Brasil

    Em 'Morte e Vida Madalena', cinema brasileiro se torna um parto de difícil gestação

    Comédia segue produtora grávida que pena para acabar filme

    UOL
    18 de setembro de 2026 às 03:00
    Em 'Morte e Vida Madalena', cinema brasileiro se torna um parto de difícil gestação
    A imagem mostra uma pessoa com cabelo cacheado e escuro sorrindo por cima de uma parede. O fundo é um céu azul claro, e a pessoa parece estar em um ambiente ao ar livre. As mãos da pessoa estão apoiadas na parte superior da parede, e seu ro — Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Dar à luz um filme pode ser tão difícil quanto gestar um bebê. É o que Guto Parente mostra em " Morte e Vida Madalena ", longa em que a protagonista, uma produtora grávida de oito meses e cheia de problemas, pena para terminar seu novo projeto.

    Noá Bonoba em cena do filme 'Morte e Vida Madalena', de Guto Parente - Divulgação · Divulgação
    Noá Bonoba em cena do filme 'Morte e Vida Madalena', de Guto Parente - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    No set, ela tenta conceber uma ficção científica que flerta com o absurdo, mas os casos que ocorrem atrás das câmeras refletem vivências do diretor, da produtora Ticiana Augusto Lima e de outros que já colaboraram com a dupla.

    "O cinema sempre teve vocação para filmar o trabalho, e fazer filmes é um trabalho como qualquer outro", diz Parente, que se firmou com o Alumbramento , coletivo independente que ajudou a projetar o cinema do Ceará . "É um circo. Você monta uma trupe, que muda a cada apresentação. O grupo vai lá, ergue estruturas, une esforços por um tempo e depois desfaz tudo, antes de partir para a próxima."

    No início, sua turma não exigia grandes aparatos —quando criado, em 2006, o Alumbramento fez do orçamento limitado uma máxima. O primeiro marco aconteceu em 2010, ano em que " Estrada para Ythaca " fez história no Festival de Tiradentes , em Minas Gerais.

    Confira cenas de 'Morte e Vida Madalena', filme de Guto Parente
    Confira cenas de 'Morte e Vida Madalena', filme de Guto Parente — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Com atuações de quatro sócios do coletivo —o próprio Parente, os realizadores Ricardo e Luiz Pretti e o também diretor Pedro Diógenes —, o projeto se destacou pela falta de um roteiro habitual, feito a partir de situações improvisadas, e pelos visuais de baixa definição, e venceu o troféu de melhor filme na mostra Aurora, voltada a novos autores.

    Na época, o longa sobre amigos que buscam uma terra mítica após perder um colega virou um exemplo definitivo para obras exibidas naquela seção do festival, e reforçou o evento como vitrine para vozes que desafiam regras.

    Hoje, à frente da Tardo Filmes, produtora de Lima e à qual se juntou em 2012, Parente vê a escala de seus filmes crescer, mas sem ignorar dramas íntimos e familiares. São eles que descortinam crises nas gravações de Madalena, papel de Noá Bonoba.

    Veja cenas do filme 'Estranho Caminho', de Guto Parente
    Veja cenas do filme 'Estranho Caminho', de Guto Parente — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Após o sumiço do ex-marido, escolhido por ela para comandar o roteiro do pai recém-morto, a produtora promove um ator à direção e encara caprichos do artista, tensões da equipe e efeitos da gravidez, entre outros fatores que tornam o set em campo de batalha.

    De um lado, a morte do pai de Parente, que também inspirou o fantasmagórico " Estranho Caminho ", é uma das rimas entre a realidade e o seu filme mais recente. Do outro, fora a rotina conturbada entre produções, uma coincidência se deu como presságio —pouco após o fim das filmagens, Lima descobriu que estava grávida. Sua bebê nasceu em tempo de ser incluída em gravações extras.

    "A personagem vem do estudo de uma profissão comumente invisível. O público precisa saber quem são essas mulheres, que costumam atuar por trás de homens cisgêneros brancos e estruturar tudo de forma silenciosa", diz Bonoba, que já foi produtora.

    Confira cenas de 'Inferninho', filme de Guto Parente e Pedro Diógenes
    Confira cenas de 'Inferninho', filme de Guto Parente e Pedro Diógenes — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Segundo ela, "Morte e Vida Madalena" é uma ode ao cinema independente, mas que não romantiza seus desafios. "O arco de Madalena sintetiza essa noção —ela transforma o luto e a dor em pulsão de vida, em potência criativa, alinhando o parto do filme ao seu próprio."

    Embora a identidade de gênero não seja abordada pelo filme, a artista, que se autodeclara travesti, tem usado o termo "cisfake" em palestras e entrevistas sobre o longa, já que a protagonista é uma mulher cisgênero.

    Pouco conhecido, já que são raros os casos, o "cisfake" propõe uma inversão e traz debates sobre o "transfake", prática há muito denunciada por pessoas trans e que diz respeito à escolha de artistas cisgêneros para papéis trans.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Há um delírio de que temos e sempre tivemos as mesmas condições de trabalho", diz Bonoba. "Hoje, no Brasil, vivemos um retrocesso de papéis para pessoas trans. Houve um momento em que a diversidade interessava a realizadores, mas tais personagens estão sendo escritas de forma empobrecida ou estão simplesmente sumindo."

    Ela diz que a busca pela internacionalização, haja visto o sucesso de " O Agente Secreto " e " Ainda Estou Aqui ", num período em que os Estados Unidos flertam com a extrema-direita, pode estar influenciando esse processo.

    A celebração de corpos dissidentes também passa pela fantasia do longa. Num dado momento, Madalena sorri para sua versão criança, que a vê atrás de um muro. Nessa cena, quem dá vida à última é Raul Lôbo, menina trans que, segundo Lima, se sentiu vista em seu primeiro trabalho de ficção.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Esse teor fantasioso é comum a Parente, que costuma costurar gêneros como o drama, a comédia e o terror. Em "Inferninho", um de seus títulos mais conhecidos, o diretor vê um grupo de pessoas queer se refugiar num bar com um garçom vestido de coelho. Lá, cores fortes e episódios oníricos deslocam o estabelecimento de durezas diárias.

    Ele e Bonoba dizem que essa mistura de códigos, com que filmes americanos e do Sudeste brasileiro domesticaram o público, pode também romper padrões. "O cinema de gênero vem de uma matriz comercial, categorizando e vendendo filmes", afirma Parente.

    "Existe uma expectativa do Sudeste quanto ao cinema nordestino. Se você não corresponde a ela, está fora. Ao meu ver, o que fazemos é devorar esses códigos, acrescentar nossos ingredientes e fazer uma lambança, com feijão, sushi e farofa. Pode ser um pouco indigesto, mas traz novas descobertas."

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/em-morte-e-vida-madalena-cinema-brasileiro-se-torna-um-parto-de-dificil-gestacao.shtml.

    Imagem 1
    1 / 6

    Noá Bonoba em cena do filme 'Morte e Vida Madalena', de Guto Parente - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)