Espancamento na UFRJ expõe a intolerância de esquerda
A violência fascista nunca se apresentou apenas como violência. Precisou de uma embalagem moral que a autorizasse. Em "A Personalidade Autoritária", Adorno e seus colegas identificaram na agressão autoritária uma disposição central: a convicção de que certas pessoas, por violarem valores fundamentais, merecem ser punidas. A agressão deixa então de parecer crueldade e passa a ser experimentada como justiça. Leia mais (09/01/2026 - 16h52)

Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”
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A violência fascista nunca se apresentou apenas como violência. Precisou de uma embalagem moral que a autorizasse. Em "A Personalidade Autoritária", Adorno e seus colegas identificaram na agressão autoritária uma disposição central: a convicção de que certas pessoas, por violarem valores fundamentais, merecem ser punidas. A agressão deixa então de parecer crueldade e passa a ser experimentada como justiça.
Durante décadas, a esquerda tratou esse mecanismo como propriedade quase exclusiva da direita, mas o episódio da semana passada na UFRJ deveria abalar essa certeza.
Na noite de terça-feira (25), Diego, estudante de história, foi arrancado da sala de aula, cercado, perseguido e espancado por colegas no prédio que abriga o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e o Instituto de História. Usava uma camiseta da controvertida banda Death in June, cuja iconografia é associada por críticos ao nazismo , e um broche com uma suástica riscada, que ele afirma ser antinazista. As imagens mostram um grupo atacando-o com socos e chutes na cabeça, inclusive quando já estava caído.

A justificativa já estava pronta: classificá-lo como nazista. Publiquei dois breves comentários dizendo que a violência coletiva para calar quem encarna uma ideologia intolerável sempre fez parte do repertório fascista e que era contraditório usá-la para, supostamente, provar-se antifascista. A resposta recebida foi uma aula sobre autorização moral da violência política. "Não pode mais bater em nazista?" "Nazista tem que ter medo." "Não se venceu a Alemanha nazista com flores." E com admirável nitidez: "Normalmente sou contra a violência, mas bater em nazista ou em quem flerta com o nazismo pode".
A violência continua condenada como princípio. Apenas se cria uma categoria de pessoas contra as quais ela deixa de ser moralmente censurável. Primeiro, classifica-se alguém como intolerável. Depois, retira-se dele a proteção ordinária contra a agressão. Por fim, bater já não aparece como violência, mas como ação coletiva e obrigação moral.
É racionalização em sentido clássico. O sujeito preserva sua autoimagem de pessoa pacífica, democrática e virtuosa ao transformar a agressão em punição merecida. Não pensa "quero bater nele", mas "gente assim deve apanhar". Com isso, pode celebrar a agressão e preservar a própria superioridade moral.
Popper novamente foi usado em defesa da surra, embora o paradoxo da tolerância não ofereça licença para espancar quem eu decido que é intolerante. Surgiu também a fantasia de "Bastardos Inglórios": se Hitler não foi derrotado no diálogo, conclui-se que bater num suposto nazista é continuação moral da Resistência. O campus vira a Europa de 1944, e um estudante caído, uma divisão da SS. Os antifascistas imaginários enfrentam a Wehrmacht; os reais juntaram-se para surrar um menino.
Quando as imagens produziram forte reação pública, começou outra operação: controlar a narrativa. Diego passou a ser descrito também como racista, provocador e agressor. Nenhuma dessas acusações foi comprovada, e ele as nega, mas sua função é evidente: o espancado precisa deixar de ser vítima e os espancadores precisam deixar de ser agressores. É preciso fabricar retrospectivamente seu merecimento.
Protege-se o ninho deslocando para a vítima a responsabilidade pela violência. Os perpetradores continuam em grande parte anônimos. Já o nome, o rosto, a roupa e a biografia de Diego foram submetidos ao escrutínio público. A surra durou minutos, mas a marcação como "nazista" pode durar muito mais.
Nada disso prova que toda a esquerda seja autoritária ou que esquerda e direita sejam simétricas. Prova algo mais simples e incômodo: a esquerda também pode ser seletivamente intolerante, racionalizar a brutalidade e produzir autorização social para a violência política quando os incentivos de grupo são abundantes e os riscos parecem pequenos. É precisamente o mecanismo que a tradição sempre condenou no fascismo: o uso da violência "plástica, cirúrgica e necessária" como ação política legítima.
Há ainda uma ironia. A um mês da eleição, a esquerda luta para reduzir uma rejeição que pode lhe custar a Presidência. Uma de suas franjas universitárias, porém, dedica-se a uma egotrip peculiar: caçar improváveis fascistas na maior universidade federal do país e explicar ao restante da sociedade por que certas ideias devem, afinal, ser caladas no murro.
Talvez seja difícil imaginar maneira mais eficiente de desmentir a superioridade moral que a esquerda sempre reivindicou para si.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/wilson-gomes/2026/09/espancamento-na-ufrj-expoe-a-intolerancia-de-esquerda.shtml.

Ariel Severino/Folhapress · Ariel Severino/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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