Em seu último livro, Beatriz Sarlo faz elogio à arte de 'não entender'
Num Natal de sua infância, a ensaísta argentina Beatriz Sarlo se recusou a abrir seu presente. Estava emburrada, e um parente acabou fazendo isso por ela. Dentro da caixa havia placas de madeira envernizada e pequenos móveis: uma casa de bonecas que a menina já tinha visto na loja Harrods de Buenos Aires e que não lhe despertara o menor interesse. Leia mais (10/02/2026 - 15h00)

Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires.
Num Natal de sua infância, a ensaísta argentina Beatriz Sarlo se recusou a abrir seu presente. Estava emburrada, e um parente acabou fazendo isso por ela. Dentro da caixa havia placas de madeira envernizada e pequenos móveis: uma casa de bonecas que a menina já tinha visto na loja Harrods de Buenos Aires e que não lhe despertara o menor interesse.
A escolha não foi um engano. Sarlo conta que presentes "femininos" , que contrariavam seus desejos explícitos, eram um recurso usado pelos adultos para educá-la como uma menina. Aquela casa de bonecas, escreve, fora pensada como um "gesto pedagógico". Ela escreve que precisou esconder a fúria.

A menina que não queria brincar de vida doméstica cresceu certa de que não queria se casar nem ter filhos. Queria ser intelectual. É essa formação, mais do que a movimentada trajetória política de uma das mais importantes intelectuais argentinas de seu tempo, que ela escolheu contar em "Não Entender: Memórias de uma Intelectual" —seu último livro, concluído em 2024, poucos meses antes de sua morte.
A exclusão da política é deliberada e chama a atenção. Sarlo atravessou diferentes famílias da esquerda argentina, passando pelo peronismo , o marxismo-leninismo e o maoísmo para, mais tarde, se definir como social-democrata. Tornou-se presença frequente no debate público, convocada pela imprensa para interpretar a Argentina. Mas nada disso organiza suas memórias.
Prefere contar como se tornou a mulher que pensaria sobre tudo isso. Volta às primeiras curiosidades, aos livros difíceis, aos amigos, à família e a Buenos Aires, cidade que percorreu como leitora, professora e pesquisadora e que aparece quase como personagem.

"Adorei Buenos Aires antes de saber, ou de reconhecer, que é possível adorar uma cidade com a mesma intensidade com que se ama um ser humano", escreve.
Também estão ali as primeiras batalhas em torno dos livros. Ainda jovem, Sarlo leu "O Capital", de Karl Marx . Foi o livro que consumiu com maior intensidade. E conseguiu salvar a obra de um dos ataques da mãe, que não compreendia o fascínio da filha pelos livros e às vezes os rasgava.
Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

Mas a experiência que Sarlo escolhe para dar título às memórias não é a de saber. É a de não entender.
"Não entender foi minha primeira e definitiva experiência. Comecei não entendendo e, quase de imediato, aceitei que esse era o ponto de passagem para tudo o que valia a pena."
O que poderia soar como confissão de ignorância se transforma numa pequena teoria sobre a curiosidade e o trabalho intelectual. Não entender não é desistir diante da dificuldade. É reconhecer que há algo que ainda não possuímos e aceitar o trabalho necessário para alcançar isso. "Não entender é o capítulo inicial de uma viagem."

Sarlo tentou ler "Dom Quixote" várias vezes antes de conseguir chegar ao fim. As tentativas fracassadas não a frustraram nem foram inúteis. Ao contrário. "Não entender o 'Dom Quixote' é colocar-se em condições de lê-lo."
Diante do "Ulysses", de James Joyce , até o leitor mais culto deve começar reconhecendo a dificuldade. Para ela, a arte exige uma "ética do trabalho".
Esse intervalo entre não entender e começar a entender exige tolerância. Pode ser ocupado por releituras, consultas, outros livros, novas ferramentas. E contém uma recompensa que talvez explique a vida intelectual de Sarlo melhor do que uma lista de suas ideias: o prazer de ver alguma coisa que antes resistia à compreensão começar a se iluminar diante dos olhos.

Há algo de provocador em uma intelectual chamar suas últimas memórias de "Não Entender". Espera-se justamente o contrário de alguém assim: que compreenda, interprete e explique aos outros. Sarlo passou boa parte da vida pública fazendo isso.
No livro que deixou pouco antes de morrer, preferiu voltar ao momento anterior. Para compreender alguma coisa, sugere, é preciso primeiro suportar não compreendê-la. "Aceitar o não entender", escreve, é "um capítulo essencial e indispensável da compreensão".
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/em-seu-ultimo-livro-beatriz-sarlo-faz-elogio-a-arte-de-nao-entender.shtml.

A professora Beatriz Sarlo na Flip 2015 - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

