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    Entenda como funciona o fenômeno psíquico que gera a mitomania

    No caso do mentiroso patológico, a fabricação de histórias torna-se persistente, desproporcional e, por vezes, aparentemente compulsiva

    Poder360
    5 de outubro de 2026 às 09:50
    Entenda como funciona o fenômeno psíquico que gera a mitomania
    Foto: Poder360

    No caso do mentiroso patológico, a fabricação de histórias torna-se persistente, desproporcional e, por vezes, aparentemente compulsiva

    Mentir é um comportamento humano universal. A mentira pode proteger a intimidade, evitar conflitos, preservar vínculos ou produzir vantagens sociais.

    Existe, entretanto, uma diferença importante. E vale esclarecer a diferença entre mentira ocasional, dirigida a finalidade compreensível, e a mentira patológica. Esta é aquela tradicionalmente denominada pseudologia fantástica ou mitomania.

    Detalhe do quadro “O Bobo da corte”, obra do século 16 de Jacob Cornelisz van Oostsanen
    Detalhe do quadro “O Bobo da corte”, obra do século 16 de Jacob Cornelisz van Oostsanen — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    Nessa condição, a fabricação de histórias torna-se persistente, desproporcional e, por vezes, aparentemente compulsiva. Essa condição passa a constituir uma característica marcante do funcionamento interpessoal do indivíduo.

    Descrita na literatura psiquiátrica há mais de um século, a pseudologia fantástica permanece uma entidade controversa. Não constitui, atualmente, um diagnóstico independente nos principais sistemas classificatórios.

    Ainda assim, estudos contemporâneos sugerem que a mentira patológica pode produzir sofrimento e prejuízos sociais e ocupacionais suficientemente significativos. Isso para justificar sua consideração como fenômeno psicopatológico específico.

    As histórias do mitômano frequentemente contêm uma combinação peculiar de realidade e fantasia. Não são necessariamente impossíveis. Ao contrário, podem nascer de acontecimentos verdadeiros progressivamente modificados, ornamentados e ampliados.

    Em muitos casos, colocam o narrador em posição excepcional, vítima de acontecimentos extraordinários, protagonista de realizações improváveis ou personagem central de situações dramáticas.

    Um aspecto importante é que isso difere do delírio porque diante de evidências inequívocas, a pessoa reconhece que determinados fatos narrados não ocorreram.

    Uma revisão sistemática recente reforça a heterogeneidade do fenômeno. Entre os casos publicados, aparecem frequentemente motivações relacionadas à autovalorização e à busca de atenção, além de associações com diferentes transtornos psiquiátricos.

    Isso torna inadequado considerar todo mentiroso patológico como portador de um determinado transtorno de personalidade.

    A mitomania parece ser melhor compreendida como um fenômeno psicopatológico que pode surgir em diferentes organizações de personalidade e contextos clínicos.

    Há, porém, uma dimensão particularmente interessante e menos explorada. O que acontece com as pessoas que convivem durante anos com alguém que mente sistematicamente?

    Inicialmente, familiares, amigos, colegas ou mesmo eleitores podem acreditar nas histórias.

    Posteriormente surgem inconsistências, contradições e fatos que não se confirmam. Depois de repetidas experiências, instala-se uma transformação da relação.

    As pessoas deixam de perguntar simplesmente “isso é verdade?”. E passam a interpretar o discurso dentro de um novo enquadramento. “Essa é a versão que ele ou ela está contando”.

    Forma-se, então, uma espécie de adaptação relacional à mentira. Algumas histórias deixam de ser confrontadas, não porque sejam consideradas verdadeiras, mas porque desmenti-las continuamente teria elevado custo emocional e produziria conflitos repetitivos.

    O círculo social pode aprender a selecionar quais informações precisam ser verificadas e quais podem ser toleradas ou ignoradas. É importante salientar que esse mecanismo é uma hipótese clínico-relacional plausível. E não uma característica da mitomania já suficientemente demonstrada por estudos controlados.

    Surge, assim, um paradoxo fascinante já que a mentira pode continuar existindo mesmo depois de perder parte de sua capacidade de enganar.

    O narrador conta, os outros, mesmo os eleitores, escutam, poucos acreditam. E, apesar disso, a interação social prossegue.

    A literatura chegou inclusive a descrever formas compartilhadas de pseudologia. Esses exemplos ilustram como o fenômeno pode ultrapassar o indivíduo e adquirir uma dimensão interpessoal.

    Do ponto de vista terapêutico, isso ajuda a compreender por que a confrontação agressiva nem sempre é a melhor estratégia.

    Revisões científicas recentes enfatizam construção de vínculo, escuta de apoio e abordagem das comorbidades psiquiátricas. Opção para não transformar cada encontro em um tribunal destinado a determinar quais afirmações são verdadeiras ou falsas.

    Talvez, uma das características mais intrigantes da mitomania seja o tempo. Neste caso, ela pode deixar de ser apenas a patologia de alguém que mente e transformar-se em uma organização relacional. Na organização relacional, todos já sabem que certas histórias provavelmente não são verdadeiras, inclusive, quem as conta.

    Nesse cenário, compreender por que a narrativa precisa continuar pode ser clinicamente mais importante do que simplesmente demonstrar que ela é falsa.

    Antonio Egídio Nardi é presidente da Academia Nacional de Medicina, professor titular da Faculdade de Medicina da UFRJ e Cientista do Nosso Estado da Faperj

    Este texto foi publicado originalmente pela The Conversation, em 30 de setembro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

    Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-saude/entenda-como-funciona-o-fenomeno-psiquico-que-gera-a-mitomania/.

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    Detalhe do quadro “O Bobo da corte”, obra do século 16 de Jacob Cornelisz van Oostsanen — Foto: Poder360

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