Em 'Reflexões sobre Shakespeare', Peter Brook defende o teatro essencial
Considerado um dos encenadores mais revolucionários do século 20, Peter Brook (1925?2022) transitava entre o teatro , a ópera e o cinema com uma clareza rara - longe do pedantismo acadêmico e da leveza excessiva. Em seu livro "Reflexões sobre Shakespeare" (Edições Sesc) , Brook liberta o dramaturgo da rigidez dos acervos históricos e o devolve ao seu território de direito: o chão de madeira do palco, a rotina exaustiva do ensaio e a eletricidade do espaço vazio. O resultado é um manifesto que desconstrói dogmas e resgata a essência mais pura e urgente da cena. Leia mais (08/13/2026 - 11h00)

O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes
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ORG XMIT: 142201_0.tif Teatro: o encenador inglês Peter Brook. (Reprodução) - Reprodução / Reprodução
Considerado um dos encenadores mais revolucionários do século 20, Peter Brook (1925–2022) transitava entre o teatro , a ópera e o cinema com uma clareza rara — longe do pedantismo acadêmico e da leveza excessiva. Em seu livro "Reflexões sobre Shakespeare" (Edições Sesc) , Brook liberta o dramaturgo da rigidez dos acervos históricos e o devolve ao seu território de direito: o chão de madeira do palco, a rotina exaustiva do ensaio e a eletricidade do espaço vazio. O resultado é um manifesto que desconstrói dogmas e resgata a essência mais pura e urgente da cena.
A reflexão começa enfrentando a antiga controvérsia em torno da autoria das peças. Diante das teorias anti-stratfordianas, que insistem em atribuir esse legado a nobres eruditos como Francis Bacon (1561-1626) ou Edward de Vere (1550-1604), o décimo-sétimo conde de Oxford , Brook aponta um preconceito elitista persistente: o pressuposto de que um homem sem diploma universitário não poderia dominar a vastidão da experiência humana.

Para um encenador habituado à dinâmica dos bastidores, essa visão ignora como o teatro elisabetano funcionava. O texto de William Shakespeare (1554-1616) não nascia como um monumento no isolamento de um gabinete, mas como material plástico, cortado e adaptado no calor do trabalho coletivo no Globe Theatre . Exigir atestados cartoriais para a genialidade do dramaturgo, nota Brook, é tão inútil quanto tentar explicar a aparição de Mozart pela via burocrática.
Outro ponto essencial do livro é a crítica contundente à tirania do chamado director’s concept — a tendência contemporânea de impor uma ideia pré-concebida e rígida sobre o texto antes de investigá-lo na prática. Quando uma encenação é enquadrada à força em uma tese fechada, reduz-se os personagens a meras ilustrações conceituais. Em oposição a essa mentalidade, Brook defende que a forma cênica deve emergir da escavação das palavras e do acolhimento do palco despojado.
Sua histórica montagem de "Sonho de uma Noite de Verão" (1970) tornou-se o grande símbolo dessa postura: ao substituir a floresta cenográfica vitoriana por uma caixa branca minimalista com elementos acrobáticos e circenses, ele buscava a tradução física da leveza e da magia da peça, provando que a simplicidade estimula a imaginação da plateia com muito mais força do que o realismo figurativo.

Essa mesma busca pela essência marcou outros momentos decisivos de sua trajetória. Em "Tito Andrônico" (1955), ao lado de Laurence Olivier e Vivien Leigh , transformou a violência gráfica de mutilações em metáforas visuais de fitas de seda vermelha, elevando a dor à dimensão poética. Em "Rei Lear" (1962), sob o impacto do diálogo com o Teatro do Absurdo de Samuel Beckett , expurgou qualquer sentimentalismo para expor a desolação e o vazio da condição humana.
Anos mais tarde, em "A Tragédia de Hamlet" (2000) , liderou um elenco multicultural em um despojamento cênico extremo, concentrando a atenção na fluidez da narrativa e no rigor do pensamento do protagonista.
A análise sobre a palavra poética e o trabalho do ator atinge uma precisão fascinante. Brook rejeita tanto a declamação solene quanto a informalidade do naturalismo, enxergando no pentâmetro iâmbico e na pontuação elisabetana um mapa para a respiração e a musculatura do intérprete. Ele observa que o verso em inglês, com cerca de dez sílabas por linha, encaixa-se com precisão no fluxo respiratório em estado de tensão emocional, empurrado pelo ritmo das consoantes.

Quando traduzido para idiomas latinos, como o português ou o francês, a mesma ideia estende-se para cerca de quatorze sílabas, deslocando a sonoridade para a melodia das vogais. O ator que trabalha nessas línguas precisa, portanto, de uma presença física ainda mais enérgica para manter a tração da cena. O ápice desse domínio técnico ocorre quando o intérprete absorve todas as regras para, no momento do espetáculo, esquecê-las por completo, fazendo a palavra soar como uma necessidade inevitável que nasce naquele exato milissegundo.
"Reflexões sobre Shakespeare" é uma meditação sobre a natureza efêmera da cena. Diferente da pintura ou do livro impresso, o espetáculo teatral cumpre seu ciclo e se encerra no próprio ato da representação. Nenhuma interpretação pretende a eternidade. Ela atinge a plenitude no instante presente do encontro entre atores e público e dissolve-se a seguir, permanecendo apenas como memória e transformação interna. É justamente nessa efemeridade que reside a vitalidade do teatro e a razão pela qual a voz de Shakespeare continua a interpelar o nosso tempo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/mise-en-scene/2026/08/em-reflexoes-sobre-shakespeare-peter-brook-defende-o-teatro-essencial.shtml.

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