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    Empresas projetam perdas com efeitos do El Niño, mas algumas veem ganhos

    O El Niño , fenômeno de aquecimento atípico das águas do oceano Pacífico , tem embaralhado padrões de clima e elevado temperaturas em todo o globo desde junho ?e algumas empresas do Ibovespa começaram a antever quais poderão ser suas principais vulnerabilidades aos eventos climáticos. Outras, porém, enxergam oportunidades para suas operações. Leia mais (08/22/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    23 de agosto de 2026 às 02:00
    Empresas projetam perdas com efeitos do El Niño, mas algumas veem ganhos
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    O El Niño , fenômeno de aquecimento atípico das águas do oceano Pacífico , tem embaralhado padrões de clima e elevado temperaturas em todo o globo desde junho –e algumas empresas do Ibovespa começaram a antever quais poderão ser suas principais vulnerabilidades aos eventos climáticos. Outras, porém, enxergam oportunidades para suas operações.

    Varandas com ar-condicionado em São Paulo; demanda pelo produto deve crescer nos próximos meses - Allison Sales -04.dez.24/Folhapress · Allison Sales -04.dez.24/Folhapress
    Varandas com ar-condicionado em São Paulo; demanda pelo produto deve crescer nos próximos meses - Allison Sales -04.dez.24/Folhapress · Allison Sales -04.dez.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    De acordo com levantamento feito pela Folha com as 76 companhias listadas no principal índice da Bolsa, a expectativa para o primeiro grupo é que o super El Niño traga riscos de crédito e calotes no setor rural, aumente sinistralidades, quebre safras agrícolas e crie gastos adicionais com logística. Os dados levam em conta o conteúdo das teleconferências de resultados do segundo trimestre deste ano.

    Para o outro grupo, o calor pode ser um trunfo de vendas. Empresas como Magazine Luiza e Assaí analisaram como os termômetros nas alturas podem influenciar o comportamento do consumidor e catalisar vendas de segmentos específicos.

    "O calor faz muita diferença para nós. A linha de ar-condicionado e ventilação vende muito e mexe muito o ponteiro, assim como a categoria de refrigeração, que é a que vende mais na companhia. No calor, vendemos muito", afirmou Fabrício Garcia, vice-presidente de operações da Magazine Luiza, na teleconferência do início do mês.

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    "Estamos bem programados, bem planejados com os fornecedores, e já começamos a receber os itens."

    A indústria de climatização, como mostrou a Folha , tem se mobilizado diante da perspectiva de um dos El Niños mais fortes de todos os tempos. Varejistas antecipam encomendas e fabricantes reforçam estoques, atentos a uma demanda que pode disparar no verão. A previsão da Abrava, associação que representa o setor, é que o faturamento chegue a R$ 55,62 bilhões neste ano, alta de 10% ante 2025.

    Especialmente para o brasileiro, o calor também impulsiona outro mercado: o de bebidas. Carlos Lisboa, CEO da Ambev, afirmou que a empresa se amparou na experiência do El Niño de 2024 para embasar estratégias para os próximos trimestres.

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    "O ano de 2024 ilustrou que temperaturas mais altas podem, sim, influenciar a demanda", afirmou. No balanço daquele ano, a Ambev reportou que a receita líquida de cerveja no Brasil somou R$ 40,22 bilhões, alta de 3,2% em relação a 2023.

    A previsão, segundo a Bloomberg, é que essa cifra encerre 2026 em R$ 43,4 bilhões, avanço de quase 8% ante 2025, também impulsionado pelo consumo durante a Copa do Mundo.

    Já o Assaí vê que as margens podem aumentar diante da possível volatilidade nos preços das commodities, de efeito direto na inflação de alimentos.

    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável
    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "A capacidade de repassar preços, ela vai ocorrer. O El Niño tende a influenciar commodities que já estão com o preço depreciado, então pode ser que tenhamos um efeito positivo em relação a isso [no faturamento]", afirmou o CEO Belmiro Gomes.

    Castigado pelos juros altos e pelo endividamento recorde das famílias , o setor varejista é um dos poucos que têm no El Niño alguma janela possível de oportunidade –embora não o suficiente para reverter o momento ruim, que culminou em ao menos cinco pedidos de recuperação judicial neste ano.

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    Para os demais setores –em especial agronegócio , logística, transporte e seguros–, o El Niño dificilmente é uma oportunidade de negócio. No levantamento da Folha , SLC Agrícola, Minerva, Klabin, Rumo, Banco do Brasil e Caixa Seguridade são algumas das companhias do Ibovespa que citaram riscos às operações.

