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    Em seu último livro, Beatriz Sarlo faz elogio à arte de 'não entender'

    Num Natal de sua infância, a ensaísta argentina Beatriz Sarlo se recusou a abrir seu presente. Estava emburrada, e um parente acabou fazendo isso por ela. Dentro da caixa havia placas de madeira envernizada e pequenos móveis: uma casa de bonecas que a menina já tinha visto na loja Harrods de Buenos Aires e que não lhe despertara o menor interesse. Leia mais (10/02/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    2 de outubro de 2026 às 18:00
    Em seu último livro, Beatriz Sarlo faz elogio à arte de 'não entender'
    Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

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    A professora Beatriz Sarlo na Flip 2015 - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress
    A professora Beatriz Sarlo na Flip 2015 - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires.

    Num Natal de sua infância, a ensaísta argentina Beatriz Sarlo se recusou a abrir seu presente. Estava emburrada, e um parente acabou fazendo isso por ela. Dentro da caixa havia placas de madeira envernizada e pequenos móveis: uma casa de bonecas que a menina já tinha visto na loja Harrods de Buenos Aires e que não lhe despertara o menor interesse.

    A escolha não foi um engano. Sarlo conta que presentes "femininos" , que contrariavam seus desejos explícitos, eram um recurso usado pelos adultos para educá-la como uma menina. Aquela casa de bonecas, escreve, fora pensada como um "gesto pedagógico". Ela escreve que precisou esconder a fúria.

    A ensaísta Beatriz Sarlo
    A ensaísta Beatriz Sarlo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A menina que não queria brincar de vida doméstica cresceu certa de que não queria se casar nem ter filhos. Queria ser intelectual. É essa formação, mais do que a movimentada trajetória política de uma das mais importantes intelectuais argentinas de seu tempo, que ela escolheu contar em "Não Entender: Memórias de uma Intelectual" —seu último livro, concluído em 2024, poucos meses antes de sua morte.

    A exclusão da política é deliberada e chama a atenção. Sarlo atravessou diferentes famílias da esquerda argentina, passando pelo peronismo , o marxismo-leninismo e o maoísmo para, mais tarde, se definir como social-democrata. Tornou-se presença frequente no debate público, convocada pela imprensa para interpretar a Argentina. Mas nada disso organiza suas memórias.

    Prefere contar como se tornou a mulher que pensaria sobre tudo isso. Volta às primeiras curiosidades, aos livros difíceis, aos amigos, à família e a Buenos Aires, cidade que percorreu como leitora, professora e pesquisadora e que aparece quase como personagem.

    Capa de 'Não Entender: Memórias de uma Intelectual', livro de Beatriz Sarlo - Divulgação · Divulgação
    Capa de 'Não Entender: Memórias de uma Intelectual', livro de Beatriz Sarlo - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Adorei Buenos Aires antes de saber, ou de reconhecer, que é possível adorar uma cidade com a mesma intensidade com que se ama um ser humano", escreve.

    Também estão ali as primeiras batalhas em torno dos livros. Ainda jovem, Sarlo leu "O Capital", de Karl Marx . Foi o livro que consumiu com maior intensidade. E conseguiu salvar a obra de um dos ataques da mãe, que não compreendia o fascínio da filha pelos livros e às vezes os rasgava.

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    Mas a experiência que Sarlo escolhe para dar título às memórias não é a de saber. É a de não entender.

    "Não entender foi minha primeira e definitiva experiência. Comecei não entendendo e, quase de imediato, aceitei que esse era o ponto de passagem para tudo o que valia a pena."

    O que poderia soar como confissão de ignorância se transforma numa pequena teoria sobre a curiosidade e o trabalho intelectual. Não entender não é desistir diante da dificuldade. É reconhecer que há algo que ainda não possuímos e aceitar o trabalho necessário para alcançar isso. "Não entender é o capítulo inicial de uma viagem."

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    Sarlo tentou ler "Dom Quixote" várias vezes antes de conseguir chegar ao fim. As tentativas fracassadas não a frustraram nem foram inúteis. Ao contrário. "Não entender o 'Dom Quixote' é colocar-se em condições de lê-lo."

    Diante do "Ulysses", de James Joyce , até o leitor mais culto deve começar reconhecendo a dificuldade. Para ela, a arte exige uma "ética do trabalho".

    Esse intervalo entre não entender e começar a entender exige tolerância. Pode ser ocupado por releituras, consultas, outros livros, novas ferramentas. E contém uma recompensa que talvez explique a vida intelectual de Sarlo melhor do que uma lista de suas ideias: o prazer de ver alguma coisa que antes resistia à compreensão começar a se iluminar diante dos olhos.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há algo de provocador em uma intelectual chamar suas últimas memórias de "Não Entender". Espera-se justamente o contrário de alguém assim: que compreenda, interprete e explique aos outros. Sarlo passou boa parte da vida pública fazendo isso.

    No livro que deixou pouco antes de morrer, preferiu voltar ao momento anterior. Para compreender alguma coisa, sugere, é preciso primeiro suportar não compreendê-la. "Aceitar o não entender", escreve, é "um capítulo essencial e indispensável da compreensão".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/em-seu-ultimo-livro-beatriz-sarlo-faz-elogio-a-arte-de-nao-entender.shtml.

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    A professora Beatriz Sarlo na Flip 2015 - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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