Espetáculo 'Casa do Norte' transforma mercearia em palco de afeto e comédia
A ideia inicial de Rager Luan para o espetáculo "Casa do Norte", do Grupo Clariô de Teatro , era construir um cenário simples e fácil de ser transportado nas viagens da trupe. As pesquisas do cenógrafo, no entanto, levaram a criação para outro caminho. Leia mais (10/08/2026 - 15h00)

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A ideia inicial de Rager Luan para o espetáculo "Casa do Norte", do Grupo Clariô de Teatro , era construir um cenário simples e fácil de ser transportado nas viagens da trupe. As pesquisas do cenógrafo, no entanto, levaram a criação para outro caminho.

O que o público encontra ao assistir a peça em cartaz no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, em São Paulo , é uma alegoria colorida e cheia de detalhes, inspirada em estabelecimentos comerciais fundados por imigrantes nordestinos –lugares que, além de vender comida e bebida típicas, servem como ponto de encontro.
Diversos utensílios, enfeites, prateleiras, uma jukebox, o retrato pendurado do cantor Reginaldo Rossi e uma caixa de correio comunitária ocupam o palco da mercearia fictícia que, à noite, se transforma no inferninho Fecha Nunca. O cenógrafo percorreu estabelecimentos populares do Brás , na região central da capital paulista, durante o processo de pesquisa.
A trama é contada a partir do desaparecimento misterioso da caixa de correspondências, fato que coloca todos os personagens sob suspeita. Durante a investigação, memórias e afetos surgem entre uma interrogação e outra, revelando os laços entre os frequentadores da Casa do Norte.

O espetáculo é o primeiro do Clariô a estrear fora da sede do grupo, em Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo. É também a primeira comédia rasgada do coletivo teatral, criado em 2005 a partir de uma articulação entre teatro, cultura popular, ancestralidade e questões raciais.
Após um período de campanha intensa para manter o Espaço Clariô, ameaçado pela especulação imobiliária, os integrantes do grupo sentiram a necessidade de fazer graça, em uma montagem que reúne música brega e interação com a plateia, com direito a cantoria coletiva, distribuição de doses de cachaça e porções do doce quebra-queixo.
"Trabalhar com comédia, além de libertador, é um ato político. Ter o direito de rir é algo que não é tão fácil assim", diz o ator e palhaço Washington Gabriel, um dos integrantes do elenco.

O riso apareceu como algo necessário para o grupo após duas décadas de convivência e um período dramático diante do risco de perder a sede.
"Vimos na possibilidade do exagero, do exacerbado, um jeito de gritarmos todas as demandas, todas as carências, mas também todas as abundâncias que tem um coletivo periférico", diz Naruna Costa , uma das fundadoras do Clariô.
Há também um desejo de reparação histórica em torno de um gênero que aborda personagens periféricos, ainda raramente representados por pessoas pretas e moradoras das periferias. "Não estamos estereotipando o que a gente vive, estamos exaltando o que somos", afirma a atriz.

Os atores se divertem no palco com a dramaturgia criada por Jhonny Salaberg para comemorar os 20 anos do grupo e, ao mesmo tempo, celebrar a origem nordestina de todos. A direção é de Naruna, que também atua na montagem.
"Falamos dos imigrantes, mas também de territórios, de pertencimento. O nosso espaço está ameaçado, assim como muitos", afirma a atriz Martinha Soares, outra integrante do Clariô.
O espetáculo menciona a destruição dos teatros Ventoforte e Contêiner Munguzá , em São Paulo, e a luta da Brava Companhia para manter seu espaço na Vila Prel, zona sul de São Paulo, em uma reflexão sobre as ameaças enfrentadas por espaços culturais independentes e projetos comunitários da cidade.

Como polo de cultura periférica aberto à comunidade de Taboão, o Espaço Clariô abriga eventos como saraus, aulas de capoeira, ensaios e apresentações artísticas de outros grupos. Nos períodos de enchentes que afetam a região, o lugar também é usado como centro de distribuição de doações.
Espetáculos como "Hospital da Gente", "Urubu Come Carniça e Voa!", "Severina - Da Morte à Vida" e "Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto" receberam prêmios como o Aplauso Brasil, o APCA e o Shell, além de darem visibilidade ao Clariô e levarem uma parte do público tradicional a "atravessar a ponte" para assistir a peças em Taboão da Serra. A dramaturgia e o cenário de "Casa do Norte" fazem referência a essas obras marcantes.
Em agosto, Naruna ganhou o Kikito de atriz coadjuvante no Festival de Gramado pela atuação no filme "Pele de Rinoceronte" , que aborda a violência contra as mulheres. No discurso de agradecimento, ela disse que o prêmio é uma vingança pelas mulheres assassinadas no Brasil, fez uma homenagem a atrizes negras como Ruth de Souza e Léa Garcia e disse esperar que outras cheguem ao palco da festa.
Também presente em novelas e séries, a atriz e os demais integrantes do Clariô lidam com o desafio de conciliar os compromissos profissionais com a sobrevivência do trabalho coletivo. A trupe tem um acordo que garante ao menos um encontro semanal, nas terças-feiras à noite, no espaço em Taboão da Serra. É a partir dessas conversas que os artistas decidem os próximos passos e seguem em frente.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/espetaculo-casa-do-norte-transforma-mercearia-em-palco-de-afeto-e-comedia.shtml.

A atriz Naruna Costa no cenário de 'Casa do Norte', no Sesc Consolação - Matheus José Maria/Divulgação · Matheus José Maria/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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