Brasil

    Entre CV e PCC não há apenas guerra, e ainda sabemos muito pouco

    Há uns anos participei, em Brasília , de um seminário com autoridades policiais e penitenciárias. Apresentei resultados de pesquisa sobre as diferenças entre CV e PCC . Disse que, na ponta, seus terceirizados podem até se parecer: o jovem que vende droga na esquina ou rouba na garupa da moto. Mas quem os organiza opera de modos distintos, exigindo diferentes políticas de segurança. Leia mais (08/17/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    17 de agosto de 2026 às 10:00
    Entre CV e PCC não há apenas guerra, e ainda sabemos muito pouco
    A imagem mostra uma rua urbana com um muro de uma casa ao fundo. No muro, há grafites em vermelho, incluindo as letras 'CV' e outras inscrições. Duas pessoas estão em pé ao lado do muro, uma delas está vestindo uma camiseta verde e a outra — Foto: Folha de S.Paulo

    É diretor de pesquisa no CNRS e professor titular da Sciences Po

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    Muros de casa em Manaus com pichações em referência ao Comando Vermelho e letras do PCC apagadas com tinta branca - Tulio Kruse - 16.ago.25/Folhapress · Tulio Kruse - 16.ago.25/Folhapress
    Muros de casa em Manaus com pichações em referência ao Comando Vermelho e letras do PCC apagadas com tinta branca - Tulio Kruse - 16.ago.25/Folhapress · Tulio Kruse - 16.ago.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há uns anos participei, em Brasília , de um seminário com autoridades policiais e penitenciárias. Apresentei resultados de pesquisa sobre as diferenças entre CV e PCC . Disse que, na ponta, seus terceirizados podem até se parecer: o jovem que vende droga na esquina ou rouba na garupa da moto. Mas quem os organiza opera de modos distintos, exigindo diferentes políticas de segurança.

    O CV representa uma primeira geração do crime organizado : exerce controle territorial armado e funciona como empresa piramidal de tráfico e extorsão, militarizada. Em geral, onde se instala, organiza uma cúpula de 13 associados, que presta contas e repassa lucros ao "Estado-Maior", no Rio.

    Cada um dos 13 administra uma área: armas, disciplina, drogas , dívidas, estratégia de expansão etc. São a um só tempo dirigentes e sócios dos negócios. Seus vapores, soldados e ladrões ganham dinheiro e protegem o território em troca de porcentagens, com pouco acesso às decisões. A guerra aos "alemão", os inimigos, cimenta a solidariedade interna.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O PCC é uma forma criminal de segunda geração: uma irmandade secreta, uma "maçonaria do crime", não uma empresa ou comando militar. Articula empreendedores criminais autônomos que se ajudam mutuamente. Cada integrante toca seus negócios, não paga à organização, mas a fortalece.

    Conselhos, as "Sintonias", definem estratégias e fornecem infraestrutura para mercados de drogas, armas, veículos e contrabando, além de advogados e contadores. O patrimônio de cada empresário-membro não se confunde com o caixa da facção, sagrado. A ideologia de igualdade interna é fortíssima. Enquanto no CV negócios e comando podem se concentrar nas mesmas mãos, no PCC a autoridade circula por posições: a instituição pesa mais que suas lideranças.

    Naquele seminário, reforcei que essas duas formas de organização se expandiam simultaneamente pelo Brasil. Em muitos estados, falava-se em "Tudo 2" e "Tudo 3". Em Porto Alegre , os Bala na Cara, Tudo 2, enfrentavam os Manos, Tudo 3. Em Salvador , o Bonde do Maluco é 3; o Comando da Paz, 2. Em Goiás , os Amigos do Estado são também amigos do PCC e confrontam o CV. Meninos morreram por selfies com gestos 2, ou 3, em terreno inimigo.

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    Mas não há apenas guerra, nesse mapa. "O crime fortalece o crime", dizem as facções. Levantei também a hipótese de que 2 e 3 poderiam coexistir: o CV controlando territórios e o varejo de uma cidade; o PCC regulando fluxos ilícitos de atacado no porto, por exemplo. Seria preciso pesquisar muito melhor essas relações, que afetam diretamente a insegurança no país. Ainda sabemos muito pouco.

    Logo depois de mim, falou no seminário um alto dirigente da segurança. Fez questão de dizer que não se importava se era CV ou PCC: era tudo "vagabundo igual". Sua fala, claro, foi muito aplaudida. Essa é a concepção dominante da segurança pública no Brasil: não apenas de ignorância e guerra ineficaz, mas de reação ao conhecimento.

    Há os que pensam que ela deveria ser uma política pública, baseada em evidências, mas ainda somos poucos. Terceirizados e garupas seguem sendo presos e mortos, substituídos no dia seguinte por organizações cada vez mais poderosas. Enquanto o Brasil vai virando 2, ou 3, talvez mais.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gabriel-feltran/2026/08/entre-cv-e-pcc-nao-ha-apenas-guerra-e-ainda-sabemos-muito-pouco.shtml.

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    Muros de casa em Manaus com pichações em referência ao Comando Vermelho e letras do PCC apagadas com tinta branca - Tulio Kruse - 16.ago.25/Folhapress · Tulio Kruse - 16.ago.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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