Emendas de deputada irmã de Edir Macedo bancam eventos da Universal
Edna Macedo (Republicanos) diz ter agido dentro da lei e que destinação dos recursos foi transparente

Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências
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Na semana passada, o Intercept Brasil revelou que R$ 2,2 milhões em emendas parlamentares da deputada estadual Edna Macedo ( Republicanos ) financiaram megaeventos vinculados à Igreja Universal do Reino de Deus. Edna é irmã do bispo Edir Macedo , fundador da igreja. O fato já seria alarmante se fosse isolado, mas não é.
O caso expõe como as emendas parlamentares se tornaram uma via para o envio de dinheiro público a atividades de finalidade religiosa. É a farra bíblica das emendas. Dos recursos indicados por Edna Macedo, R$ 1,2 milhão foi destinado ao The Love Walk, a Caminhada do Amor.
Segundo o site da Universal, a caminhada é um evento para que solteiros encontrem um amor e casados melhorem suas relações. Foi criada pelo bispo Renato Cardoso e por sua mulher, Cristiane Cardoso, autores do best-seller evangélico "Casamento Blindado". Cristiane é filha de Edir Macedo e, portanto, sobrinha da deputada responsável pela emenda.

Outro R$ 1 milhão foi destinado à realização do Família ao Pé da Cruz , encontro promovido anualmente pela Universal na Sexta-Feira Santa. A própria igreja o define como um "grande encontro de fé". Segundo seu site, o objetivo é "levar as pessoas a buscar a Deus em favor de suas famílias".
Outros eventos vinculados à Universal, como o Mega Help e o Mega Dance , ambos organizados pela Força Jovem Universal, braço juvenil da igreja, também receberam recursos públicos. Em todos esses casos, o Instituto Paulo Kobayashi foi responsável pela execução dos eventos.
O mecanismo não está restrito à Universal. Em levantamento nos registros federais do Transferegov, é possível identificar diversos instrumentos financiados por emendas e destinados a marchas, festivais e outras atividades marcadamente associadas ao campo evangélico.
É certo que, em alguns casos, estamos diante de zonas cinzentas. O gospel, como gênero musical, é reconhecido há mais de uma década como manifestação cultural no Brasil. Ainda assim, o reconhecimento do valor cultural da música gospel não pode servir como carta branca para o financiamento de atividades controladas por denominações específicas ou destinadas a finalidades estritamente confessionais.
O artigo 19 da Constituição proíbe o Estado de estabelecer ou subvencionar cultos e igrejas e de manter com eles relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público. É verdade que essa ressalva abre imensos debates acerca do que caberia ou não como interesse.
Ainda assim, não consigo identificar qual seja o interesse público no financiamento da Caminhada do Amor, organizada pela Universal para que seus participantes formem casais e melhorem seus relacionamentos. E, mesmo no caso dos festivais de música gospel, não seria sempre necessário distinguir o financiamento de uma manifestação cultural do custeio de uma programação organizada em torno de pregações e proselitismo religioso?
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Tanto a deputada Edna Macedo quanto o Instituto Paulo Kobayashi divulgaram notas em defesa da destinação das verbas e da execução dos eventos. Em síntese, afirmaram ter agido dentro da lei e sustentaram que a destinação e o emprego dos recursos foram transparentes. A resposta de ambos é sintomática da naturalidade com que o dinheiro das emendas passou a circular pelo terreno religioso.
Um parâmetro útil surgiu em 2022, quando o Tribunal de Justiça de São Paulo declarou inconstitucionais os dispositivos de uma lei de Sorocaba que entregavam a organização da Marcha para Jesus ao Conselho de Pastores e previam verba orçamentária para sua realização.
É razoável adotar como linha de corte mínima o princípio de que recursos públicos não financiem a agenda confessional de uma igreja nem atividades de interesse exclusivo de uma denominação. No entanto, os casos descritos aqui mostram que nem sequer essa fronteira mínima está sendo respeitada.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-toniol/2026/08/emendas-de-deputada-irma-de-edir-macedo-bancam-eventos-da-universal.shtml.

A deputada estadual Edna Macedo dedicou R$ 2,2 milhões em emendas parlamentares para financiar megaeventos vinculados à Igreja Universal do Reino de Deus - Divulgação Alesp · Divulgação Alesp — Foto: UOL
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