Espelho, espelho meu, por que a primavera católica não aconteceu?
A mobilização em torno de Nossa Senhora Aparecida fez parecer maior do que é a força progressista no catolicismo brasileiro

Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências
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Há duas semanas as redes sociais foram tomadas por Nossa Senhora Aparecida . A campanha de Lula viu ali a chance de explorar a maior intenção de voto dos católicos no presidente para reivindicar sua proximidade com o catolicismo. Mas entre uma coisa e outra há enorme distância.
Mais distante ainda foi a nuvem de fumaça que tal mobilização criou, dando a aparência de que o catolicismo brasileiro do século 21 é uma linha de frente do campo progressista, libertário, quase que uma neoteologia da libertação. Tampouco é o caso.
O que pesquisadores de todo o país mostram há pelo menos uma década é que, entre as expressões católicas que ganharam força política e visibilidade pública, o avanço mais consistente veio do campo conservador. A ladainha é longa.

Ives Gandra Martins , católico conservador, é um importante articulador de think tanks católicos que atuam com força no Judiciário nacional. Olavo de Carvalho , Bernardo Küster, Allan dos Santos , todos se reconhecem no catolicismo tradicional e fizeram dessa identidade religiosa uma das bases de sua aproximação com o bolsonarismo .
Bia Kicis, a senadora eleita pelo Distrito Federal ao lado de Michelle Bolsonaro , é uma importante articuladora da Frente Parlamentar Católica. Chris Tonietto e Julia Zanatta são duas mulheres campeãs de votos e fortemente identificadas com o catolicismo conservador. Essa coluna poderia ocupar uma página inteira desfiando outros nomes e dados. Pouparei os leitores.
Fato é que o campo conservador e, politicamente, o bolsonarismo têm atuado há muito tempo na articulação com o catolicismo. Mais ainda do que isso, esse polo católico conservador que vem ganhando força no país converge, em muitas pautas, com o conservadorismo evangélico .
Pautas como o aborto, a proteção à família, debates de gênero e moral sexual, todas são universos em que há mais afinidade entre esses dois grupos religiosos do que a suposta guerra santa que estava à nossa espera na semana passada faz crer.
Ainda que a aproximação de Flávio Bolsonaro com algumas lideranças católicas não tenha sido bem-sucedida até este momento, como bem mostrou relatório recente da Casa Galileia , a afinidade eletiva entre o bolsonarismo e esse campo católico é suficientemente sólida para dispensar esses mediadores.
Assim, é verdade que Flávio Bolsonaro ainda não conseguiu apoio declarado de figuras proeminentes desta estirpe católica, como padre Paulo Ricardo, padre Reginaldo Manzotti, Frei Gilson e mesmo de Bernardo Küster. Mas esse é um dado de conjuntura, que pode mudar a qualquer momento e que só chama a atenção porque, estruturalmente, a afinidade está dada.
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Aos que esperavam que o manto de Nossa Senhora levaria a uma vitória de Lula no primeiro turno, não custa lembrar que, nas vésperas do golpe de 1964 , na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, mulheres católicas tomaram as ruas do país abraçadas à santa, pedindo intervenção militar.
O catolicismo é diverso. Por definição da palavra, nesse campo religioso cabem muitas expressões e afinidades políticas. Parte de sua duração e força está justamente em sua capacidade de englobar antagonismos. A santa sempre foi polissêmica. O problema é quando as análises deixam de levar isso em conta.
Se as forças progressistas quiserem voltar a se conectar com as experiências católicas que estiveram na própria formação do PT , precisarão começar por reconhecer que nas últimas décadas, quem melhor soube transformar identidade católica em linguagem política foi a direita bolsonarista.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-toniol/2026/10/espelho-espelho-meu-por-que-a-primavera-catolica-nao-aconteceu.shtml.

O campo católico que mais ganhou força política nos últimos anos tem mais afinidade com o conservadorismo de Flávio do que com o progressismo de Lula - Pablo Porciuncula e Mauro Pimentel - 4.out.26/AFP · Pablo Porciuncula e Mauro Pimentel - — Foto: UOL
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