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    Escolas enfrentam misoginia com 'loja de inconveniência' e análise de música

    Dois alunos que tiveram atitudes misóginas com uma garota na escola receberam sanções, mas também foram convidados a refletir sobre a banalização da violência e das ofensas contra as mulheres. Leia mais (09/16/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    17 de setembro de 2026 às 02:00
    Escolas enfrentam misoginia com 'loja de inconveniência' e análise de música
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Dois alunos que tiveram atitudes misóginas com uma garota na escola receberam sanções, mas também foram convidados a refletir sobre a banalização da violência e das ofensas contra as mulheres.

    Ilustração criada por Fido Nesti para reportagem sobre escolas com ações contra misoginia - Fido Nesti · Fido Nesti
    Ilustração criada por Fido Nesti para reportagem sobre escolas com ações contra misoginia - Fido Nesti · Fido Nesti — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Como parte do processo, participaram de um roteiro de estudos, assistiram a vídeos, conversaram com a aluna ofendida, discutiram o tema com professores e fizeram uma apresentação sobre os julgamentos que recaem sobre as mulheres. O episódio ocorreu no Colégio Rio Branco.

    Para a diretora-geral, Esther Carvalho, violência contra a mulher , machismo e misoginia precisam fazer parte das discussões da escola, mas a resposta a esses episódios não pode se limitar à punição.

    "Há uma ideia de que, quando esse tipo de coisa acontece no ambiente escolar, é preciso partir para a expulsão. Mas a discussão é mais profunda. É preciso criar caminhos para possibilitar uma mudança de mentalidade. Queremos movimentos de impacto que possam gerar algo a mais", afirma. "A expulsão é a última instância de um projeto educacional."

    Escolas criam projetos para combater misoginia e machismo
    Escolas criam projetos para combater misoginia e machismo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Carvalho explica que estereótipos e preconceitos contra as mulheres são abordados na escola de forma transversal, integrados aos diferentes componentes curriculares. Situações e acontecimentos do cotidiano também entram em sala de aula e servem de ponto de partida para a reflexão e o debate entre os estudantes.

    A legislação brasileira prevê a abordagem da prevenção à violência contra a mulher nas escolas. A l ei 14.164 , sancionada em junho de 2021, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) para incluir, como temas transversais da educação básica, conteúdos sobre direitos humanos e prevenção de todas as formas de violência contra crianças, adolescentes e mulheres. A norma também instituiu a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher, realizada anualmente em março nas escolas públicas e privadas de todo o Brasil.

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    Escolha a Escola: conheça tendências e desafios da educação no Brasil
    Escolha a Escola: conheça tendências e desafios da educação no Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Introduzir este tema no ambiente escolar tem sido cada vez mais necessário. A pesquisa "Livres para sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas", realizada pela organização Serenas, apontou que 76% dos professores relataram ter presenciado difamação, apelidos depreciativos, boatos ou humilhação pública contra alunas, 68% testemunharam alunas sofrendo comentários constrangedores sobre seus corpos e roupas, e 70% viram estudantes sexualizando as garotas por conta de seu comportamento ou roupas.

    No Colégio Equipe, a proposta é combater esse fenômeno levando os alunos do ensino médio para um curso que discute como a adolescência, corpo, sexualidade, relações de gênero e pertencimento atravessam a experiência dos jovens. A escola também transforma situações observadas no cotidiano escolar em objeto de reflexão.

    Segundo a diretora Luciana Fevorini, no ano passado o trabalho foi aprofundado após a escola identificar episódios de violência e a naturalização de comportamentos machistas entre os estudantes. "As meninas passaram a conversar mais sobre situações antes naturalizadas, e as ações ajudaram a criar espaços mais seguros para relatos", diz.

    Adulto de cabelo preso segura um guarda-chuva vermelho grande sobre duas crianças, uma com mochila azul e outra com mochila rosa, em fundo rosa.
    Adulto de cabelo preso segura um guarda-chuva vermelho grande sobre duas crianças, uma com mochila azul e outra com mochila rosa, em fundo rosa. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nos anos finais do ensino fundamental, o assunto é abordado a partir da perspectiva dos meninos, que refletem sobre como se veem e como gostariam de ser vistos. As respostas revelam a pressão para demonstrar força, esconder emoções e evitar atitudes que possam expô-los diante do grupo.

