Entenda a lacuna entre os dados sobre o desempenho dos alunos e a violência contra meninas na escola
Recentemente foi lançado o Ideb 2025, índice do INEP que combina desempenho em português e matemática nas provas do Saeb com a taxa de aprovação de cada escola . Nas três etapas avaliadas, o Brasil atingiu os maiores valores desde o início da série, em 2005. É um indicador relevante, mas deixa de fora dimensões que também definem a qualidade da educação . Leia mais (10/07/2026 - 10h45)

Editado por Michael França, escrito por acadêmicos, gestores e formadores de opinião
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Gestora de Políticas Educacionais na Serenas
Recentemente foi lançado o Ideb 2025, índice do INEP que combina desempenho em português e matemática nas provas do Saeb com a taxa de aprovação de cada escola . Nas três etapas avaliadas, o Brasil atingiu os maiores valores desde o início da série, em 2005. É um indicador relevante, mas deixa de fora dimensões que também definem a qualidade da educação .
Queremos falar sobre as estudantes que estão por trás da média, pois, apesar de em alguns casos as notas serem maiores, meninas são as que mais sofrem violência na escola e isso tem um custo.
As políticas de equidade que ganharam força na educação brasileira miram, sobretudo, o recorte racial e socioeconômico, pois são os grupos com menores resultados de aprendizagem . A desigualdade de gênero quase não entra nessa análise. Falar de equidade é falar de condições equitativas para aprender, e ainda precisamos entender como as violências de gênero afetam a aprendizagem e a vida escolar das meninas.
Os microdados da PeNSE ajudam a preencher parte dessa lacuna. Em 2024, a proporção de meninas que relatam ter perdido a vontade de viver é o dobro da observada entre meninos (25% contra 12%), padrão que se repete na tristeza persistente (41% contra 17%). As meninas podem até tirar notas melhores, mas pagam um custo emocional alto, ligado a violência e estereótipos de gênero, que os indicadores de aprendizagem nunca vão mostrar.
Se a qualidade da educação depende também das condições para aprender e permanecer na escola, é preciso perguntar o que fica invisível quando olhamos apenas para desempenho e aprovação. Inserir a perspectiva de gênero, somada à raça e ao nível socioeconômico, no debate da equidade pode contribuir fortemente para a qualidade da educação.
Além dos indicadores de aprendizagem e fluxo escolar que já orientam o Ideb, são precisos indicadores que captem clima escolar e violência de gênero. Parte do caminho já existe. O Saeb e a PeNSE já perguntam a estudantes, professores e diretores sobre violência no dia a dia escolar. Falta dar a essa análise a mesma prioridade dos resultados de aprendizagem. Enquanto isso, o retrato mais completo do clima escolar segue represado em microdados que poucos abrem.
Fica o convite ao ecossistema da educação brasileira para aprofundar o olhar sobre desigualdades de gênero na escola. Nada disso é um chamado para descartar o Ideb. A pergunta que fica é por que a agenda da educação ainda trata gênero como um recorte secundário, quando os próprios números sinalizam sua importância. A Lei Maria da Penha completou 20 anos em 2026, e vale lembrar que a prevenção à violência de gênero começa na escola, com clima saudável e equitativo, currículo e espaços de escuta para estudantes. Se em 2006 o Brasil decidiu que essa violência não podia mais ser silenciosa, o próximo passo é trazer essa discussão para dentro das escolas.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Stefania Molina e Graziela Santos foi "O Trono do Estudar", de Dani Black.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/politicas-e-justica/2026/10/entenda-a-lacuna-entre-os-dados-sobre-o-desempenho-dos-alunos-e-a-violencia-contra-meninas-na-escola.shtml.

Mãos de alunas de uma escola municipal de Campinas - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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