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    Entenda o que acontece no cérebro de quem se vicia em apostas

    No transtorno do jogo, impulso pode ficar forte demais e continuar mesmo quando o prazer diminui e os prejuízos financeiros e emocionais aumentam. Arquivo/Agência Brasil O governo federal anunciou nesta sexta-feira (25) novas medidas para endurecer as regras sobre as bets no Brasil. A medida proíbe as apostas e os jogos virtuais online no país. O presidente deve enviar ainda ao Congresso um projeto de lei que estabelece penas para quem explorar, operar ou divulgar as chamadas bets. Um dos pontos envolvidos no debate público sobre o tema é a relação entre apostas e saúde pública, incluindo o co

    G1
    25 de setembro de 2026 às 21:38
    Entenda o que acontece no cérebro de quem se vicia em apostas
    Foto: G1

    No transtorno do jogo, impulso pode ficar forte demais e continuar mesmo quando o prazer diminui e os prejuízos financeiros e emocionais aumentam. — Foto: Arquivo/Agência Brasil

    O governo federal anunciou nesta sexta-feira (25) novas medidas para endurecer as regras sobre as bets no Brasil . A medida proíbe as apostas e os jogos virtuais online no país. O presidente deve enviar ainda ao Congresso um projeto de lei que estabelece penas para quem explorar, operar ou divulgar as chamadas bets.

    Um dos pontos envolvidos no debate público sobre o tema é a relação entre apostas e saúde pública, incluindo o combate à ludopatia (doença de pessoas viciadas em jogos de azar) . Há quem aposte de vez em quando sem maiores consequências, enquanto outras pessoas seguem jogando mesmo depois de acumular dívidas, conflitos familiares e sofrimento.

    🎲 ENTENDA: A ludopatia é uma condição médica caracterizada pelo desejo incontrolável de continuar jogando. A doença é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e no Brasil tem CID: 10-Z72.6 (mania de jogo e apostas) e 10-F63.0 (jogo patológico).

    O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou aumento nos atendimentos de pessoas com transtornos associados ao jogo nos últimos anos. Segundo o diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, foram 2.262 atendimentos em 2023 e 3.490 em 2024, uma alta de 54%. Entre janeiro e junho de 2025, o sistema contabilizou outros 1.951 atendimentos.

    A ciência mostra que a explicação vai além do prazer da vitória. Pesquisas recentes indicam que, em pessoas com transtorno do jogo, o cérebro reage com intensidade antes de o resultado aparecer, quando a recompensa ainda é só uma possibilidade.

    Um estudo publicado em 2026 na revista científica "Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging" registrou nesse grupo uma resposta cerebral mais forte à antecipação de ganhos. Quanto mais graves os sintomas, mais intensa era a reação enquanto os participantes esperavam para saber se tinham vencido.

    Diante de uma aposta, o cérebro pesa ao mesmo tempo a chance de ganhar, o risco de perder e o valor do que está em jogo. Nesse cálculo, áreas ligadas ao planejamento e à tomada de decisão agem em conjunto com circuitos de emoção, motivação e aprendizado.

    Um desses circuitos passa pelo estriado ventral, uma região no fundo do cérebro que funciona como uma espécie de central da expectativa: ela se ativa quando a pessoa antecipa algo que deseja.

    Uma de suas partes, o núcleo accumbens, é uma das peças-chave do sistema de recompensa, o conjunto de áreas que faz o cérebro buscar de novo aquilo que trouxe satisfação.

    A ínsula, por sua vez, transforma risco e incerteza numa sensação física de tensão e excitação, segundo o neurologista Alan Eckeli, professor livre-docente de neurologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

    Foi essa fase de espera que chamou a atenção dos autores do estudo de 2026. Com eletroencefalograma (EEG), eles registraram a atividade cerebral de 26 pessoas com transtorno do jogo e de 54 voluntários sem diagnóstico psiquiátrico durante uma tarefa que simulava uma máquina caça-níquel.

    A maior diferença entre os grupos apareceu antes do resultado: quem tinha o transtorno reagia com mais força à simples possibilidade de ganhar. O achado não transforma o exame numa ferramenta de diagnóstico, já que a pesquisa compara grupos, e não indivíduos. Mas ajuda a entender um dos mecanismos da dependência.

    Parte da força da aposta, portanto, estaria menos no prêmio do que na pergunta que vem antes dele: e se eu ganhar?

    A dopamina costuma ser descrita como a substância do prazer, mas seu papel no cérebro é mais amplo. Ela participa da motivação, do aprendizado e da capacidade de dar peso a sinais que anunciam uma possível recompensa.

