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    Em 'Precisamos Falar', pais de elite vivem dilema sobre acobertar crime dos filhos

    Você acorda com essa notícia: "Uma mulher em situação de rua morreu quando o caixa eletrônico em que ela dormia explodiu. A câmera de segurança mostra que a explosão foi causada por um artefato de fogo de artifício jogado contra a vítima por um adolescente . Outros dois jovens estavam no local." A polícia não identificou os envolvidos, mas você sim. E seu filho está entre eles. O que você faz? Leia mais (09/23/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    23 de setembro de 2026 às 18:00
    Em 'Precisamos Falar', pais de elite vivem dilema sobre acobertar crime dos filhos
    Mulher e homem sentados lado a lado em sofá claro, cada um segurando uma taça de vinho branco. Mulher veste vestido preto e está recostada com expressão pensativa, homem veste jaqueta marrom e camisa clara, olhando para frente. Ambiente int — Foto: Folha de S.Paulo

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    Você acorda com essa notícia: "Uma mulher em situação de rua morreu quando o caixa eletrônico em que ela dormia explodiu. A câmera de segurança mostra que a explosão foi causada por um artefato de fogo de artifício jogado contra a vítima por um adolescente . Outros dois jovens estavam no local." A polícia não identificou os envolvidos, mas você sim. E seu filho está entre eles. O que você faz?

    Marjorie Estiano e Alexandre Nero, em cena do filme 'Precisamos Falar'; eles interpretam casal que, em jantar, fala sobre encobrir assassinato cometido pelo filho adolescente - Rachel Tanugi/Divulgação · Rachel Tanugi/Divulgação
    Marjorie Estiano e Alexandre Nero, em cena do filme 'Precisamos Falar'; eles interpretam casal que, em jantar, fala sobre encobrir assassinato cometido pelo filho adolescente - Rachel Tanugi/Divulgação · Rachel Tanugi/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Essa é a provocação central de "Precisamos Falar" , que estreia nesta quinta-feira (24). O longa-metragem brasileiro é a quinta adaptação do best-seller holandês "O Jantar", de Herman Koch, inspirado na história real de uma mulher morta dessa maneira, em 2005, em Barcelona. Uma das adaptações para o cinema é a americana, de 2017, com o mesmo título do livro e protagonizada por Richard Gere.

    O enredo se desenvolve em torno do encontro de dois casais brancos da elite econômica: um deles, pais do rapaz que atirou o artefato, e o outro casal, dos meninos que o acompanhavam. Entre brindes com vinho caro e pratos de alta gastronomia, eles decidem se devem ou não entregar os filhos para a polícia.

    Em "Precisamos Falar", Marjorie Estiano e Alexandre Nero interpretam os pais do maior culpado. Hermila Guedes e Emílio de Mello, dos outros dois adolescentes.

    Veja cenas do filme 'Precisamos Falar'
    Veja cenas do filme 'Precisamos Falar' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    E não faltam ingredientes para aumentar a indigestão desse banquete, a começar pelo fato de que os dois homens são irmãos, ou seja, o adolescente que causou a explosão é primo dos outros. Desses dois garotos, um foi adotado e, desde pequeno, sofre com bullying e racismo do primo por ser negro. E ainda tem a cereja do bolo azedo: o pai deles é candidato a governador, favorito nas pesquisas, e o crime, de enorme repercussão, aconteceu às vésperas da eleição.

    Os casais arrotam elegância enquanto analisam suas opções no cardápio de privilégios, impunidade e desigualdade, para depois pagarem a conta com "o futuro dos meninos". No embate polarizado daquele jantar, o prato principal acaba sendo a própria sociedade, com os dilemas morais e éticos de cada tempo e lugar.

    E o tempero de "Precisamos Falar" tem gosto de Brasil, com as duas mulheres atuando como antagonistas, uma vomitando narrativas progressistas e a outra, antiprogressistas, com contradições para todos os gostos: "Posso encontrar meninos pobres que assumam o crime, e pagamos um dinheiro que pode mudar a vida deles"; "A moral e a ética que vocês tanto pregam é do muro de casa para fora?"; "Se um deles se casa um dia e dá porrada na mulher, a gente também vai dar um jeito?"; "Racista, fascista!"; "Ah, chega de mimimi..."

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Com direção de Rebeca Diniz e Pedro Waddington, o roteiro da adaptação nacional é assinado por Sergio Goldenberg, com supervisão de George Moura –ambos roteiristas premiados e veteranos do cinema e da TV, escreveram juntos recentemente para a Globoplay as telenovelas "Guerreiros do Sol", do ano passado, e "Paraíso Perdido", que estreia no ano que vem.