    O trabalho também envolve famílias e comunidade com encontros que discutem performances de gênero, violência contra as mulheres, homofobia, transfobia, cultura red pill e os impactos do machismo sobre os próprios homens.

    Nas mais de 130 escolas da rede Sesi no estado de São Paulo há o programa Juventudes AntiMisoginia. Voltado aos alunos a partir do nono ano, estimula o protagonismo estudantil com a formação de comitês integrados por alunos e professores, que têm autonomia para desenvolver as ações de acordo com as necessidades de cada unidade. Entre as iniciativas estão a produção de fanzines, oficina de análise crítica de músicas, ações solidárias na comunidade, campanhas, palestras, entre outras.

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    Um dos destaques foi a criação do escape room temático. Nele os estudantes precisavam desvendar pistas e desafios conceituais para ajudar uma mulher fictícia a sair de uma situação de violência. Outra iniciativa foi a criação da loja de "inconveniência". Nela, foram expostos produtos que simulavam problemas sociais como salários desiguais e frases machistas propondo a reflexão de que ninguém deveria tolerar ou "comprar" tais práticas.

    Para Fabiana Andrade, analista técnica educacional de sociologia e filosofia do Sesi-SP, o programa responde não só a uma necessidade de debater a misoginia dentro da escola, mas também ao interesse dos estudantes de mudarem suas práticas e de seu entorno.

    "Todos querem fazer com que a escola e suas relações familiares sejam melhores e mais saudáveis. As iniciativas nos dão esperança de que a gente consiga enfrentar essas relações misóginas, que causam violência."

    logo do produto folha de redação
    logo do produto folha de redação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na Escola Vera Cruz, em São Paulo, a discussão sobre relações de gênero acompanha os estudantes ao longo de toda jornada escolar e parte de situações do cotidiano.

    Entre crianças de 8 a 10 anos, reuniões com representantes de classe deram origem a mudanças no recreio, como a divisão da quadra para garantir espaço a times femininos de futebol e a criação de aulas de dança e oficinas de crochê e bordado, com incentivo à participação dos meninos.

    A proposta é questionar, na prática, expectativas sobre o que seria "de menino" ou "de menina" e ampliar as possibilidades de participação.

    Neste ano, os alunos dos anos finais do fundamental escolheram discutir "amizade tóxica", refletindo sobre controle, exclusão e relações de poder.

    No ensino médio, o tema aparece no coletivo feminista e nas aulas de projeto de vida e convivência ética, com discussões sobre consentimento, autocuidado e equidade de gênero.

    Na Escola Estadual Heckel Tavares, na zona Leste de São Paulo, a pauta da violência contra a mulher passou a fazer parte das aulas desde que a diretora Jucilane de Araújo Freitas tomou coragem e tornou pública a sua história, marcada por graves episódios de violência doméstica, incluindo uma tentativa de feminicídio.

    Em 2022, ela reuniu professores, funcionários e alunos do ensino médio no pátio da escola para contar tudo que viveu, mostrando fotos de seu corpo marcado pelas agressões. Naquele momento, o que mais a impressionou foi um silêncio avassalador que veio como resposta. "Na verdade aquele silêncio não calou ninguém, mas, sim, deu voz e um entendimento sobre a gravidade da situação", lembra.

    Amparada por uma medida protetiva da Lei Maria da Pena, Jucilane diz que precisava trazer o assunto para a escola por acreditar que ela também desempenha um papel social. "A escola tem voz para tudo e é também a maior ouvidoria da sociedade." Hoje ela se tornou um canal aberto de escuta, desabafo e acolhimento de toda a comunidade.

    Pedagogicamente, o tema se transformou em jogos didáticos de tabuleiro baseados nas diretrizes da BNCC e utilizados dentro da escola. Um deles, o "Mulheres que Brilham", retrata o protagonismo de mulheres importantes da história do país e do mundo. A própria Jucilane foi incluída como uma das personagens do game.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/09/escolas-enfrentam-misoginia-com-loja-de-inconveniencia-e-analise-de-musica.shtml.

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    Ilustração criada por Fido Nesti para reportagem sobre escolas com ações contra misoginia - Fido Nesti · Fido Nesti — Foto: Folha de S.Paulo

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