    O agronegócio, segundo Aline Cardoso, líder do departamento de pesquisa e estratégia de ações do Santander, é o mais penalizado –e isso cria um efeito cascata para outros segmentos da economia .

    "O El Niño, historicamente, traz seca para o Centro-Oeste, o que causa quebra de safra. Por consequência, o setor financeiro acaba penalizado porque dá crédito para o agro, então podemos ver um aumento de inadimplência por conta disso. Setor de transportes, especificamente ferrovias e hidrovias, tende também a sofrer, porque, se há quebra de safra, há menos volume para transportar", afirma.

    Nesse sentido, grandes bancos têm colocado a SLC Agrícola como uma das mais expostas negativamente ao El Niño.

    A companhia, uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão do país, costuma ter queda média de 7% na produtividade da soja em anos com o fenômeno, segundo a UBS BB, enquanto o algodão de segunda safra apresenta queda em torno de 10%.

    Quando o fenômeno climático vem mais forte do que o previsto, as perdas tendem a ser maiores também –em 2016, por exemplo, a quebra de safra da SLC chegou a 15%, afetada sobretudo pela falta de chuvas no Nordeste e no Centro-Oeste.

    Para o super El Niño deste ano, a companhia anunciou mudanças no manejo, focando em coberturas de solo para reter umidade e evitando o revolvimento da terra para reduzir a evaporação de água. A empresa também antecipou o plantio do algodão na Bahia para aproveitar as chuvas do começo do ano.

    "A expectativa é que as perdas de 2027 sejam bem menores do que as de 2016", afirmou o CEO Aurélio Pavinato na teleconferência de resultados.

    A Minerva, de agropecuária, segue nessa mesma esteira. A seca nas regiões pecuárias pode atrasar a recomposição dos rebanhos e manter elevados os custos do gado por mais tempo.

    "Com menos pasto para o gado se alimentar, o produtor tem que complementar a alimentação com ração, que acaba sendo bem mais cara do que o pasto. Tem uma pressão de margem, no caso do produtor, que ele repassa para os frigoríficos também", diz Cardoso, do Santander.

    No setor de transportes, a Rumo pode ser afetada pela possível queda no volume de grãos transportados e no fechamento de contratos agrícolas. "O El Niño tradicionalmente atinge todas as pontas, do sistema Norte ao sistema Sul, e de maneiras diferentes", afirmou Guilherme Machado, diretor financeiro da empresa.

    Para as seguradoras, a imprevisibilidade do fenômeno torna difícil mapear quais serão os efeitos na sinistralidade. O Banco do Brasil, expoente no seguro do agronegócio, afirmou ter enviado 280 profissionais de ciências agrárias para campo para monitorar as lavouras em tempo real e está incentivando produtores a terem mais de um contrato de seguro.

    "Estamos falando para ter mais seguro, seja de Proagro [vinculado ao Banco Central], seja o seguro normal, e tentando incentivar produtores onde a tendência é ter seca a fazer investimentos em irrigação", disse Gilson Bittencourt, vice-presidente de agronegócios e agricultura familiar do BB.

    O banco afirma ter levado o El Niño em conta na PDD (Provisão para Devedores Duvidosos, ou Perdas Esperadas em Operações de Crédito), reserva contábil destinada a cobrir calotes, de 2026. No braço BB Seguridade, a companhia ainda utiliza contratos de excesso de danos ("stop loss") para as carteiras e mantém discussões com o governo federal sobre fundos de catástrofe.

    Empresas de energia elétrica estão dos dois lados: algumas veem o possível aumento da demanda para driblar o calor como forma de aumentar as margens; outras já engataram planos de manutenção preventiva de redes elétricas e podas de árvores para minimizar riscos de apagões e volatilidade de preços.

    Copel e Auren efalam em oportunidades com o El Niño, desde reservatórios mais cheios no Sul até alta demanda no Sudeste e Centro-Oeste pelas ondas de calor. Energisa, Cemig e Axia, porém, já mencionam riscos de interrupção de danos a fios e à rede elétrica aérea, apagões e volatilidade nos preços de energia.

    "Como o Brasil tem dimensões continentais, cada região é afetada de forma diferente pelo El Niño. E dependendo da região onde cada concessionária, distribuidora ou geradora de energia opera, o efeito vai ser diferente", diz Cardoso, do Santander.

    "Se você é uma geradora de energia e seu reservatório fica no Sul, em tese as chuvas vão ajudar a gerar mais energia. No Nordeste e no Norte, como é o caso da Axia, em Belo Monte (PA), a seca tende a ser ruim."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/empresas-projetam-perdas-com-efeitos-do-el-nino-mas-algumas-veem-ganhos.shtml.

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