Em 'Morte e Vida Madalena', cinema brasileiro se torna um parto de difícil gestação
Comédia segue produtora grávida que pena para acabar filme

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Dar à luz um filme pode ser tão difícil quanto gestar um bebê. É o que Guto Parente mostra em " Morte e Vida Madalena ", longa em que a protagonista, uma produtora grávida de oito meses e cheia de problemas, pena para terminar seu novo projeto.

No set, ela tenta conceber uma ficção científica que flerta com o absurdo, mas os casos que ocorrem atrás das câmeras refletem vivências do diretor, da produtora Ticiana Augusto Lima e de outros que já colaboraram com a dupla.
"O cinema sempre teve vocação para filmar o trabalho, e fazer filmes é um trabalho como qualquer outro", diz Parente, que se firmou com o Alumbramento , coletivo independente que ajudou a projetar o cinema do Ceará . "É um circo. Você monta uma trupe, que muda a cada apresentação. O grupo vai lá, ergue estruturas, une esforços por um tempo e depois desfaz tudo, antes de partir para a próxima."
No início, sua turma não exigia grandes aparatos —quando criado, em 2006, o Alumbramento fez do orçamento limitado uma máxima. O primeiro marco aconteceu em 2010, ano em que " Estrada para Ythaca " fez história no Festival de Tiradentes , em Minas Gerais.

Com atuações de quatro sócios do coletivo —o próprio Parente, os realizadores Ricardo e Luiz Pretti e o também diretor Pedro Diógenes —, o projeto se destacou pela falta de um roteiro habitual, feito a partir de situações improvisadas, e pelos visuais de baixa definição, e venceu o troféu de melhor filme na mostra Aurora, voltada a novos autores.
Na época, o longa sobre amigos que buscam uma terra mítica após perder um colega virou um exemplo definitivo para obras exibidas naquela seção do festival, e reforçou o evento como vitrine para vozes que desafiam regras.
Hoje, à frente da Tardo Filmes, produtora de Lima e à qual se juntou em 2012, Parente vê a escala de seus filmes crescer, mas sem ignorar dramas íntimos e familiares. São eles que descortinam crises nas gravações de Madalena, papel de Noá Bonoba.

Após o sumiço do ex-marido, escolhido por ela para comandar o roteiro do pai recém-morto, a produtora promove um ator à direção e encara caprichos do artista, tensões da equipe e efeitos da gravidez, entre outros fatores que tornam o set em campo de batalha.
De um lado, a morte do pai de Parente, que também inspirou o fantasmagórico " Estranho Caminho ", é uma das rimas entre a realidade e o seu filme mais recente. Do outro, fora a rotina conturbada entre produções, uma coincidência se deu como presságio —pouco após o fim das filmagens, Lima descobriu que estava grávida. Sua bebê nasceu em tempo de ser incluída em gravações extras.
"A personagem vem do estudo de uma profissão comumente invisível. O público precisa saber quem são essas mulheres, que costumam atuar por trás de homens cisgêneros brancos e estruturar tudo de forma silenciosa", diz Bonoba, que já foi produtora.

Segundo ela, "Morte e Vida Madalena" é uma ode ao cinema independente, mas que não romantiza seus desafios. "O arco de Madalena sintetiza essa noção —ela transforma o luto e a dor em pulsão de vida, em potência criativa, alinhando o parto do filme ao seu próprio."
Embora a identidade de gênero não seja abordada pelo filme, a artista, que se autodeclara travesti, tem usado o termo "cisfake" em palestras e entrevistas sobre o longa, já que a protagonista é uma mulher cisgênero.
Pouco conhecido, já que são raros os casos, o "cisfake" propõe uma inversão e traz debates sobre o "transfake", prática há muito denunciada por pessoas trans e que diz respeito à escolha de artistas cisgêneros para papéis trans.

"Há um delírio de que temos e sempre tivemos as mesmas condições de trabalho", diz Bonoba. "Hoje, no Brasil, vivemos um retrocesso de papéis para pessoas trans. Houve um momento em que a diversidade interessava a realizadores, mas tais personagens estão sendo escritas de forma empobrecida ou estão simplesmente sumindo."
Ela diz que a busca pela internacionalização, haja visto o sucesso de " O Agente Secreto " e " Ainda Estou Aqui ", num período em que os Estados Unidos flertam com a extrema-direita, pode estar influenciando esse processo.
A celebração de corpos dissidentes também passa pela fantasia do longa. Num dado momento, Madalena sorri para sua versão criança, que a vê atrás de um muro. Nessa cena, quem dá vida à última é Raul Lôbo, menina trans que, segundo Lima, se sentiu vista em seu primeiro trabalho de ficção.

Esse teor fantasioso é comum a Parente, que costuma costurar gêneros como o drama, a comédia e o terror. Em "Inferninho", um de seus títulos mais conhecidos, o diretor vê um grupo de pessoas queer se refugiar num bar com um garçom vestido de coelho. Lá, cores fortes e episódios oníricos deslocam o estabelecimento de durezas diárias.
Ele e Bonoba dizem que essa mistura de códigos, com que filmes americanos e do Sudeste brasileiro domesticaram o público, pode também romper padrões. "O cinema de gênero vem de uma matriz comercial, categorizando e vendendo filmes", afirma Parente.
"Existe uma expectativa do Sudeste quanto ao cinema nordestino. Se você não corresponde a ela, está fora. Ao meu ver, o que fazemos é devorar esses códigos, acrescentar nossos ingredientes e fazer uma lambança, com feijão, sushi e farofa. Pode ser um pouco indigesto, mas traz novas descobertas."
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/em-morte-e-vida-madalena-cinema-brasileiro-se-torna-um-parto-de-dificil-gestacao.shtml.

Noá Bonoba em cena do filme 'Morte e Vida Madalena', de Guto Parente - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL
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