    Por isso, até imaginar uma vitória que ainda não aconteceu pode acionar o sistema de recompensa, segundo Renato Anghinah, professor titular de neurologia da Faculdade de Medicina do ABC e livre-docente da Faculdade de Medicina da USP.

    Eckeli destaca o chamado erro de previsão de recompensa, a comparação que o cérebro faz entre o que esperava e o que de fato aconteceu. Quando o resultado supera a expectativa, o sinal de recompensa tende a ficar mais forte. Uma vitória inesperada, mesmo pequena, pode marcar o aprendizado mais do que um ganho já previsto. É por isso que a incerteza pesa tanto nas apostas.

    Na experiência da recompensa, o neurologista separa o gostar do querer. Gostar é o prazer sentido na hora da vitória. Querer é o impulso de buscar essa sensação outra vez.

    No transtorno do jogo, esse impulso pode ficar forte demais e continuar mesmo quando o prazer diminui e os prejuízos financeiros e emocionais aumentam. Isso ajuda a explicar por que alguém segue apostando quando o jogo já deixou de ser divertido.

    O fato de os ganhos virem sem aviso também mantém o jogador preso. Nas apostas, a recompensa segue o que a psicologia chama de reforço intermitente: uma pequena vitória aparece depois de uma série de perdas e logo é seguida por novas derrotas. Segundo Eckeli, essa alternância mantém a expectativa sempre acesa.

    Anghinah acrescenta que mesmo ganhos pequenos, muito menores do que o total já perdido, podem servir de estímulo para continuar jogando. Assim, o cérebro aprende não só com a recompensa, mas com a chance de ela aparecer na próxima rodada.

    Do ponto de vista matemático, um quase acerto é uma derrota como outra qualquer. Se a roleta para ao lado do número escolhido, esse número não ganha mais chance de sair na rodada seguinte, lembra Eckeli.

    O cérebro, porém, nem sempre registra a situação como perda. Estudos de neuroimagem mostram que o quase ganho pode ativar em parte os circuitos de recompensa e aumentar a vontade de seguir apostando. No estudo de 2026, as pessoas com transtorno também tiveram respostas cerebrais mais intensas diante das vitórias e dos quase acertos.

    Desse modo, o acaso passa a ser lido como sinal de progresso.

    Um dos comportamentos mais conhecidos do transtorno é a chamada perseguição das perdas. Depois de perder dinheiro, a pessoa volta a apostar para tentar recuperar o prejuízo, e o valor já gasto passa a justificar um novo risco.

    Estresse, ansiedade, culpa e sensação de urgência deixam ainda mais difícil interromper a sequência e medir as consequências. Nesses momentos, explica Eckeli, o sistema que gera desejo e urgência pode se impor àquele que calcula prejuízos futuros. Saber que está perdendo, portanto, não garante conseguir parar.

    As plataformas digitais acrescentam um fator decisivo: a velocidade. No celular, apostar, esperar, ver o resultado e apostar de novo pode levar poucos segundos. Quanto menor esse intervalo, menos tempo sobra entre a emoção de uma rodada e a decisão sobre a próxima.

    Notificações, bônus, placares em tempo real, animações, sons e mudanças nas odds também podem servir de gatilho. Com a repetição, segundo Eckeli, até abrir o aplicativo ou ver o começo de uma partida pode despertar a vontade de apostar.

    Uma revisão sistemática publicada na revista The Lancet Public Health encontrou diferenças importantes entre as modalidades de jogo. No mundo, 8,7% dos adultos apresentavam algum nível de jogo de risco, e 1,41% se enquadravam no jogo problemático. Entre usuários de cassinos online e caça-níqueis virtuais, a taxa estimada de jogo problemático chegou a 15,8%, a mais alta entre os formatos analisados. O número se refere a quem usa essas plataformas, e não à população em geral.

    A maioria das pessoas que apostam não desenvolve o transtorno. Segundo Eckeli, o sinal de alerta é a perda de controle, que aparece quando a pessoa tenta recuperar prejuízos com novas apostas, mente sobre os gastos, pega dinheiro emprestado, deixa compromissos de lado ou tenta parar várias vezes sem conseguir.

    As principais classificações psiquiátricas reconhecem o transtorno do jogo como uma condição ligada a comportamentos aditivos. O tratamento pode reunir psicoterapia, avaliação de outros problemas de saúde mental, estratégias para dificultar o acesso impulsivo ao dinheiro e a participação de familiares ou pessoas de confiança.

    Publicado originalmente por G1. Leia a matéria completa em https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/09/25/entenda-o-que-acontece-no-cerebro-de-quem-se-vicia-em-apostas.ghtml.

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