em cena, os movimentos de Curti parecem refletir a dor e o esgotamento de ser um corpo perseguido e humilhado. Isso se faz sentir por meio da dificuldade com que ele se movimenta sobre o palco.

    "É quase como se a gente estivesse realmente andando nas pontas dos pés e carregando o peso das escolhas", diz o artista. "Então, eu optei pela retenção do movimento."

    Cenas da peça 'Gritos', da companhia Dos à Deux
    Cenas da peça 'Gritos', da companhia Dos à Deux — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O silêncio é outro elemento que permeia a peça, sobretudo nos primeiros minutos do espetáculo. Nessa parte, o personagem de Curti parece se comunicar por meio dos gestos.

    "Em todos os nossos espetáculos, a gente trabalha a trilha sonora de uma maneira que ela complete esses silêncios que são importantes", diz o artista. "Eles são momentos de suspensão, em que tudo para de existir."

    A centralidade do silêncio se relaciona à própria história da Dos à Deux, companhia criada há quase três décadas que se notabilizou pelo teatro gestual, em que os movimentos substituem as palavras.

    Homem vestido com roupa longa escura está em pé no centro de um círculo de fogo no chão, segurando uma bengala e com um galho seco suspenso acima da cabeça. O cenário é escuro e o chão está coberto por folhas secas.
    Homem vestido com roupa longa escura está em pé no centro de um círculo de fogo no chão, segurando uma bengala e com um galho seco suspenso acima da cabeça. O cenário é escuro e o chão está coberto por folhas secas. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Foi isso o que eles fizeram em peças como "Irmãos de Sangue", "Gritos" e "Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes". Ao conceber "Confuzo", porém, eles decidiram incorporar pela primeira vez a comunicação verbal.

    De acordo com Curti, isso aconteceu por um desejo de evidenciar certos aspectos da narrativa. "Ela vem também como um grito, uma necessidade de explicitar muito bem o que a gente está querendo defender e dizer", diz o artista.

    O grupo, porém, buscou evitar que a linguagem verbal se sobrepusesse a outros aspectos da encenação.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Por isso, ela chega pelas beiradas, como uma grande metáfora auditiva e sensorial", diz Artur Luanda Ribeiro, que integra o espetáculo ao lado de Curti. "Nada pode estar como uma nota desafinada ou um instrumento a mais naquilo que a gente está se propondo a fazer."

    Na peça, ele dá vida a um personagem que está o tempo todo em uma bicicleta posicionada sobre o palco. Por meio de um mecanismo de engenharia, as pedaladas se transformam em energia para abastecer o espetáculo. De acordo com o artista, essa é uma referência à hiperprodutividade que marca diferentes sociedades contemporâneas.

    "O meu personagem é o homem workaholic, que pedala para gerar energia. Se ele parar, escurece dentro dele", afirma Ribeiro, em referência ao subtítulo da peça. "Existe um permanente movimento de produção e de produtividade."

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Por falar em geração de energia, a iluminação da peça foi pensada para ser mais do que um elemento acessório. "Todos os meus espetáculos são iluminados de forma que a luz seja um personagem, e não somente uma camada técnica. É um aspecto mesmo de ilusão e de como ela pode contar uma história."

    Para o artista, a peça é uma forma de refletir sobre a exclusão em um contexto de fortalecimento do autoritarismo mundo afora.

    "A gente está voltando para praticamente cem anos atrás, com a subida de um extremismo em que se fala de pureza racial e territorial", diz o artista, para quem a produção é uma resposta a esse cenário. "Isso tudo fez com que a gente escrevesse esse espetáculo. Existe uma cólera dentro de mim com o retrocesso absurdo da nossa sociedade."

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/espetaculo-leva-o-corpo-ao-limite-para-refletir-sobre-a-marginalizacao-social.shtml.

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