    "Duas questões se colocam no filme. É moralmente esperado que você respeite as leis do país, a Justiça, assim como é moralmente esperado que você proteja seu filho", diz Goldenberg. "É bom que o espectador se sente à mesa e se coloque um pouco na pele daqueles personagens."

    Em pesquisas para o roteiro, Goldenberg reviu crimes famosos no Brasil envolvendo jovens das altas classes socioeconômicas. Um deles é o do líder indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos , queimado enquanto dormia em um ponto de ônibus, em Brasília, em 1997, por cinco rapazes —a defesa sustentou que não passou de "brincadeira", "ato inconsequente de jovens".

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Outro é o do filho da apresentadora Ciça Guimarães , atropelado e morto aos 18 anos por um veículo em alta velocidade, em um túnel interditado, no Rio de Janeiro, em 2010 –o pai do rapaz que dirigia o veículo ofereceu propina a PMs para evitar a prisão em flagrante do filho.

    Em sua adaptação, Goldenberg foi além do thriller psicológico centrado no jantar, para criar sequências de suspense com os garotos. Enquanto os pais se alimentam da ideia de controlar o destino dos filhos, em uma sala de jantar com iluminação confortável, os adolescentes estão lá fora, no escuro, terminando de entornar o caldo das inconsequências.

    O roteirista aproveita para acrescentar mais um condimento forte, que não fazia parte do romance: a violência extrema entre adolescentes nas redes sociais. No filme, o jovem exibe na internet o vídeo da mulher morrendo queimada.

    "Os garotos usam hoje as redes sociais para acessar as vítimas, marcar as ações e transmitir tudo. É terrível. Isso mexe muito com a gente, especialmente quando somos pais", diz o roteirista, que tem filhos de dez, 23 e 28 anos.

    Ele conta que ficou extremamente impressionado com o caso recente da menina de 13 anos, do Mato Grosso do Sul, induzida por outros adolescentes a se suicidar em uma transmissão ao vivo do Discord —o episódio levou à proibição de lives da plataforma no país.

    "Tento imaginar o que se passa na cabeça deles. Há uma necessidade de espetacularizar o sofrimento, um sadismo que escala de uma maneira assustadora", afirma. "Tenho vontade de fazer um filme sobre essa história da Lívia [a menina morta na live ], documentário ou ficção, porque precisamos olhar para isso e pensar em formas de interceder."

    Em "Precisamos Falar", o intérprete do jovem que mata a mulher no caixa eletrônico e exibe o crime nas redes sociais é o ator Thiago Voltolini, 24. Ele começou a atuar ainda na infância e já participou de novelas da Globo.

    "Tomei um choque quando li o roteiro e vi o tamanho da responsabilidade de fazer esse personagem", ele diz. "Tentei achar alguma humanidade nesse cara que faz coisas terríveis, e fui percebendo que ele não é um psicopata, mas fruto da criação desses pais, dessa bolha, e isso o deixa ainda mais assustador, porque ele é real, é alguém que está por aí."

    Depois de encarar o drama e a violência em "Precisamos Falar", Thiago se voltou à comédia. Ele está em cartaz no papel de Fabio Porchat na peça "Meu Filho É Um Musical" , sobre a vida do comediante Paulo Gustavo.

    Com produção da Conspiração e da Globo Filmes, essa é a estreia na direção de longas de Pedro Waddington, que já dirigiu as séries documentais "Anitta: Made In Honório" e "Em Casa com os Gil". Ele também integrou a direção da série "Sob Pressão", ao lado de Andrucha Waddington, seu pai —outro Pedro Waddington, seu primo, é o ator que fez o papel de Tiago Roitman na nova versão de "Vale Tudo".

    Rebeca Diniz também é estreante no comando de um longa-metragem, mas tem mais de duas décadas em sets de cinema e TV –está no núcleo de direção das séries "Juntas e Separadas" e "Emergência 53" , nessa última, com Pedro e Andrucha.

    "Precisamos Falar" entra em cartaz em 80 salas de cinema, estreia modesta para o cinema brasileiro —blockbusters nacionais, para se ter uma ideia, superam mil salas—, mas depois deve ganhar fôlego em plataformas de streaming.

    A Conspiração não divulga o orçamento, mas o formato, com poucos cenários, é mais econômico. "Esses dilemas morais rendem bons filmes de sala, filmes de diálogo, e, além disso, existe uma grande demanda da indústria por produções que sejam fortes, mobilizem o público, mas tenham custo acessível", diz Goldenberg.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/em-precisamos-falar-pais-de-elite-vivem-dilema-sobre-acobertar-crime-dos-filhos.shtml.

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    Marjorie Estiano e Alexandre Nero, em cena do filme 'Precisamos Falar'; eles interpretam casal que, em jantar, fala sobre encobrir assassinato cometido pelo filho adolescente - Rachel Tanugi/Divulgação · Rachel Tanugi/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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