Brasil

    Era uma vez nossa família

    Na extrema direita, a liberdade de discordar é negada ao outro

    UOL
    12 de outubro de 2026 às 20:00
    Era uma vez nossa família
    Doze imagens em sequência mostram duas mulheres em silhueta conversando em frente a uma cortina clara. Elas usam roupas escuras e têm cabelos presos. Em cada quadro, gesticulam com as mãos e mudam de posição, indicando diálogo ativo. — Foto: UOL

    Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “Manifesto Antimaternalista”, “Felicidade Ordinária” (Jabuti 2025) e “Análise". É doutora em psicologia pela USP

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    wal_172619 por Pixabay · wal_172619 por Pixabay
    wal_172619 por Pixabay · wal_172619 por Pixabay — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Depois de seis décadas, já acompanhei derrotas políticas enervantes e vitórias gloriosas. Como numa final de campeonato, quem perdia para o time adversário tinha que aguentar o sorrisinho triunfante do tio malufista, do primo janista ou da cunhada fissurada no Collor . A depender dos ânimos da família, um ou outro comentário podia acabar em bate-boca, mas era raro alguém melar o evento doméstico.

    Famílias dificilmente rompiam em nome de tucanos, petistas e peemedebistas. Afinal, as gestões do tão temido PT se revelaram, na prática, mais próximas da centro-esquerda, com os recordes de lucro dos grandes bancos, o crédito subsidiado bilionário ao agronegócio e a ampliação das concessões à iniciativa privada. A direita, por sua vez, não imaginava um Estado totalmente alheio às necessidades do povo.

    Isso foi no tempo da direita tradicional. O cenário mudou de vez com a atual ascensão da extrema direita , calcada na insatisfação com as promessas não cumpridas dos governos —e do capitalismo— e no poder global das redes (anti)sociais.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Da boca de seu maior expoente brasileiro veio a célebre frase: " Vamos fuzilar a petralhada ", enquanto simulava atirar com um fuzil usando um tripé. Outras pérolas do cancioneiro bolsonarista como o governo ter matado pouco na ditadura ou a homenagem ao torturador Ustra já haviam sido proferidas.

    A insurgência contra o resultado do pleito, em 8 de janeiro de 2023, bebe da mesma fonte ideológica. Aquela que faz Trump elogiar a rapidez da apuração da urna eletrônica quando o resultado lhe convém. E que o fará promover teorias da conspiração caso o desfecho não lhe agrade.

    Nem o Maluf , "que rouba, mas faz", se prestou a tamanha desfaçatez nas inúmeras eleições das quais participou. (Já Aécio Neves tentou melar o jogo judicialmente, abrindo a torneira do chorume que chega até nós.)

    O efeito dessa ultrapassagem de limites foi devastador para as famílias. Mas não só. Amigos de infância, condôminos e comunidades escolares perderam a capacidade de dialogar. Contribuiu para esse desfecho o uso que a ultradireita faz de uma certa leitura da religião, que transforma a disputa política em uma guerra santa entre o cidadão de bem e o cidadão do mal. O oponente político passa a ser um infiel e a causa torna quem a defende um ungido de Deus.

    A evitação de assuntos sensíveis em ambientes sociais raramente é respeitada por aqueles que entendem o proselitismo como missão. Daí a insistência em manifestarem suas opiniões mesmo quando não são consultados e em não aceitarem a divergência sob nenhuma hipótese.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    A liberdade de discordar é negada ao outro, e essa negação é camuflada por discursos que não se ocupam da racionalidade, mas do dogma. Quando questionados sobre suas motivações na escolha do candidato de ultradireita, muitos eleitores não ultrapassam o xingamento ao oponente nem se referem aos méritos próprios do escolhido.

    Armar a população é a cereja do bolo de quem vê o adversário político como inimigo mortal. Tudo sob a bênção da indústria bélica e da bancada da bala , na contramão dos mais respeitados especialistas na questão da violência .

    Hoje, quem apoia a ultradireita deve ter pelo menos a coragem de assumi-lo. A direita não está representada no segundo turno desta eleição.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2026/10/era-uma-vez-nossa-familia.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    wal_172619 por Pixabay · wal_172619 por Pixabay — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)