Em Veneza, 'Musk', documentário ambicioso, faz público temer pelo futuro
Assim que decidiu que seu próximo projeto seria este documentário, em 2019, o cineasta norte-americano Alex Gibney começou pelo começo -pedindo uma entrevista com o objeto de seu próximo mergulho cinematográfico, Elon Musk . A resposta veio pelo Twitter , rede social que ainda não havia sido comprada por Musk, e era clara, curta e grossa. "Gibney is a douche", algo como Gibney é um babaca, em linguagem bem mais grosseira. Leia mais (09/09/2026 - 15h30)

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Assim que decidiu que seu próximo projeto seria este documentário, em 2019, o cineasta norte-americano Alex Gibney começou pelo começo —pedindo uma entrevista com o objeto de seu próximo mergulho cinematográfico, Elon Musk . A resposta veio pelo Twitter , rede social que ainda não havia sido comprada por Musk, e era clara, curta e grossa. "Gibney is a douche", algo como Gibney é um babaca, em linguagem bem mais grosseira.

Para contornar a falta de respostas às perguntas do cineasta, Gibney criou um avatar de Musk, como um personagem de videogame, que lembra o bilionário sul-africano, mas é bem mais agradável de se ver, bonitão até, e que fala frases ditas por ele na vida real, em diversas entrevistas ao longo de sua carreira, desde que surgiu como um nerdão ousado e talentoso como tantos outros do Vale do Silício , no meio dos anos 1990. Curiosamente, o jovem Musk era calvo desde muito cedo, com o topo da cabeça já visível por baixo dos fios claros e ralos, muito diferente do topetão esvoaçante que ele exibiu várias vezes mais recentemente.
Uma das afirmações mais alarmantes do empresário, engenheiro, inventor e sabe-se lá o que mais, é que ele não tem certeza de que a gente vive mesmo na realidade, e não em uma simulação. Tipo o Neo, personagem de Keanu Reeves em " Matrix ", só que, na versão de Musk, ele não é "The One", o escolhido, que vai salvar a humanidade de servir como combustível para robôs de uma grande corporação que destroi o mundo. Nada disso. Ele quer ser o cara que inventa a corporação que domina o planeta. E depois o povoa só com seus descendentes, projeto este que parece bem adiantado, com seus 14 filhos conhecidos.
Ou 13, se a gente descontar a filha trans, Vivian Wilson , de 24 anos, que mudou legalmente seu gênero, seu sobrenome, e é dada como morta por seu pai, que só se refere a ela pelo nome de nascimento. Vivian é uma das cinco primeiras "crias" de Musk com sua primeira mulher, a escritora canadense Justine Musk, que teve gêmeos e trigêmeos em menos de dois anos, entre 2004 e 2006. Antes disso, o casal perdeu o primeiro filho, Nevada, nascido em 2002 e morto com 10 semanas de vida.

A morte de Nevada, aliás, é o primeiro drama da vida pessoal que acontece em esfera pública de Elon Musk e tem sua versão contestada por sua ex-mulher no documentário apresentado em Veneza. Na época da morte do bebê, em 2002, Musk escreveu no Twitter que o filho morreu em seus braços. Mas Justine conta, no documentário, que na verdade era ela que estava com o bebê no colo. Esse é um dos momentos mais emocionantes e reveladores do filme, ou, pelo menos, um dos poucos que evoca uma emoção normal, humana, mesmo que incompreensível. Ali está uma mãe, chorando a morte de um filho, e contestando a versão do pai egocêntrico.
No resto do filme, que se debruça sobre todos os aspectos da vida e da obra de Elon Musk, o que o público sente é uma mistura de desprezo, revolta e medo do futuro, além da certeza de termos falhado terrivelmente como sociedade, se este é o sujeito que acumulou a maior fortuna. Musk tem satélites que rondam várias vezes por dia toda a superfície da Terra, e são capazes de conectar, mas também espionar, todos os habitantes do planeta.
A história da vida de Elon segue uma trama quase arquetípica: um menino esquisitão que lia HQs e jogava videogame obsessivamente vira um homem poderoso e se transforma em um arqui vilão sem escrúpulos. Durante sua infância, na África do Sul , apanhava com frequência de outras crianças e, quando chegava em casa, ainda era repreendido por seu pai, Errol Musk, um tipo valentão que gosta de holofotes e trabalhou como engenheiro para os militares de seu país, teve negócios imobiliários e chegou a vender esmeraldas da Zâmbia. No filme, Errol Musk lembra de ter atirado e matado três homens negros que ameaçaram invadir sua casa nos anos 1980. E dá um conselho para os espectadores: "não apostem contra Elon se não quiserem perder".

No Festival de Veneza , onde foi apresentado fora de competição, o documentário de Alex Gibney foi representado por seu diretor e pelos produtores, mas também teve a presença da ex-influenciadora de ultra direita norte-americana Ashley St. Clair, mãe de um dos filhos do empresário, que dá entrevista no filme e contou, presencialmente, que Musk chegou a oferecer US$ 40 milhões para que ela não falasse. Seu relacionamento com o sul-africano foi pontual, ele se aproximou dela pelas redes sociais e de cara sugeriu que tivessem um filho. Curiosa pela figura do empresário, foi sendo envolvida pela maneira ‘maior que a vida’, 'larger than life', como se diz em inglês, dele se portar, viajando de avião particular pra lá e pra cá e gastando fortunas para conseguir o que quer. St. Clair conta que Musk se refere aos dinheiros que gasta com subornos, chantagens e trapaças em geral como ‘cenouras', como se as pessoas fossem coelhos em uma corrida, e fossem correr mais rápido e com mais dedicação se tivessem mais cenouras balançando em sua frente.
O documentário, narrado pelo diretor em alguns momentos, faz uma comparação de Elon Musk com o personagem de um filme inglês de 1936 chamado "O Homem Que Fazia Milagres", dirigido por Lothar Mendes e Alexander Korda, sobre um homem comum, medíocre, que, num ato aparentemente aleatório, recebe poderes divinos e consegue tudo que quer. Quando percebe que pode realizar milagres, vai aumentando o escopo de suas vontades, se declara o Rei do Mundo, mas acaba destruindo o planeta quando decide que a Terra não vai mais rodar ao redor do Sol. O filme é uma comédia. O documentário, não.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/em-veneza-musk-documentario-ambicioso-faz-publico-temer-pelo-futuro.shtml.

Cena do documentário 'Musk', sobre Elon Musk, dirigido por Alex Gibney - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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