Brasil

    Em que exato momento mais dinheiro deixa de melhorar sua vida?

    Há mais de 20 anos, perguntei ao meu orientador de doutorado, um sueco, o que o levava a trabalhar com tanto afinco sabendo que quase 60% do seu salário acabaria, por via da coleta fiscal, nas arcas insaciáveis do Estado. Leia mais (08/12/2026 - 19h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 22:00
    Em que exato momento mais dinheiro deixa de melhorar sua vida?
    A imagem mostra uma pessoa em pé segurando uma vassoura e varrendo uma pilha de notas de dinheiro. A pessoa veste camisa, calça e sapatos, e está inclinada em direção ao monte de dinheiro, que está acumulado no chão à sua frente. O fundo é — Foto: Folha de S.Paulo

    Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Dinheiro deixa um dia de trazer felicidade? - Catarina Pignato · Catarina Pignato
    Dinheiro deixa um dia de trazer felicidade? - Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há mais de 20 anos, perguntei ao meu orientador de doutorado, um sueco, o que o levava a trabalhar com tanto afinco sabendo que quase 60% do seu salário acabaria, por via da coleta fiscal, nas arcas insaciáveis do Estado.

    Respondeu-me que quanto mais ganhasse, mais contribuiria para o bem-estar de todos. Eu, vindo de latitudes menos crédulas, achei a resposta boba.

    Sempre me pareceram frágeis estes sistemas econômicos fundados sobre uma ideia excessivamente benigna da natureza humana. Ora, a verdade é que o homem é um animal vaidoso, invejoso, mesquinho e ferreamente competitivo, sempre com a luneta posta no triunfo do vizinho para lhe rogar secretas pragas.

    Com um punhado de moedas no bolso, o sujeito compra a ilusão de ter superado os piores fantasmas da infância, enquanto a sociedade, educadamente, finge não reparar na pequenez que continua a roer debaixo da roupa de grife.

    Por outro lado, quando a riqueza individual atinge proporções bilionárias, ela passa a mercantilizar os bens comuns e o próprio meio ambiente, acelerando fenômenos de anomia e fragmentação comunitária, ao mesmo tempo que subverte a soberania dos Estados nacionais e desequilibra as forças do mercado em favor de uma oligarquia global.

    Na democracia não há espaço para o tecnograndiosismo de Musk, Zuckerberg e Thiel . O pesquisador Luke Kemp da Universidade de Cambridge, depois de analisar mais de 400 sociedades ao longo de 5.000 anos, concluiu que a concentração de riqueza provocou, muitas vezes, a fragilização de instituições e o colapso de civilizações.

    Mas o debate político em torno da taxação dos ricos também me deixa inquieto, há algo castrador e punitivo na medida. É importante, descontada a devoção. Quando a fiscalidade se transforma num instrumento de ressentimento, a política abdica do seu papel de edificar o bem comum para se limitar a nivelar por baixo a ambição humana.

    A invectiva "taxem os ricos" de Pramila Jayapal, Jean-Luc Mélenchon ou Bernie Sanders confunde justiça fiscal com hostilidade à riqueza.

    O caminho tem de ser outro. Nos círculos acadêmicos, está ganhando densidade o debate sobre os limites materiais da riqueza. A partir de que ponto mais dinheiro deixa de trazer qualidade de vida?

    Há limites para a quantidade de férias nas Bahamas que podemos fazer, para a qualidade da medicina a que temos acesso ou para o conforto que uma casa nos dá. Uma mansão de quarenta quartos não traz uma felicidade proporcional à de quatro.

    Há uma linha de corte a partir da qual mais dinheiro deixa de gerar felicidade. A partir daí, a riqueza converte-se num fardo feito de segurança privada, perda irremediável de anonimato e burocracia contínua para gerir portfólios de investimento, reduzindo a vida a um exercício de custódia e isolamento social.

    À data da sua morte, o family office de Abilio Diniz mantinha duas centenas de funcionários só para gerir a sua fortuna.

    Se a definição de uma linha de pobreza (no Brasil é US$ 6,94 ou R$ 36 por dia por pessoa) foi um dos grandes avanços sociológicos do século passado na formulação de políticas públicas, falta-nos talvez a linha do outro extremo. Se já sabemos, com minúcia estatística, a partir de quanto uma pessoa tem pouco, deveríamos também saber a partir de quanto ela já tem o bastante para ser feliz.

    Em 1978, Jan Drewnowski introduziu a ideia de uma linha de riqueza (affluence line), procurando medir não a escassez, mas o ponto a partir do qual recursos adicionais já pouco acrescentam à satisfação das necessidades materiais.

    Em 2006, o sociólogo brasileiro Marcelo Medeiros propôs uma metodologia para defini-la a partir da distribuição de renda e do próprio limiar de pobreza. Pierre Concialdi pesquisou o tema no contexto das economias europeias, enquanto a acadêmica belga e neerlandesa Ingrid Robeyns, a partir de 2017, o incorporou a uma teoria normativa dos limites da riqueza e cunhou o termo "limitarianismo".

    Desde então, o tema passou a dialogar com a literatura acadêmica sobre suficiência, autonomia individual, desigualdade política e concentração patrimonial.

    Naturalmente, a linha de riqueza é um conceito relativo, variando entre a realidade de um brasileiro e a de um norueguês, em função do custo de vida e das estruturas de proteção social. R$ 20 milhões também não é o mesmo para um residente em Ipanema no Rio de Janeiro ou em Santana do Ipanema em Alagoas.

    Fixar a linha de corte está longe de ser um exercício matemático simples. Não depende apenas do custo de vida ou da capacidade de consumo, mas de fatores psicológicos e sociais. Eventualmente de gênero também. Por isso é um desafio interessante.

    O propósito desta ferramenta conceptual não é proibir a acumulação de patrimônio, mas oferecer uma métrica que permita a cada indivíduo reconhecer a sua própria zona de saturação material. Ultrapassado esse limiar, a escolha permanece pessoal.

    Alguns continuarão a acumular, porque a riqueza pode saturar como fonte de bem-estar sem saturar como instrumento de poder; outros poderão ver nesse ponto a oportunidade de redirecionar tempo e capital para fins de maior utilidade social ou realização pessoal.

    Faz então sentido perguntar: se dinheiro e felicidade deixam de caminhar juntos depois de certo ponto, por que continuamos medindo o nosso sucesso pela quantidade de dinheiro que conseguimos acumular? Talvez a resposta do meu orientador de doutorado, um célebre economista, não tenha sido tão insensata assim. O bobo não era ele.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-tavares/2026/08/em-que-exato-momento-mais-dinheiro-deixa-de-melhorar-sua-vida.shtml.

    Imagem 1

    Dinheiro deixa um dia de trazer felicidade? - Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)