Em São Paulo, 'A Última Cova' transforma luto em celebração no palco
A cada vez que a morte sobe aos palcos, eu me pergunto em que cena vou tirar meu bloquinho da bolsa para anotar as novidades. É normal a gente encaixar personagens e frases naquilo que já conhece, quando fica muito perto de um assunto. O que eu mais gosto é da sensação do "isso ainda não tinha pensado". Leia mais (08/20/2026 - 12h00)

Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida
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Doutora em Direito, autora de 'A Vida Afinal: Conversas Difíceis Demais para se Ter em Voz Alta'
A cada vez que a morte sobe aos palcos, eu me pergunto em que cena vou tirar meu bloquinho da bolsa para anotar as novidades. É normal a gente encaixar personagens e frases naquilo que já conhece, quando fica muito perto de um assunto. O que eu mais gosto é da sensação do "isso ainda não tinha pensado".
Em "A Última Cova" , de Newton Moreno para Marco França, a história do coveiro-justiceiro não coube no bloquinho. Quase nada do que Djalma fala sobre enterrar corpos encontrou referência aqui. Nunca tinha me ocorrido que o único lugar onde com certeza se acha alguém que sumiu é no cemitério. Todos vão passar por lá: vivos enterrando seus mortos, mortos enterrados por seus vivos. Todas as mães.

"A Última Cova" é uma espécie de Antígona pedagógica. Da necessidade humana por ritual digno de encerramento, emerge a justiça de outro plano. Djalma sepulta corpos e liberta almas. Desobedecendo à lei dos homens, reúne defuntos que, alguém convencionou, não podem ser enterrados juntos. Protege a árvore onde a amada deixada jura que ainda encontra seu marido. Não havia uma jaqueira no palco, dizem meus olhos. Mas a história do coveiro é tão convincente, que eu poderia jurar que a vi. O teatro é infinito, como a vida.
Marco França encena um monólogo cheio de gente. As vozes dos vivos que choram seus mortos ecoam entre as notas da sanfona entoadas pelo ator e músico.
Como é a sua relação com o morrer? Meu pai morreu de leucemia quando eu tinha 21. Foi um luto à prestação. Dois anos depois, entrei para a companhia Clowns de Shakespeare , em Natal (RN), onde fiquei por 15 anos. O primeiro projeto em que trabalhei nela, como ator, foi nos moldes dos Doutores da Alegria . Ao trabalhar com pacientes, principalmente crianças, eu comecei a pensar nos cuidados paliativos , na qualidade do morrer. A pensar no que podia ter sido diferente com meu pai. E, enquanto eu enfrentava outras perdas, de tios e avós, percebi que gostava de ir a velórios, de sentir uma certa paz enquanto era acolhido pelas pessoas que faziam questão de estar ali compartilhando as despedidas.

Quais as referências para uma obra tão profunda quanto popular sobre o morrer? Em 2024, fui para o Festival de Teatro Santiago a Mil, no Chile . E uma das peças a que assisti se chamava "El Enterrador", um monólogo em catalão. Mesmo sem entender muito, por causa do idioma, pensei em como um personagem coveiro, essa figura tão invisibilizada , era incrível. Eu já vinha querendo criar um projeto mais autoral e que me permitisse rodar o país, no ano em que completo 50 anos.
A inspiração foi imediata: idealizei um personagem coveiro, num cemitério, contando histórias dos mortos que enterrou, numa linguagem popular e poética. E tinha certeza de que o dramaturgo certo para escrevê-la seria o Newton Moreno , que comprou o projeto de cara. Foi durante a pesquisa para o personagem que cheguei a vocês, do Morte sem Tabu, a "O Que te Assombra" —e também ao quadrinho "O Abismo do Esquecimento" , do desenhista Paco Roca, sobre Leoncio Baída Navarro, conhecido como "o sepultador de Paterna". Ao procurar saber sua história, descobri que a peça que havia assistido em Santiago e me dado essa inspiração era a de Leoncio Navarro.
"A Última Cova" estreou no início de julho e está em segunda temporada, emocionando plateias lotadas. O que o projeto tem significado para você? O Djalma tem me feito pensar muito sobre a urgência da vida e me dado mais pulsão de vida. E isso tem sido recorrente. Este ano eu perdi a Titina Medeiros , que foi minha companheira de palcos por 15 anos. E ela cantava, num dos espetáculos, a mesma incelença que eu canto no início e no fim da peça: "A sua mãe sentindo dor/ Duas espadas de dor". Não tem uma vez que eu não pense nela ao interpretar o sepultador.

No dia da estreia também aconteceu algo que mexeu muito comigo. O irmão da minha mãe estava em coma há sete meses, numa situação muito sofrida para todos, e morreu naquele dia, enquanto eu estava em cena. De alguma maneira, foi como se eu o tivesse ajudado a descansar, tivesse ajudado a cantar para subir. Eu senti um misto de tristeza e alívio, uma sensação de dever cumprido, para nós dois.
Falar e encenar a morte e as nossas finitudes, tem me feito viver de forma cada vez mais celebrativa. A história do Tiago Pitthan , que conheci pelo Morte sem Tabu, também foi muito inspiradora para tudo que tem acontecido. Uma espécie de ensaio para o que ainda pode vir pela frente. A vida já é tão pesada, é preciso celebrar cada dia.
Fazer o Djalma tem sido uma cura diária, uma celebração permanente. Ao fim de cada apresentação, muitas pessoas têm compartilhado as suas memórias sobre perdas e o amor que é mais forte que a morte, como digo no espetáculo. E é com esse espírito que, esta semana, retorno ao palco celebrando a existência e o legado de Dona Laura Cardoso , que sempre será uma referência no nosso ofício.

Espaço Cia. da Revista - al. Nothmann, 1.135, Campos Elíseos, região central. Sáb e seg. às 20h. Dom. às 18h. Até 31/8. Ingr.: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada) em eventim.com.br ou bilheteria física do teatro.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/morte-sem-tabu/2026/08/em-sao-paulo-a-ultima-cova-transforma-luto-em-celebracao-no-palco.shtml.

Marco França em cena com "A Última Cova" - Caio Oviedo/Caio Oviedo · Caio Oviedo/Caio Oviedo — Foto: Folha de S.Paulo
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