Brasil

    Empresários brasileiros 'perdem' 3 meses de trabalho por ano com burocracia financeira, diz pesquisa

    Os brasileiros donos de pequenos negócios perdem, em média, nove horas por semana só resolvendo burocracias financeiras. No fim do ano, esse "expediente" parcelado em diferentes atividades ao longo do dia chega a 468 horas, ou quase 3 meses. Leia mais (10/13/2026 - 12h00)

    Folha de S.Paulo
    13 de outubro de 2026 às 15:00
    Empresários brasileiros 'perdem' 3 meses de trabalho por ano com burocracia financeira, diz pesquisa
    Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    São Paulo Os brasileiros donos de pequenos negócios perdem, em média, nove horas por semana só resolvendo burocracias financeiras. No fim do ano, esse "expediente" parcelado em diferentes atividades ao longo do dia chega a 468 horas, ou quase 3 meses.

    Valdir Oliveira (gerente de Capitalização e Serviços Financeiros do Sebrae), Maximiliano Damian Rodrigues (vice-presidente Nu Empresas), Renato Trindade (CEO da Bridge Research) e Dayane Franco (diretora-sócia da Bridge Research) - Guilherm
    Valdir Oliveira (gerente de Capitalização e Serviços Financeiros do Sebrae), Maximiliano Damian Rodrigues (vice-presidente Nu Empresas), Renato Trindade (CEO da Bridge Research) e Dayane Franco (diretora-sócia da Bridge Research) - Guilherm — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As atividades que mais consomem tempo são as obrigações fiscais e tributárias (43%), o controle de entradas e saídas (41%) e a emissão de notas fiscais (40%).

    Os dados são de estudo da Nu Empresas e da Bridge Research. Eles ouviram 1.200 donos de pequenos negócios em todo o Brasil, incluindo clientes e não clientes do banco digital.

    A amostra se concentra no Sudeste (58%), seguido por Nordeste (17%), Sul (15%) e Centro-Oeste (7%). O Norte representa 3% dos entrevistados.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A burocracia atinge os negócios conforme o porte. Ainda segundo a pesquisa, quanto mais estruturada a empresa, maior a carga.

    Microempreendedores individuais (MEIs) gastam, em média, 8 horas por semana com tarefas financeiras e burocráticas. Entre as micro e pequenas empresas (ME), o tempo sobe para dez horas.

    Donos de lojas, de balcões e maquininhas, perfil que a pesquisa classifica como varejo, dedicam 11 horas semanais ao tema, três a mais do que quem trabalha em escritórios e consultórios, onde a média é de 8 horas.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É o caso da empresária Shirley Moreira, 58, que há mais de 25 anos toca uma loja que vende no varejo e no atacado na avenida 25 de Março, em São Paulo (SP) . Para ela, a burocracia faz parte da rotina, mas é uma "perda de tempo", que toma muito do empreendedor.

    "Tenho um monte de coisa que dá para fazer e melhorar. Só que como melhora?", afirma. Shirley diz não enxergar solução para o problema, mas acredita que o negócio poderia crescer mais sem esse entrave.

    Em coletiva de imprensa na última quin ta-feira (8), o vice-presidente da Nu Empresas, Maximiliano Damian Rodrigues, afirmou que a pesquisa encontrou casos representativos dos efeitos da burocracia na rotina dos empresários.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ele relata o caso de uma empreendedora que, ao fim do dia, tirava de uma grande caixa de madeira os comprovantes de venda emitidos pela maquininha de cartão, todos presos com grampo ou clipe, separados por dia. Um a um, ela os conferia no extrato bancário para checar se cada venda havia sido paga, e marcava ao lado.

    Conferir se o dinheiro de cada venda entrou na conta, a chamada conciliação, está entre as tarefas que mais tomam tempo de 30% dos entrevistados.

    Segundo o estudo, é um trabalho puramente operacional, que não envolve decisão e, mesmo assim, ocupa quase um terço dos donos de negócio.

    Os empreendedores, aliás, controlam o caixa em papel ou caderneta: são 23% que usam esse método. Outros 53% usam planilhas digitais e 29% usam plataformas oferecidas pelos bancos.

    As atividades burocráticas, descritas pela pesquisa como pequenas, repetitivas e inescapáveis, afetam tarefas essenciais para o crescimento e a saúde de um negócio.

    Segundo o levantamento, a percepção de prejuízo é majoritária. Dois em cada três entrevistados (68%) concordam que o negócio seria mais lucrativo se tivessem menos burocracia para resolver.

    Mais da metade (53%) diz que o tempo dedicado a essas tarefas causa estresse e ansiedade. A mesma proporção (53%) afirma deixar de focar em estratégia e crescimento por estar sobrecarregada com a burocracia bancária e administrativa.

    Outros 45% afirmam já ter perdido oportunidades de negócio enquanto resolviam questões burocráticas e financeiras.

    Os pesquisadores também perguntaram o que os empreendedores deixaram de fazer nos últimos três meses pelo excesso de burocracia. Para 85%, o custo foi renunciar a tarefas importantes para o crescimento e a saúde do negócio.

    O primeiro corte foi o planejamento: 37% deixaram de planejar o crescimento do negócio para o próximo ano. Outros 35% dedicaram menos tempo aos clientes atuais, e a mesma proporção deixou de investir em divulgação ou marketing. Também ficaram de fora cursos, treinamentos e eventos do setor (33%). Só 15% dizem não ter deixado de fazer nada devido à burocracia.=

    Agdo Gabriel Freire Dantas, 26, é dono de uma empresa de transporte de água potável por caminhão-pipa em Porto Velho (RO). A companhia atende condomínios, órgãos do poder público e moradores que precisam de abastecimento, na capital e no interior.

    Ele afirma que as obrigações tributárias são um dos principais gargalos do negócio, mesmo contando com um escritório de contabilidade para organizar as finanças e impostos.

    Isso porque, segundo ele, as obrigações tributárias mudam o tempo todo por meio de decisões do legislativo federal, estadual e municipal.

    Na avaliação de Agdo, o empreendedor depende do contador para sobreviver. Sem um escritório de contabilidade como "braço direito", diz, o negócio não vai para frente.

    "[O empresário] consegue abrir CNPJ, firmar razão social, mas é o tempo todo atualização, pagamento, nota fiscal no site da prefeitura, justificativa para a Receita, balanço anual", afirma.

    Como a empresa presta serviços para o poder público, as exigências se multiplicam. Para operar, é preciso licença da vigilância sanitária e outorga para o uso dos poços, já que a água pertence ao poder público, e há limites mínimo e máximo de extração por dia. Para fechar contratos com órgãos públicos, a empresa precisa estar regularizada, além de apresentar balanços e certidões negativas.

    Se tivesse mais margem de tempo, Agdo afirma que investiria em marketing digital, com mídias, impulsionamento e influenciadores, para fechar contratos e captar clientes.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/negocios/2026/10/empresarios-brasileiros-perdem-3-meses-de-trabalho-por-ano-com-burocracia-financeira-diz-pesquisa.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Valdir Oliveira (gerente de Capitalização e Serviços Financeiros do Sebrae), Maximiliano Damian Rodrigues (vice-presidente Nu Empresas), Renato Trindade (CEO da Bridge Research) e Dayane Franco (diretora-sócia da Bridge Research) - Guilherm — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)