Espanhóis reprovam atuação do governo na crise em Ceuta, diz pesquisa
Sete em cada dez entrevistados priorizam segurança na divisa em detrimento da proteção de migrantes vulneráveis; maioria culpa Marrocos pela travessia em massa

Quase nove em cada dez espanhóis culpam o Marrocos pela travessia em massa de migrantes para Ceuta no final de julho, enquanto a maioria classifica a gestão da crise pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez como “ruim” ou “muito ruim”, segundo uma pesquisa de opinião divulgada nesta segunda-feira (7), que também apontou uma queda no apoio ao partido dele, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol).
A pesquisa realizada pelo instituto 40dB com 2 mil pessoas, para o jornal “El País” e a emissora de rádio SER, também registrou um aumento nas intenções de voto nos conservadores e no partido de direita e anti-imigração Vox, em consonância com diversos outros levantamentos realizados após a onda de travessias na fronteira do enclave espanhol no norte da África, que resultou em mortes .
Com o fim das férias de verão, é hora de voltar à rotina. Para os adultos, isso significa retornar ao trabalho; para as crianças, voltar à escola.

No entanto, este não será um início de ano letivo normal para os moradores da cidade espanhola de Ceuta, no norte da África. “É caótico, inseguro, estamos com medo e está piorando”, disse Marina Rovira, moradora de Ceuta, à CNN .
Suas palavras descrevem a crescente tensão nesta cidade autônoma de 83 mil habitantes desde o final de julho, quando cerca de 70 mil migrantes cruzaram irregularmente a fronteira do Marrocos para chegar a esta cidade no lado africano do Estreito de Gibraltar.
Um dos momentos mais tensos ocorreu na última quinta-feira (27), quando alguns manifestantes contra o fluxo migratório tentaram impedir a distribuição de alimentos da Cruz Vermelha aos recém-chegados, e outros incendiaram parte de um acampamento improvisado pelos migrantes em uma praia local.

Tudo isso aconteceu apesar do forte contingente de 1.600 policiais e agentes da Guarda Civil .
“Então, eu devo deixar meus filhos irem para a escola com toda essa insegurança, e ainda por cima, o lugar está cheio de soldados e policiais?”, questiona Rovira, mãe de duas meninas e um menino entre 3 e 7 anos, às vésperas do início do ano letivo, previsto para 8 de setembro. “O que essas crianças vão dizer? O verão delas foi roubado!”
Por esse motivo, Rovira lançou uma petição no Change.org para pressionar o governo a manter as escolas de Ceuta fechadas até que a cidade volte à normalidade.

O Ministério da Educação, Formação Profissional e Desporto anunciou que reforçará a presença policial na área para garantir a segurança das crianças tanto no transporte escolar quanto no acesso às escolas.
Mas isso não foi suficiente para acalmar Rovira ou outros pais. Tanto que, até o momento, sua iniciativa já conquistou mais de 5.500 assinaturas. Muitas delas, segundo ela, são de outros pais em Ceuta que sentem a mesma insegurança e se perguntam quando as coisas voltarão ao normal.
Refletindo esse descontentamento público, as críticas ao governo não cessaram na esfera política. A oposição tem acusado consistentemente o primeiro-ministro Pedro Sánchez e o restante do governo de inação e má gestão desta crise migratória.

Por exemplo, o líder do Partido Popular, Alberto Núñez-Feijóo, acusou o governo de estar ausente e “em recesso” em meio a uma crise de “magnitude sem precedentes”.
Sánchez, por sua vez, em entrevista concedida na segunda-feira (31) à rádio nacional Cadena Ser — a primeira desde a chegada dos migrantes que cruzaram a fronteira entre 30 e 31 de julho — reconheceu a natureza inédita da situação: “Assumimos a responsabilidade, eu inclusive, pela situação em Ceuta”, afirmou. Acrescentou, porém, sua convicção de que “Ceuta sairá dessa situação muito mais forte”.
Mas, para que isso aconteça, a situação administrativa desses quase 5.000 migrantes precisa ser resolvida. Ou seja, eles precisam ser acolhidos ou devolvidos, dependendo das circunstâncias.

E esse processo não está sendo conduzido com a velocidade necessária, segundo o prefeito-presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas. Em 20 de agosto, Vivas afirmou que entre 25 e 30 casos de retorno de migrantes estão sendo processados diariamente. “Nesse ritmo, o número de pessoas que chegaram a Ceuta em pelo menos um ano não conseguiria sair”, explicou. Por esse motivo, solicitou mais recursos e capacidade ao governo para gerenciar essa situação.
Diante dessa realidade, Sánchez reconheceu estar “muito consciente de que todos os recursos são insuficientes”, mas afirmou que estão agindo “de acordo com a lei”. Ou seja, seguindo o marco legal que rege os retornos, respeitando também a “dignidade humana”.
A esse respeito, Sánchez expressou confiança de que o trabalho administrativo em andamento será concluído “dentro de prazos razoáveis”. “Vamos tentar agilizá-lo ao máximo”, observou, embora sem especificar datas.

Conheça Ceuta, território da Espanha no norte da África

Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/espanhois-reprovam-atuacao-do-governo-na-crise-em-ceuta-diz-pesquisa/.

Manifestantes em Ceuta exigem que migrantes deixem o enclave espanhol • Reuters · • Reuters — Foto: CNN Brasil
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